MAJORES E TENENTES GENERAIS

A televisão é, desde há muito, o meio preferencial para dar opiniões, divulgar ideias, apresentar propostas sobre os mais diversos e variados temas. Os jornalistas socorrem-se, normalmente, de peritos nas áreas que abordam nas entrevistas de modo a não cometerem erros graves mas dando, também, aos entrevistados os meios de escape necessário aos seus discursos laudatórios.

Desde há tempos largos que a guerra, as múltiplas guerras que enfernizam o mundo, são bom motivo de declarações mais ou menos bombásticas de convidados a falar sobre essas matérias. Para além dos comentadores especializados, pertencentes aos próprios quadros do canal (não sei qual o estatuto) aparecem, com frequência, em todos eles, majores e tenentes generais já reformados (também aparecem almirantes) que discorrem sobre o dia a dia das guerras e as implicações que, inevitavelmente, ela nos trazem. Calculo que pelas idades dessa “generalada”, terão passado ou vivido pelos incidentes de há 50 anos, o 25 de Abril de 1974. É uma irrecusável marca de água.

São figuras tranquilas, sedimentadas nas suas vidas, que já viveram ou passaram por eventos mais ou menos marcantes. Nada de mal. Espero que, como convidados militares profissionais, embora na reserva, não beneficiem de avenças que me pareceriam despropositadas.

Os temas para essas conversas têm sido abundantes. Os conflitos regionais (principalmente Ucrânia -Rússia e Israel-Gaza), e mais recentemente os conflitos no Mar Vermelho, são apetitosos para os entrevistadores e entrevistados. Os pivôs dos noticiários que de guerra nada devem saber (se calhar nem o serviço militar cumpriram) procuram, junto de outros generais e almirantes ocultos, as listas de perguntas que devem ser feitas para que os outros, os expostos, respondam com coerência. Acredito que, no mundo falso em que vivemos, tudo isso seja já previamente combinado.

Alguns dos entrevistados respondem solenemente com bonomia às cavilosas perguntas que às vezes lhes aparecem, enquanto que outros, mais temperamentais e confiantes do seu saber, se derramam em pareceres e juízos que fazem, dos acontecimentos em curso, guerras iminentes que nos vão entram nas nossas casas a breve trecho, prognosticando, desde já, a teoria da 3ª guerra mundial.

Já os vamos conhecendo e percebemos que uns resvalam muito para as capacidades e para a magia esquizofrénica da Rússia, enquanto que outros lá vão mantendo os seus pareceres na supremacia americana e na ajuda que a Europa sempre dela receberá. Mesmo quando se fala da possível vitória de Trump mas próximas eleições americanas (não se referem ao Pentágono) os discursos são evasivos: entre a desgraça e a harmonia planetária.

Curiosamente, agora que se aproximam as eleições legislativas em Portugal , muitos dos comentários vão no sentido de criticar os programas dos partidos que não se referem ao que prevêem para a Defesa Nacional e para o nosso indispensável esforço de guerra.

Talvez se baseiem num documento a que foi dado o nome de “A Insustentável Situação dos militares da Forças Armadas”, produzido por um um “Grupo de Reflexão Estratégica Independente” (abreviadamente GREI), assinado, aliás, por alguns dos comentadores que vejo na televisão.

Até aqui nada de mal. Acontece, e aconteceu há dois dias, a dissertação de um tenente-general sobre o caos das guerras em curso, das suas implicações no resto da Europa (referia-se à Ucrânia) e da inevitabilidade dos progressos da Rússia pela Europa dentro até fronteiras hoje em paz e desprevenidas. A sua experiências dizia-lhe (já tinha participado em diversas operações de paz e em congressos militares do mais alto nível) que, uma vez ultrapassada a Ucrânia, iria a Moldávia e, seguramente o resto da Europa, até Portugal. As nossas defesas eram nulas , mesmo no quadro europeu, e a nossa indústria militar paralisada desde há muitos anos (fiquei a supor desde a guerra colonial) seria incapaz de nos proteger de uma “fisga” russa um pouco mais evoluída. Atormentou-nos também com o mar que banha as nossas costas , das quais um submarino russo nos atingiria a brincar com um foguetão de meia-tijela. Enfim, para além das suas expressões faciais kafkianas, o seu objetivo, bem intencionado, claro, era avisar-nos que uma terceira guerra mundial se aproximava rapidamente e que Portugal estaria miseravelmente envolvido. Ainda admitiu que os nossos meios cibernéticos de proteção não seriam dos piores para a condenação e o martírio que estavam para breve. O próprio pivô do telejornal olhava esgazeado porque já não tinha mais perguntas para lhe fazer e, por ele, não sei se estaria já a pensar para onde fugir depois do telejornal.

Aceitando que a maior parte da população portuguesa não tem os mínimos conhecimentos militares e preza a paz e o conforto possível do seu país, não tenho dúvida que, durante um noticiário das 11 da noite a caminho da meia noite, estas declarações só podem ter causado uma insónia generalizada e mesmo pesadelos com canhões e tanques de assalto. Este tenente-general saberá muito de tática militar mas é medíocre na empatia e no saber lidar com os seus semelhantes. Mais do que verborreia militar pareceu-me que o aproximar das eleições legislativas lhe destapou a caixa da serpente que, infelizmente, vive dentro de muitos de nós.

Ter-se-á talvez esquecido de nos ler (talvez não lhe dessem tempo) o último parágrafo do famoso Documento da GREi (A Insustentável situação dos militares das Forças Armadas) que, por uma questão de cautela transcrevo:

“Não podemos deixar de referir que o poder político deverá ter por imperativo a defesa dos justos interesses dos militares, por serem os únicos servidores públicos que, de acordo com a Lei, não têm capacidade reivindicativa, sob pena de, se tal não ocorrer, se virem a alterar as condições éticas e de vínculo do exercício da sua profissão”.

Percebem bem este parágrafo? Será que o nosso tenente-general já o teria interiorizado no seu baú de conhecimentos?

Esperemos que os noticiários não convoquem mais destas aves agourentas para os inícios das madrugadas para tentar que o povo durma, sem sobressaltos, um pouco mais descansado.

2 pensamentos sobre “MAJORES E TENENTES GENERAIS

  1. Excelente comentário. no meu tempo de serviço militar os postos de oficiais generais eram brigadeiro, general e marechal. Quando modificaram a nomenclatura passaram a major general, tenente general e marechal. Como é possível que tenente geral seja superior a major general sem que o posto de tenente seja superior ao de major ?

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  2. De facto, este mundo de loucura em que se volta a viver, insistentemente presenteado pela enchurrada de imagens catastróficas dos noticiários televisivos, vai-se refugiando num outro mundo à parte, tentando suavisar a sua existência. A memória do ser humano, cada vez mais enfraquecida pela diversidade de informação, e muito mais pela desinformação e confusão de opiniões pré-fabricadas, não deixa de nos preocupar a todos. Para muitos, parece que não há volta a dar, senão o de respirar fundo, e deixar oxigenar os neuronios com novos ares frescos…!

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