No fim de cada ano todos nós, quase involuntariamente, relembramos os familiares ou amigos que partiram e nos deixam saudades. Outros não partiram mas as suas condições de vida suscitam-nos também um enorme pesar. É a lei da vida. A todos nós chegará a hora de partida. O que não nos impede de tentarmos valorizar aquilo que nos resta, de meditar sobre o que teremos feito ou não feito. Dessa reflexão poderá nascer uma nova alegria de viver, embora atenuada, que nos ajude a percorrer o caminho que nos falta e que prolongue a nossa felicidade para além dos escolhos sobre os quais caminhamos ou já caminhámos. A família, a que nos rodeia ou, para os menos felizes, a que gostariam que os rodeasse, pode ser um estímulo reconfortante para as missões a que nos possamos ainda dedicar.
Para além desta introdução que não pode ser, infelizmente, uma ode à alegria, somos também levados a lembrar algumas celebridades internacionais que preencheram as nossas juventudes, com as suas artes e as suas intervenções que de quando em quando recordamos para além dos tempos.
No ano de 2023 deixou-nos, por exemplo, Gina Lollobrigida, já com 95 anos, mas que nossos tempos de estudantes nos fazia faltar às aulas para a irmos ver no filme Trapézio com Burt Lancaster; ou no Corcunda da Norte Dame com Anthony Quinn. A sua inesquecível beleza apareceu, com mais relevo, no ano de 1952 contracenando com Vittorio De Sica, outro monstro desaparecido do cinema italiano.
Quem não se lembra da mini-saia aparecida em 1959/1960, idealizada pela “designer” de moda do bairro de Chelsea, em Londres, Mary Quant? Foi distinguida com o título de Dame Mary Quant, tendo chegado até aos nossos dias as suas diferentes linhas de vestuário e de cosméticos. Morreu também em 2023 com 93 anos.
Sempre que, nos tempos atuais, sou desafiado a ver ou a ouvir a ópera Carmen sempre me lembro da fantástica versão dos anos 50 do século passado, Carmen Jones, com os fantásticos Harry Belafonte e Dorothy Dandrige. Um dos tais filmes que nos fazia falhar as aulas da tarde. Harry Belafonte deixou-nos também em 2023, com 96 anos, tendo dedicado grande parte da sua vida à defesa dos direitos humanos, em especial à defesa dos direitos dos negros nos Estados Unidos, nos tempos aúreos do seu amigo Martin Luther King.
E quem não se lembra da fantástica e explosiva Raquel Welch que decorou tantos gabinetes pelo mundo fora com a sua imagem de Leoa, usando um biquini forrado a pele? Foi um ícone da beleza durante muitos anos e deixou-nos também em 2023, com 82 anos de idade. Estes comentários não serão hoje muito apreciados pelo MeToo mas as memórias superam esse diferendo, assim espero.
O último que reparei ter também desaparecido em 2023 foi Burt Bacharach, com 94 anos, compositor e pianista famoso, autor de músicas românticas que levaram, na sua época, muitos casais a encostarem os rostos enquanto as dançavam. As suas músicas foram ouvidas durante muitos anos e ainda hoje, algumas das suas melodias, constam das “play-lists” de algumas rádios.
Chega de falar dos que partiram. Concentremo-nos mais nos que nasceram em 2023 ou que estão a nascer em 2024, porque esses poderão vir a ser as celebridades, em tantas outras áreas, como os que hoje recordámos nunca poderiam ter alcançado.
Viva a vida! E sempre em frente, que atrás vem gente!
Pequenas delícias da vida, que este texto trouxe, e arrancou à memoria. Os meus já muito, muito perto, 90 anos, foram inundados pela beleza de uma vida, que a minha juventude, não teve a acuidade de dar o justo valor ao que ia perdendo todos os dias. Somo todos os episódios, que aos poucos recupero de um sótão desarrumado , e sinto-me só, isolado, num mundo diferente daquele, que imaginariamente nos parecia iluminar os dias…!
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