É um costume muito antigo que os bons costumes atuais reprovam vivamente nas relações de sociedade. Mas não há muitos anos o chamado piropo era uma prática vulgar, mais frequente entre as classes populares e mais discreta, mas igualmente atrevida nas classes mais sofisticadas. Quando uma jovem esbelta e bem apessoada passava junto de cavalheiros (de diferentes classes sociais) o característico assobio era imediato para gáudio dos assobiadores e “consolo” da assobiada. Era um costume muito latino (italianos e portugueses eram especialistas) enquanto que os nórdicos usavam expressões ousadas mas que não ultrapassavam a beleza do assobio. Jovem beleza que passasse por um estaleiro de obra ouvia um coro de assobios aos quais não respondia, baixava os olhos em recato e nunca demonstrava o prazer que isso lhe dava. Os tempos foram passando e já vi algumas dessas belezas levantarem o braço e espetarem o dedo médio, o maior, em resposta ao desaforo dos prevaricadores. Claro que, muitas vezes, não era só o assobio, eram também breves expressões de galanteria dos mais variados contornos. Enfim, piropos, graçolas que acabavam, geralmente em nada.
Este palavreado fez-me lembrar uns célebres livrinhos de um escritor, desenhador e poeta brejeiro, de seu nome José Vilhena, que nos anos 60/70 do século passado escrevia esses tais livrinhos que enalteciam, exclusivamente, as belezas de rua e as aventuras dos atrevidos que tentavam aproximar-se-lhes. Como nesse tempo a censura era muito violenta, o nosso Vilhena, depois de escrito o livro era preso no dia do seu lançamento. Preso por não cuidar dos costumes mas nunca por muito tempo porque os que o prendiam também gostavam de ler os livros. No entanto, o tempo de prisão era suficiente para ele escrever outro livro, ser posto em liberdade, lançar esse novo livro e voltar para a prisão. Tornou-se famoso até se cansar de escrever livros e ser preso e dedicou-se apenas ao jornalismo e ao desenho de onde era oriundo. Mas esses livros, que ficaram famosos, tinham também desenhos engraçadíssimos, arrojados para a época e que os leitores foram guardando religiosamente como peças de arte. Tenho ainda desse tempo algumas dessas peças com títulos sugestivos: O Diabo e a Carne; Os Infiéis Defuntos; O Guerra e o Paz.Foi de um deles que retirei a expressiva gravura que segue:

Coisas que aconteciam na época da censura mas que hoje estão completamente desajustadas e, direi mesmo, alvo de muitas críticas sociais e combatidas por muitas Associações que zelam pela nossa saúde mental e espiritual.
Mas a que propósito vem esta conversa toda? Lembrei-me destes dislates depois de assistir nos noticiários às exaltadas intervenções de deputadas da nossa Assembleia que se declararam insultadas por piropos indecorosos e brejeiros vindos de algumas das suas bancadas vizinhas quando por elas passavam em direção ao púlpito para discursarem. E parece que também nos corredores da Assembleia alguma delas não são poupadas aos chistes e grosserias semelhantes aos que José Vilhena escrevia nos seus tempos áureos. Mas esse já faleceu em 2015.
Parece estar a ser preparado um abaixo-assinado de deputadas e deputados para ser apresentado ao Presidente da Assembleia da República, com o pedido de medidas sancionatórias sobre os prevaricadores. O pobre do Presidente lá tem tentado explicar os limites constitucionais do seu exercício mas parece que o assunto vai baixar às comissões partidárias para discussão regeneradora do bom nome da Assembleia. Que sairá daí? Quem serão os incriminados? Não me parece que tenham sido só assobios (dava muito nas vistas) mas, muito possivelmente terá sido utilizado palavreado pior do que o Vilhena terá incluído nos seus livrinhos. Estaremos todos de acordo que a Assembleia não pode ser local onde tudo isto se passe. A educação dos eleitos pelo povo não pode ser desvirtuada por este tipo de comportamento. Uma coisa é a rua e o café, outra é a Assembleia da República. Vamos esperar para ver até onde pode ir a gentileza de um piropo. Que, pelos vistos, terá que ser constitucional, claro.
Os dichotes de que as deputadas se queixam não são piropos (no antigo sentido do termo) mas frases insultuosas que se destinam a achincalhar. E obviamente denunciam falta de educação e deviam ser proibidas
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Hábitos, em que o cavalheirismo desaparecia, entre estilos de machismo mais exarcebados…! E com ” Bien dicho la madre que trajo a este mundo una hija tan hermosa “, vou ficar por aqui, com o piropo mais interventivo, que uma jovem bonita, poderia ter recebido em tempos, em troca de um assobio que quase as fazia despidas, e se tornava insultuoso…!
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