Talvez poucos se lembrem desta palavra, na versão inglesa original (ou não palavra, como se queira), criada como nome de uma canção do filme de 1964, “Mary Poppins”, filme que ficou para a história do cinema como um dos grandes lançamentos mágicos de Walt Disney, misturando personagens reais com bonecos animados e com canções deslumbrantes que filhos e pais iam ver a todos os cinemas do mundo. Passam agora 60 anos sobre a data da sua estreia (1964) e quem viveu nessa época e resistiu à atribulada passagem destes 6 decénios lembrar-se-á talvez dos encantos do filme e dos seus protagonistas principais, Julie Andrews e Dick Van Dyke.
As sinusóides da vida deram-me a felicidade de, à data, ter, entre outras ocupações , a de tradutor de legendas de filmes, com a respetiva carteira profissional. E, por tudo isso, tive a alegre missão de realizar a tradução e localização das legendas da Mary Poppins.
Talvez se lembrem da chegada mágica de Mary Poppins, voando pelo céu de Londres, (com o seu guarda-chuva e a mala de onde retirava tudo o que era preciso e impensável) até chegar à luxuosa moradia dos Bank, o pai um banqueiro rigoroso nos “pence” que sempre se poderiam poupar e a mãe sufragista, lutando pela defesa das mulheres.

A chegada de Mary Poppins
A moradia dos Bank era ao lado da de um velho almirante reformado, Almirante Boom, que zelava pelas vizinhanças da cúpula do seu terraço e tomando conta do seu catavento naval que implantara no topo da cobertura.
Mary Poppins adoçou a vida da juventude da época com os meandros da sua historia e com as deliciosas canções como “Spoon of Sugar” e a própria “Supercalifrigilistikexpialidocious” , palavra inventada, intraduzível para qualquer outra língua e considerada, à época, uma das maiores palavras dos dicionários mundiais.
Lembremo-nos que o filme foi estreado em Portugal quando a censura era implacável para os conteúdos dos filmes e para as legendas que lá apareciam. Era, è época, tudo visionado pelo SNI – Secretariado Nacional de Informação e “Mary Poppins”, como filme para crianças, não suscitava preocupações. No entanto, depois de enviado o filme para o SNI eis que que chega ao distribuidor (Astória Filmes) um ofício exigindo o corte das imagens entre as legendas 155 e 156 (não me esqueci destas legendas). Não se tratava de cortar legenda mas sim de cortar imagens o que, mesmo naqueles tempos, era bizarro. Fez-se um ofício para o SNI dizendo tratar-se, naturalmente, de um engano. Mas a resposta veio rápida confirmando a exigência dos corte. Houve que satisfazer o pedido porque, caso contrário, o filme não podia ser estreado. Viemos a saber que o corte se devia ao facto de, entre as mencionadas legendas, o cata-vento do Almirante Boom , com uma viragem do vento, passou a apontar para leste, anunciando a partida de Mary Poppins. Leste era a Rússia, como ainda hoje é. Há que reconhecer que os censores eram muito “aplicados e sabedores”.
Mas nos tempos de hoje o filme está a ser reposto para plateias de crianças e, curiosamente, apareceu outro tipo de censura. Quando o desabrido Almirante chama de hotentotes aos limpa-chaminés do prédio ao lado (Mary Poppins, o seu amigo Van Dyke e os dois filhos do banqueiro Banks) os “movimentos de causas” ingleses acham que esse fraseado do Almirante pode ser uma referência aos Khoi-khoi, povo nativo do sudoeste africano e, como tal, acham que o dito deve ser retirado.

Tudo isto são pequenos incidentes de relativa importância . O que nos lembra o filme, mesmo depois de ser feita, em 2018, uma segunda versão do filme com o nome de “O Regresso de Mary Poppins” (que não se aproximou, nem longe, do êxito da versão original) são as deliciosas canções, os apelos à alegria da juventude e a fantástica magia da protagonista.
Já lá vão 60 anos e ainda vou a tempo de escrever estas linhas relembrando a minha reconfortante participação na estreia de 1964.
Como o tempo passa e como, alguns de nós, ainda vão a tempo de contar essas e outras histórias.
Procurem e vejam a versão original de “Mary Poppins“. Garanto-vos momentos de grande prazer.
Também me deliciei com o filme Mary Poppins, mas desconhecia por completo o episódio da interferência da censura.
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