As Minhas Praias, e o 6 de Junho…!

Desde que começámos a ser senhores dos nossos gostos, a Praia, começou a ser um local exclusivo dos nossos planos e das nossas recordações. As férias, ou simples fins de semana, que aos poucos iam formando inúmeros projectos imaginários, raramente deixavam de incluir o mar, mesmo que a sua momentânea bravura, nos causasse arrepios e desalentos, tornando-o, cenário de novos espíritos  de aventuras.
A procura de novos ambientes junto ao mar, que tanta gente leva a percorrer quilómetros, para estender a sua toalha de estimação sobre a areia ainda fresca da manhã, tornou-se um hábito quase insuperável.
A minha praia, como muitas vezes a referimos por hábito, e se assim pudéssemos considerar ,  faz esquecer a existência de quantas outras bem mais paradisíacas, ou simplesmente acolhedoras, por todo este mundo fora.
Pessoalmente, pelo espírito de descoberta, ou pelas circunstâncias da vida, acabei por conhecer umas quantas praias, que hoje recordo, vagamente,  com a dificuldades de ainda as imaginar, caminhando ao longo do seu areal ! A Figueira da Foz, Copacabana, Rocha, Tavira e tantas outras, que esqueço o nome…! Todas elas, com pequenas histórias que carrego nos meus profundos  silêncios.  Recordações, que tantas vezes me faz agitar a angústia de ser um simples mortal. Cenários diferentes, com um mar igual a todos os outros, tornados diferentes, pela forma como o apreciamos, ou o sentimos…!
Tempos de beleza, já distantes, e outros tempos sombrios, em que raramente se falava de outra coisa, que não fossem notícias dos avanços e recuos, no meio de destruições e morte. Uma guerra que assolava a Europa, causando insegurança nas populações. Era vulgar, ver na Figueira da Foz, pequenos grupos de amigos, apreciando aquele mar, sobre a areia molhada do areal, como se para lá daquele ponto do horizonte, se estivesse a desenrolar  alguma cena ameaçadora…! O que se estaria a passar, para além do horizonte, naquelas mesmas águas revoltas, como se via nos noticiários do cinema…? Ou a imaginação a produzir miragens, que as ondas arrastavam na sua própria formação ? 
A Figueira da Foz, pela sua capacidade hoteleira, tinha-se transformado em porto de abrigo de refugiados. Notícias fantasiosas, de submarinos nas proximidades, avistados de algum barco de pesca, ou outras notícias semelhantes, atormentavam os veraneantes, desejosos que tudo acabasse de pressa. Um ou outro avião de guerra, ferido em combate, algures no horizonte longínquo ! Muitos boatos e algumas verdades !
Aconteceu !!!  Um caça britânico, aterrou de emergência, numa praia ali perto, um pouco mais a Sul da Foz do Mondego. Uma notícia assombrosa, trazendo pensamentos sombrios, sobre a evolução dos combates distantes, que servia de temas de conversa, entre os toldos da praia, e ao redor das mesas de café.
Ainda garoto, ouvia com apreensão os comentários mais diversos, mais ou menos inflamados, e associava à existência dos refugiados da minha idade que ia conhecendo, sem falarmos a mesma língua, em cujos rostos, nada mais transparecia, do que a tristeza pálida, de quem passou pela privação de uma fuga apressada… !
Todo aquele ambiente, formou uma nuvem, no meu espírito,  e dos meus irmãos, marcando uma juventude, que sem nos apercebermos, acompanhou sempre as nossas vidas. Como se  tudo aquilo que acontecia lá por fora, naquele mesmo mar onde nos banhávamos,  fizesse parte de nós mesmos, e pudesse cair-nos em cima…!
Era a nossa praia…!  Uma praia, num misto de beleza e de angústia…! Do Verão de 1943, pouco mais nos restava, senão a decisão da família, em querer mudar-se para Lisboa.
Talvez por ser o mais novo, o deixar a nossa casa de Coimbra, provocou um trauma, que só o tempo veio dar tréguas, ao meu desgosto.
