Conhecemos o Nicolau Santos há um bom par de anos. Não é amizade de infância e, muito menos, amizade dos seus tempos de Angola onde nasceu. É uma amizade que se cria ao conhecer uma figura notável, de aparência discreta mas empática. O seu quase permanente sorriso transporta-nos, quase de imediato, a um outro nível de relação. Quando, há pouco mais de 10 anos, o conheci e lhe pedi uma sua ajuda em coisa que se relacionava com poesia, a sua resposta foi, não só imediata, como de um fulgor intelectual que deslumbrou todos os que assistiram a esse fantástico momento. Nicolau Santos é um exemplo de intelectual raro, caldeando no mesmo cadinho a inteligência, a cultura, a enorme capacidade de gerir bem o que lhe é solicitado mas, ao mesmo tempo, de nos transmitir a arte da graça, do poema, da forma alegre de viver. É o oposto ao macambúzio nacional, ao pessimismo, ao leviano da vida. Em tempos tornou-se famoso pelo laço que usava em vez da gravata que agora, tanto quanto tenho dado por isso, substituiu pelo cachecol. É um brilhante polivalente que nos transporta das opiniões sérias até aos mais brilhantes momentos de entretenimento cultural. Ele põe, de forma muito pessoal, a genialidade cultural à nossa frente. E por isso é tão indispensável a uma sociedade.
Nicolau Santos escreveu um livro de poemas que foi recentemente apresentado publicamente. Chama-se “A Feliz Embriaguês de Existir”. Nos tempos estranhos e confusos que vivemos, aqui e no resto do mundo, Nicolau apela, nestes seus poemas, à necessidade de darmos importância à vida, sabendo-a limitada, de compreendermos que viver é quase como sonhar, porque, possivelmente, quando acordarmos, ela já acabou. Por isso existir deve ser como que uma embriaguês.
Na apresentação desse seu livro Nicolau Santos foi o que é, realmente: um homem culto para quem “existir” é quase uma concessão divina do ser humano. Nessa apresentação rodeou-se de um grupo de jazz, de gente que declamou alguns dos seus versos e, ele próprio, cantou e recitou poemas e jazz numa amálgama que encantou quem teve a sorte de o ouvir.
Desse seu livro de poemas escolhi dois que, com a devida vénia, vou apresentar a seguir. Eles dão-nos uma ideia, em filigrana, de como a vida pode ser bela e devastadora.
Parafraseando os mestres
O passado
É o presente em cativeiro
O presente
É o passado à solta
O futuro
É o presente alumbrado
Ou como diria Borges
Continuamos perdidos no tempo
Mesmo que
Como acrescenta Cruzeiro Seixas
Prossigamos cegos
Pela intensidade da luz.
O Poeta Louco
Escrevia poemas
Cantava em bares
E enlouqueceu.
Chamava-se Rafael Ávila
Era conhecido por Titán
E não se sabe porque enlouqueceu.
Talvez a bebida.
Talvez uma grande perda.
Ou talvez bebesse muito
Por causa de uma grande perda.
Agora pouco importa.
Na sua lápide
Está escrito um dos seus poemas.
“As vaidades do mundo
As grandezas do império
Todas enterradas no profundo
Silêncio do cemitério”.
É desta lucidez dilacerante
Que se fazem os poetas visionários
Que acabam loucos.
Também tenho grande admiração por Nicolau Santos ! E não nos podemos esquecer que foi ele que apresentou, brilhantemente, o nosso livro “Escrito nas Estrelas e o Vento que Passa”
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Para felicidade nossa, e da nossa ainda existência, vão surgindo à tona de água, imagens de vida que outrora nos marcou, e aos poucos vamos deixando esgotar, nos frágeis tempos que vamos consumindo. E tão pouco de bom, há para registar e transmitir…!
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