OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES

Bem recentemente, altas figuras institucionais portuguesas vieram lançar a ideia de que Portugal devia ressarcir os países de língua oficial portuguesa, desde há muito países independentes com excelentes relações connosco, de tudo o que passou nos tempos espantosos dos descobrimentos dos séculos XV e XVI e que corporizaram um invejável império colonial, desde África, América do Sul e extremo oriente. Afirmação expressa, aliás, num congresso de paz e amizade no qual se encontravam presentes os presidentes de muitos desses países. Não houve comentários nem respostas desnecessárias, na altura. O comportamento de todos os participantes foi exemplar dando, dessa forma, a melhor e mais educada resposta a um tema tão inútil e despropositado .

Mas os comentadores e alguns historiadores vieram, passados dias, a opinar sobre a oportunidade ou desnecessidade do tema. E a discussão ainda não terá terminado. Já se falou até na possibilidade de serem devolvidos bens ou obras de arte que tenham sido alvo dessa apropriação. Isto para não falar nos que, mais duramente, abordaram o tema do esclavagismo e nas fortunas ganhas com o transporte e venda de escravos. No fundo, uma recessão histórica que seria preciso remediar. Coisa, aliás, que já vem sendo discutida há muito por outros países colonizadores com resultados ou reações sempre muito discutíveis.

Relembra-me este caso o que se passou em 2018, quando da candidatura de Fernando Medina à Câmara de Lisboa ao incluir no seu programa a construção de um “Museu das Descobertas”. Esse período foi sempre considerado como o ponto mais alto da História portuguesa e, no fundo, a base da sua identidade nacional. A questão foi relativamente ignorada até ao mês de Abril desse ano quando mais de 100 académicos portugueses e internacionais assinaram uma carta criticando o nome proposto como “obsoleto, expressão incorreta e com significados enganadores”. Uma investigadora universitária, à data muito popular, Jacine Katar Moreira, conseguiu fazer assinar um documento assinado por cem ativistas de cor negra dizendo que “a proposta reforçaria a ideologia colonial portuguesa e que já havia muitos monumentos sobre esse tema em Portugal e não precisaríamos de mais”.

Portugal foi, realmente, naquela época, o principal protagonista de transporte de escravos no Atlântico. Calcula-se que os galeões portugueses tenham transportado cerca de 6 milhões de escravos africanos para as Américas, mais do que os próprios Britânicos que se terão ficado pelos 3,2 milhões. Portugal sempre se considerou, no entanto, como um colonizador bom citando, como exemplo, as muito antigas e amigas relações com o Brasil e Cabo Verde.

Pedro Álvares Cabral ao chegar ao Brasil em 1500, em Porto Seguro

Num artigo da época dizia-se que “não é possível apagar a História. Aconteceu. Existe. Não podemos voltar atrás e não temos que nos flagelar por isso”.

O Museu das Descobertas sofreu muitos ataques e, sem local nem data para a sua construção, não deixou de ter propostas para nomes alternativos como “Museu da Descoberta” (no singular), Museu da Expansão ou Museu da Viagem”. O certo é que as obras a expor foram muitas delas concentradas no Padrão dos Descobrimentos, à beira rio, em Belém, outras encontram-se no Museu de Marinha ou no Museu de Arte Antiga.

O tema agora levantado pelo mais alto magistrado poderá ser, claro, alvo de discussão e debate. Mas de forma calma e sem constrangimentos desnecessários. Mas seria bastante útil começar pelas escolas, ensinando o que os descobrimentos portugueses representaram para o país, os problemas que, à luz dos tempos de hoje, se poderão levantar, confrontando a descoberta heróica com os poderes impostos na época aos povos que eram confrontados, contra-gosto, com uns novos senhores.

As relações privilegiadas, os entendimentos prioritários dados aos países agora livres, os novos entrelaçamentos culturais que os tempos de hoje propiciam serão provas da amizade que o passar dos séculos soube caldear.

Ainda bem que os temos como amigos.

2 pensamentos sobre “OS DESCOBRIMENTOS PORTUGUESES

  1. Sempre que oiço falar de descobrimentos, vem-me à memória uma prelecção a dum colega engenheiro civil, em 1958, na Exposição Universal Internacional de Bruxelas. Explicou o colega em francês, do alto dum pedestal ad hoc a uma multidão de visitantes da Expo:

    Sabeis porque é que os portugueses se lançaram na aventura dos descobrimentos ? Não, não foi para dilatar a fé, não fpoi para ampliar os conhecimentos científicos, não foi, muito menos, por interesses comerciais. Foi pouma razão única “chercher la femme”!

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  2. Falar-se de colonização, tornou-se um pesadelo para muitos, talvez para uma maioria, que nos silêncios da sua modéstia, vai vivendo, digerindo lentamente, o drama e a brusquidão de uma mudança, e sobrevivendo de um longo passado de trabalho e sacrifício. Quase todos nós, tivemos ou ainda temos alguém familiar nessas circunstâncias. Vidas de esperança, que estimularam a luta por um lugar numa sociedade defeituosa de séculos. Uma sociedade que parecia perfeita e alimentava ambições, explorando a ausência cognitiva dos direitos e deveres de cidadania dos povos. Do respeito à vida e à felicidade dos povos !
    Ainda hoje, o Mundo gira em volta desse eixo, sem sinal de abrandamento, causando clarões de guerra, nos sítios mais incríveis do Planeta, onde a fome impera todos os dias. Os ódios induzidos por incompreenções. Ambições desmesuradas, tão incrustadas ou revestidas de Fé, que redunda em vinganças, morte e miséria.
    Teremos esquecido, a base da civilização moderna, após Cristo, que aprendemos em casa e nas escolas, baseadas nos Dez Mandamentos ? Na forma de nos governarmos, com leis que defendem o respeito, a integridade e a personalidade de cada indivíduo ? A saúde, a educação, como tantas vezes se ouve, sem ser escutada, tal o distúrbio mental que isso custa aos mais responsáveis !
    Mas, falar-se de descolonização, também tem custos para os que nunca se separaram dos males da sua ambição …! Os custos de uma consciencialização, que poucos se prontificam a aceitar. Apenas, o custo de dar a mão, a quem sempre se sentiu ferido, e humildemente, continua aberto à amizade. O simples acto de se despejar de uma vaidade adquirida, que o tornaria mais justo e amigável..!
    Seriam, então, todos os Padrões que deixámos pelas costas de África, América e Àsia, monumentos à civilização, que mal ou bem, nunca deixaram de o ser, Marcos que delineariam Sociedades Livres , orientados no sentido básico, dos princípios humanos da Civilização…!

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