CLAUDIA E MARTA

Despertou-me interesse e apreciei com atenção um artigo do académico mexicano Viri Rios, especializado em política pública, relativo à diferença de direitos e desigualdades flagrantes entre homens e mulheres que se verificam há muito no México.

Só para relembrar, o México tem uma população da ordem dos 127 milhões de habitantes, sendo o 11º país mais populoso do mundo. Ocupa uma área territorial com cerca de 2 milhões de metros quadrados, tendo a sua capital, Cidade do México, uma população da ordem dos 9,2 milhões de habitantes. Foi colonizado pela Espanha até se tornar independente em 1821. Embora se situe na América do Norte tem sido sempre classificado como país pertencendo à América Latina.

Um país com esta enorme dimensão tem, no entanto, enormes problemas para resolver. A capital tem visto aumentada a sua população pelo facto de as pessoas nela procurarem algum distanciamento e segurança relativamente às numerosíssimas seitas de negociantes de droga que encharcam o país e grande parte do mundo. A capital é hoje, por esse facto, uma cidade desenvolvida equiparando-se a qualquer grande metrópole americana ou europeia.

Mas o problema das desigualdades e insegurança não se resolvem facilmente. Segundo o académico Rios, ser mulher no México é difícil, para não dizer perigoso. Como é normal em muitos outros países, as mulheres ganham menos 16% que os homens desempenhando funções iguais e a sua participação laboral é a maior da América Latina. E ainda mais chocante é saber que morrem, diariamente, 11 mulheres em razão de violência ou ataques violentos.

E foi neste clima que a Presidente da Câmara da Cidade do México se candidatou e foi eleita, no passado dia 2 de Junho, Presidente do México. De seu nome, Claudia Sheinbaum.

A atual Presidente do México

Como foi possível esta eleição? Num país onde 90% dos mexicanos são contra os direitos das mulheres e 58% são, em especial, contra as mulheres na política, dezenas de milhões votaram em mulheres, não só em Sheinbaum como também em Xóchitl Gálvez, senadora e mulher de negócios apoiada pela oposição . Isto não aconteceu por acaso. Trata-se de um processo gradual, especialmente consolidado com a legalização de quotas por géneros. Por essa razão o Congresso passou de 26% de mulheres em 2011 para 42% em 2015 e 48% antes destas eleições. Os eleitores esperam que a Presidente defenda melhor os interesses das mulheres. Têm, aliás, esperança que seja criado um Sistema Nacional de Saúde (ou equivalente) que poderá ter grande incidência em todas as mulheres. Como diz o académico Rios os riscos são, no entanto, enormes. Todos os políticos em exercício cometem erros, só que para esta mulher, no México, esses riscos são ainda maiores . O mais importante é traduzir a igualdade em realidade. E esse sucesso não será fácil.

Vem, a este propósito, embora em situações e escala completamente diferentes, relembrar o nome da primeira mulher portuguesa eleita em votação nacional: Marta Temido. Fez uma campanha surpreendente que cativou muitos eleitores que a conheciam mal. A simpatia e a qualidade do que foi dizendo alertou os votantes para alguém em que talvez valesse a pena votar. E votaram. Mas, já agora, para quem não esteja muito informado, talvez não seja mau abordar um pouco do curriculum de Marta Temido. Nasceu em Coimbra em 1974. É doutorada em Saúde Internacional pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa; Mestre em Gestão de Saúde pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Possui especialização em Administração Hospitalar pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa. Foi Ministra da Saúde no XXI Governo Constitucional. Foi Presidente do conselho diretivo da Administração Central do Sistema de Saúde, I.P. , e, para não ser exaustivo, foi também, Presidente da Direção da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. É autora e co-autora de publicações científicas no âmbito da saúde.

São estas personalidades que, no âmbito público-político, conferem ao país alguma notoriedade e mais valia internacional. Tal como no México, entre nós, o respeito pela capacidade de desempenho das mulheres só pode servir para reduzir os níveis de desigualdades que persistem nos países. Esperemos que mexicanos e portugueses não venham a ter grandes razões de queixa das mulheres em quem votaram.

Um pensamento sobre “CLAUDIA E MARTA

Deixe uma resposta para fredericofonsecasantos Cancelar resposta