TERRAS COM HISTÓRIA

De quando em quando há terras que nos surpreendem com o que elas, letárgica e pacificamente vão exibindo no seu dia a dia, e de que tantas vezes nos vamos alheando.

A terra a que me refiro, uma vila de promoção relativamente recente (de aldeia a vila) exibe uma toponímia riquíssima, toda ela relacionada com a História de Portugal e a sua epopeia dos descobrimentos.

Uma vila com cerca de 3000 habitantes habituais que no verão, por razões meramente turísticas, vê esse número muito aumentado. No entanto, se percorrermos a terra com atenção encontramo-nos a passear por ruas que vão desde a Alameda da Índia, passando pelas ruas de Ceuta, de Tânger , de Arzila, de Azamor, de Larache, das Baleares, de Kinitra, de Pero Vaz de Caminha, de Pedro de Alenquer, de Gonçalo Velho, de Gil Eanes, Diogo Cão, D. Fuas Roupinho, D. Francisco de Almeida, Infante D. Henrique e Rua de Vera Cruz.

Claro que a terra é portuguesa e, desde há muito, um repositório do que foram as aventuras e descobertas portuguesas por esse mundo.

A História e a modernidade

É hoje uma terra moderna com praças e pracetas relativamente amplas e bem implantadas mas que não deixam de ostentar nas suas ruas e avenidas (só tem duas a que se pode dar esse nome) os nomes dos navegadores e das terras longínquas que foram descobrindo e foram pertencendo ao tal império colonial de que já nos separámos mas que continuamos respeitar.

A terra tem , em si, uma História curiosa. Trata-se, como já terão adivinhado, de Monte Gordo, no Algarve, a 4 quilómetros de Vila Real de Santo António. Se no lembrarmos que, após o terramoto de 1755, o famoso Ministro José Sebastião de Carvalho e Melo, mais conhecido por Marquês de Pombal, recuperou toda a cidade de Lisboa e adotou o mesmo estilo de planeamento urbanístico para Vila Real, compreende-se porque as ruas da cidade são todas perpendiculares entre si, como as da Baixa lisboeta. Monte Gordo não passava, nesses tempos, de um espaço arenoso onde ficavam alojados os prisioneiros retirados das prisões para serem destacados para as obras de Vila Real. Esses prisioneiros transformados em construtores civis viram-se acompanhados por outros foragidos marroquinos, vindos principalmente da zona do Atlas, onde predominava gente de cabelo encaracolado e louro. Acabadas as obras toda essa gente ficou por ali a viver como podiam e deu-se-lhes o nome de “cuícos” que, por natureza e origens não seriam cidadãos dos menos truculentos . A sua fama de libertinagem espalhou-se na época e, muitos deles, acabaram por migrar para o barlavento algarvio, onde criaram novas aldeias e tendas de subsistência. Foi essa “Gente da Meia Praia” que a cantora Marisa celebrizou , em anos recentes, explicando as misturas étnicas que se verificaram por todo o Algarve no pós-Vila Real.

Monte Gordo é hoje uma vila amável para se viver, a pouca distância de Vila Real de Santo António, que deve o seu nome ao rei D. José de que o Marquês era ministro e é hoje uma cidade agradável, relativamente desenvolvida, à beira do Guadiana, e em frente à espanhola Ayamonte, com a qual já se bate em termos de vida e de pureza de linhas .

Há quem chame a Monte Gordo , por razões meramente familiares, a “Capital do Mundo”. Não serei tão afirmativo nesse aspeto mas, para quem ainda não tenha tido oportunidade de a visitar, recomendo um bom passeio à região. E os cuícos de hoje são muito mais simpáticos que os originais.

Um pensamento sobre “TERRAS COM HISTÓRIA

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