Demorados preparativos, deixando Coimbra para trás, levando todas as recordações sob soluços, que o  moderníssimo comboio em aço inox da Budd, o Flexa de Prata, nos ia sublimando…! Visitas futuras, de retorno, que de vez em quando, nos aligeirava as saudades.  
Tudo diferente, numa ânsia de novidade, ocupando um lugar, numa cidade que se modernizava e se tornava mais aberta e cosmopolita.  Férias diferentes, com praias diferentes e hábitos diferentes ! Ambientes, que para a época, não deixou de ser interessante, alargando mais os horizontes de um futuro que parecia estar mais próximo ! E as praias, mais uma vez, voltaram a fazer parte de uma nova vida…! Elas, estavam mais perto, servidas por um comboio, que em poucos minutos nos levaria ao Estoril e Cascais. Como ainda hoje, apetece fazer, em tempos de ócio…!
   A Guerra, que tanto tinha influenciado a vida portuguesa, estava a poucos dias de alcançar o seu auge,  perspectivando um outro rumo, com o desembarque da Normandia. Um golpe final,  com incontáveis perdas  humanas. Uma victória das nações aliadas, com um preço monstruoso, que a liberdade teve que pagar…!
Por força das circunstâncias, os Açores,  abriram os seus portos aos aliados, mudando o paradigma bélico do Atlântico Norte.  O grande porta-aviões do Atlântico, tinha ficado ao serviço da Paz e do Progresso, de um mundo novo que se atarefava por reconstruir…! A América, inundava-nos com um raio de luz, de modernidade, tornando a Europa mais livre e sorridente .   Nós,  por cá, íamos colhendo os reflexos dessa luminosidade, impossível de esconder. Muito menos, apagá-la…!
Na modernidade em que o mundo começou a viver, os desafios multiplicavam-se, tornando tudo diferente e mais promissor.  Novos hábitos e estilos de vida diferentes. Novos prazeres.  Praias acessíveis, que passaram a ser hábitos de curta presença, em fins de semana. Novos amigos, formando  pequenos grupos, tornavam as praias mais acolhedoras.  Os encontros, as viagem de comboio da Linha de Cascais.  Pontualmente, às 9,30, no Cais do Sodré…!!!  Cascais, ou o Tamariz, eram as nossas praias por motivo de amizades. Os deliciosos gelados, que  não me lembro bem, se seriam já do botequim do Santini. Sei que eram igualmente  bons, e nos viciava em dias de maior calor, após sucessivos mergulhos …!
   Há poucos anos, em viagem de carro, pelo Norte de França,  decidi visitar parte da Normandia.  Um desejo de há muito, que a história contemporânea, me incitava vivamente a satisfazer.  Seria uma homenagem, a tantos milhares de jovens que se sacrificaram, por recuperar uma liberdade perdida…! Em companhia de minha mulher, seguimos de carro, pelo caminho mais directo, para chegar a Arromanches. Uma longa viagem, que correu bem,  sem GPS. Apenas o velho mapa da Michelin, e a emoção natural de quem entra em férias especiais…! Nas águas furtadas de um pequeno hotel, esgotado de turistas, a clamarem por melhores condições. Típico, numa pequena cidade totalmente reconstruida, onde gente se acotovela, para reviver a história, ainda recente.
Pisar aquelas areias, foi indescritível …! O silêncio, era grande !  Não fora, o fraco marulhar da rebentação de uma maré vazia, eu diria que o silêncio era absoluto, em memória dos milhares de vidas ali desaparecidas. Envolto no respeito , que todo aquele panorama se colava à imaginação, avançámos até onde pudemos, face aos receios de uma subida rápida da maré. Tudo tão diferente… !  Um palco cheio de emoções, completamente vazio de actores ! Apenas a imaginação alimentada pela presença de alguns veteranos, em cadeirinhas de rodas, que insistiam em rever o seu passado, na presença de familiares…! Filhos e netos …! Aquele longo areal cinzento,  também  gostaria que fosse, apenas um dia que fosse, a minha praia. Ela, há mais de 80 anos que tem os seus legítimos donos, muitos em cadeirinhas de rodas, que ninguém teria o direito de lhes retirar…!

  
    
  


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