DESCRIMINAÇÃO CAPILAR

O deputado do departamento francês, nas Caraíbas, Olivier Serva, de Guadalupe, apresentou um projeto de lei que pretende acrescentar à lista de formas de descriminação puníveis com sanções penais as que estão relacionadas com “o corte, a cor, o comprimento ou a textura do cabelo”. Como se sabe, as mulheres africanas ou de ascendência africana são quem mais sofre pressão social em relação ao cabelo. O objetivo do projeto lei é impedir que os patrões obriguem os empregados a alisar o cabelo ou a esconder as tranças e rastas, e não deixou de alargar o espectro da descriminação às ruivas , “que são vítimas de muitos preconceitos negativos”, às loiras e aos carecas.

A proposta já foi aprovada na Assembleia Nacional Francesa e se for ratificada pelo senado entrará em vigor. A nossa célebre frase de “isto não lembra ao careca” poderia vir a ser punida se a coisa por cá pegasse. Até porque muitos políticos que, com as máquinas 1 dos barbeiros, adotaram esse chamativo visual, por acharem, se calhar, “que é dos carecas que elas gostam mais”. Mas connosco tudo isso está ultrapassado. Até as loiras e as ruivas!… Mas porquê? Há muita gente que gosta. Um antigo anúncio televisivo do século passado transmitia a mensagem que “um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não é natural. O que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu”. Valeu-nos a publicidade e a nossa compreensão imediata pelas pessoas como eram originalmente. Só em França é que o problema está a ser, agora, discutido. Será aprovado, estamos certos, mas reconheçamos que com muito atraso.

Mas curiosamente, em 20 estados americanos, existe legislação similar. O que não impede que dois terços das mulheres negras nos Estados Unidos mudem de penteado antes de uma entrevista de emprego, sendo que cerca 40% alisam o cabelo. A Califórnia já legislou contra a descriminação embora haja outros estados, como o Alasca e o Arkansas, que proíbem apenas a descriminação nas escolas, enquanto o Tennessee legislou só em relação ao local de trabalho.

Uma hospedeira de bordo da Air France foi obrigada a usar uma peruca para esconder as tranças e só em 2022, após 10 anos de um processo em tribunal, conseguiu que a companhia aérea fosse condenada por descriminação de género, uma vez que os regulamentos da AIR FRANCE permitiam que as funcionárias usassem tranças.

Esta coisa do cabelo não deixa de ser uma alusão subliminar às questões de género que, subitamente, surgiram entre nós, suavemente aludidas por políticos serôdios ou por populistas que, de imediato, se aproximaram do debate. Tudo, recorde-se, a propósito do lançamento de um livro de “Liberdade Familiar” que transportou o apresentador até aos benefícios da família de muitos anos atrás, em que só o homem trabalhava e à mulher competiam as tarefas da casa. Eu, com a idade que tenho, faz-me lembrar as imagens transmitidas na época a que se chamou de Estado Novo.

Tenhamos cuidado, não só com os tipos de cabelo, mas com as ameaças veladas ao que se passa com os enormes e irreversíveis (assim se julga) avanços em questões de género e de igualdade social. “Eles não se foram embora” e parece que estão com vontade de reaparecer.

Um pensamento sobre “DESCRIMINAÇÃO CAPILAR

  1. Parece-me que este mundo anda virado do avesso, ou aposta demasiado na futilidade das coisas. As mentalidades, cruzam-se e colidem, por falta de objectivos concretos, sem se importar de reconstuir, com os cacos espalhados por todo o Universo …!

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