Há momentos, em que nos apetece estar longe do sítio em que acostumadamente vivemos, impelindo-nos a pequenos passeios, esvaziando as pesadas visões que conservamos, sobre o mundo que todos os dias nos passam pela frente.
Recordo, os frequentes passeios pela Baixa de Lisboa, onde nos cruzávamos com amigos, ou trocávamos olhares, com conhecidas de outros reencontros pelas ruas do Chiado. Rua Garret, o palco principal, dessas trocas de olhar, apelando por uma amizade mais próxima. Um flirt, que nos enchia a alma, e encorajava aproximações mais profundas. Éramos jóvens, que procurávamos novas distracções, que o tempo de férias dificultava, pela dispersão dos convívios habituais, procurando outros lugares para férias.
Era o cinema, quando não íamos à praia, o local onde se esvaziava a solidão, enquanto apreciávamos filmes a preto e branco, ou em tecnicolour, com interpretes que nos encantavam. Tão longe da banalidade dos portáteis. que nos inundam, hoje, o espaço por onde circulamos, sem que se dê conta do que se passa ao lado. O desejo infinito, de concretizar um sonho, tão distante, das algibeiras ainda magras, que uma mesada dos pais, proporcionavam, eram um sonho, como ainda o é, para tanta gente. A realização de uma viagem, ainda que curta que fosse, por terras que íamos conhecendo, dos noticiários e dos documentários habituais, antes do primeiro intervalo.
E Paris, que Edith Piaf, tão profissionalmente nos mostrava, na sua voz sofrida, cantando paixões desfeitas, seria o tema de conversas sobre a cidade. Os museus e os boulevardes, que os que já por lá tinham passado, se apressavam a desenvolver, entre espectantes gestos de entusiasmo.
Escutava-se Jean Sablon, na sua voz melodiosa, em J´attendrai, tantas vezes repetidas por Tino Rossi e Juliette Greco…! Charles Trenet, lançava-se internacionalmente, com a sua canção La Mer...! Yves Montand, e a sua romântica Feuilles Mortes, que tantas vezes, eu repetia em uníssono, afinando o meu francês. Canções, de uma época em que voltava a falar-se de novas guerras, na Argélia, na Indochina, e na Malásia, em luta por uma independência, nem sempre fácil e compreendida. Da Koreia, com toda a sua brutalidade, mantendo a sua paz podre, sobre um fio de arame farpado.
O período de paz, tinha terminado para um grande sector deste mundo de progresso, em que estávamos vivendo. O sonho americano, mantinha ainda as espectativas, com a presidência do General Eisenhower na presidência. Já no tempo de Nixon, aventurei-me a novas travessias do Atlântico, aterrando em N. York. Tudo me parecia familiar e de já ter, por lá andado. O cinema, assim a tinha mostrado, nas suas variadas formas. As pinturas de Edward Hopper, também não me tinham enganado. As luzes de Néon, ali estavam, mostrando uma New York nocturna, pela calada da noite, já livre do bulício diurno. Uma ou outra sirene das ambulâncias que se cruzavam, quase de dez em dez minutos, naquela grande urbe do alto Manhatten.
Antes de me deitar, após um dia cansativo de visitas, perdi alguns minutos de descanso, à janela do quarto do hotel, espreitando a vida nocturna daquela zona, que me parecia agora, bem mais calma, sem aquelas torrentes de gente, entre a 27ª Street e a 7ª Avenue, tão perto de Times Square e da famosa Broadway. Apreciei os letreiros luminosos de um bar, da esquina da frente. Uma imagem, já tão conhecida de muitos filmes. Só faltava Marylin Monroe, ou Humphrey Bogard, para lhe dar mais vida. O reflexo das luzes vermelhas, conseguiam projectar-se no teto do meu quarto, num bailado incessante, apesar dos oito andares em que me situava. Tenho quase a certeza, de que Edward Hopper, andou por ali, nas ruas meio escuras, pintando os seus bares nocturnos, sob as luzes intermitentes do néon.
No dia seguinte, aguardáva-nos um autocarro Greyhound, para nos levar até Washington, com outros pontos de interesse histórico e cultural da América, deixando para trás aquela ilha ( Manhatten ) que fora pertença de índios americanos, e negociada a compra por Peter Minuit, em troca de algumas bugigangas no valor de US$ 24, em 1626.
Enquanto a Guerra do Vietnam, estava no seu apogeu, por cá, esta Europa em que vivemos hoje, fraternalmente e em paz, ginasticava-se, nessa altura, entre os seus problemas de moeda, e de inflacções fracturantes…!