Com as vénias e o devido respeito que são devidos ao grande poeta José Carlos Barros não resisti hoje a fazer duas adaptações (pequenas) de dois poemas seus que revejo com alguma frequência. Talvez os temas venham a propósito mas foi, sobretudo por, ao lê-los, me sorrir pela graça que lhes descobri. Aí vão.
O POLÍTICO EM FÉRIAS NA PROVÍNCIA
Da varanda do quarto
Viam-se
Em vez de aliterações
O vale
E os pinheiros bravos
A subir o monte.
Acordava-se assim
A olhar as coisas concretas.
Como se afinal
Além do orçamento houvesse
Mundo: casas,
Pessoas, pássaros
Que voavam mesmo.
RISCAR CAMÕES
Parece que os versos censurados do
Pessoa em 2019 num livrinho
Para os estudantes das escolas,
Além da linguagem desadequada
Aos jovens frequentadores
Do que antigamente se dizia O Liceu,
São eticamente reprováveis. Bem feito: para que se veja
Que a poesia não está, afinal,
Nem muito nem um bocadinho acima
Do óculo ético-aferidor. Ontem,
Aliás, caçado eu inadvertido
A dizer um verso conhecido
Em voz alta, me censuraram
De que a poesia juvenil do
Rimbaud isto-e-aquilo
Porque Rimbaud
Acabou a vender escravos
Já não sei onde. Pedi desculpa
E meti no bolso a viola do Rimbaud.
Pois acabam de lembrar-me que
Os Lusíadas tratam dum Império.
Foda-se: lá vou eu também
Ter de riscar o Camões.
São de facto 2 poemas risonhos!
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