GRANDE BANDALHEIRA

Desculpem o título mas não fui eu que o pronunciei recentemente (pelo menos em acto público e sem negar que já o proferi entre gente conhecida reportando-me a coisas que brigam com o sentimento comum ou, pelo menos, com o meu).

Desta vez quem o proferiu em público foi o responsável pelo maior partido da oposição referindo-se a coisas que, na sua apreciação, o governo teria feito de menos bem (não se sabe como ele próprio as faria…). Este tipo de desabafo é típico de quem, em política, escolhe os caminhos dos ataques de caráter e das calúnias mais reprováveis, na ausência de substância ou provas. É comum aparecer em abundância este tipo de gente que, com origem nas juventudes partidárias e acabado um cursinho superior (muitas vezes com fracas provas dadas) enveredam pela carreira política sem outras experiências de vida, sempre tão necessárias para se criar uma personalidade forte, uma forma digna de pensar para poder ser responsável nos ambientes políticos que venha a escolher. Pior é quando este tipo de pronunciamento é feito por responsável por um partido e com vida profissional estabelecida.

Relembrando Eça de Queirós escreveu ele a certo passo: “Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta a aptidão, o bom senso, o engenho e a moralidade nestes dois factos que constituem o movimento político das nações. A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.”

Tudo isto escrito em 1867 tem hoje, como se comprova, uma dolorosa atualidade. Num tempo em que o país atravessa um período de campanhas eleitorais o cidadão, aquele que verdadeiramente deverá escolher quem governará o país, não pode deixar de ficar perplexo perante os dislates deste tipo (bandalheira é apenas um exemplo no meio de outros) e, sem saber o que, na realidade, aqueles candidatos verdadeiramente propõem como governação, reserva-se o direito de não votar, de se abster, o que inquina estruturalmente o país e a democracia.

Também Eça dizia: “Para ensinar há uma formalidade a cumprir – saber.” E talvez seja por isso que não conhecemos as opiniões dos que enveredam pela via do insulto, da calúnia e do atroz ataque de caráter.

Pegando ainda em Eça: “Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas linhas benditas, os homens praticam todas as ações – mesmo as boas”.

Como perceberão o texto de hoje não tem qualquer intenção de intervenção política. Pelo contrário, incluo-me no enorme grupo de gente que, em Março próximo, irá depositar o seu voto numa urna devidamente credenciada. Por isso este meu texto é mais um “grito de alma” para que esse voto (e os outros milhares) possa apoiar um projeto, uma elevação de sentidos, uma dignidade institucional de que o nosso país tanto carece. Porque, na ausência desses votos convictos, o campo ficará aberto a um novo mundo pouco democrático cujas consequências conhecemos mas que não desejamos.

Para que não se repita o que (mais uma vez) Eça escreveu: “Os políticos e as fraldas são semelhantes, possuem o mesmo conteúdo.”

Um pensamento sobre “GRANDE BANDALHEIRA

  1. O insulto é o refúgio dos ignorantes, de quem não tem argumentos válidos e de quem esqueceu a educação que eventualmente tenha recebido em pequeno

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