EM DIA DE EÇA

Eça de Queiroz foi hoje trasladado para o Panteão Nacional. Sou dos que acham que é justo. Talvez os pareceres não sejam unânimes mas a decisão já tinha sido tomada pela Assembleia já lá vão uns anos o que me pareceu bem.

Bem ou mal, um dos expoentes máximos da língua portuguesa está onde outros que, pelo país, fizeram, também, coisas inesquecíveis.

Não me alongo sobre este tema onde os muitos especialistas já se pronunciaram e outros se hão-de pronunciar proximamente.

Vou apenas relembrar-vos um pequeno texto de Eça retirado de um dos seus contos. Reza assim.

REVOLTA DOS ESTUDANTES

Paris está em revolta – quase se podia dizer em revolução. Tem havido, com efeito, todas as cenas clássicas das revoluções parisienses : assalto à prefeitura de polícia; barricadas feitas com ónibus derrubados; incêndios de quiosques; destruição de cafés; comités em permanência; cortes de canos de gás, lançando uma treva em ruas e boulevards; polícias arremessados ao Sena; e clamores de “viva a anarquia”! Nada falta.

Porquê esta revolta assim sangrenta? Por causa de uma mulher nua e de um senador pudibundo! Não é decerto a primeira vez, desde Helena de Tróia, que os homens se entretrucidam por causa da nudez de uma mulher. Mas é certamente a vez primeira que uma cidade levanta barricadas por causa da pudicícia de um senador. A história é grotesca e lamentável. Os estudantes da Escola de Belas Artes de Paris organizam todos os anos um baile que se intitula o “Baile das Quatro Artes”. Ora este ano os escultores do atelier de Falguière resolveram aparecer no baile, levando em triunfo sobre um andor, como uma deusa da beleza, e na atitude de Diana armando o arco, uma certa Sara Brown, que é dos mais lindos e perfeitos modelos de Paris. Escuso acrescentar que essa Sara, na sua qualidade de Diana, ia pouco vestida. Na verdade, para cobrir o esplendor do seu corpo, que tem sido reproduzido largamente no mármore e na tela, ela levava apenas (anacronismo deplorável) meias de seda preta e sapatos. Seria de mais na Grécia e no tempo de Diana. Em Paris, em 1983, é talvez pouco: uma leve túnica, um véu, um cendal, teriam poupado os desastres e o sangue.

Ultrapassado o facto de se tratar de um texto de Eça haverá que reconhecer que há certas semelhanças entre este espantoso século XIX e o que se passa hoje nas sociedades modernas, a nossa incluída. Houve há bem poucos dias passou-se por cá um “escandalozeco” do mesmo género.

Ah, que grande Eça! Já agora, se puderem, passem pelo Largo Barão de Quintela, à Rua do Alecrim, onde se encontra uma estátua executada por Teixeira Lopes em 1903, à qual foi dado o nome de “Verdade” e também conhecida pelo “Manto Diáfano da Fantasia” tapando, airosamente, uma jovem bela e de formas maravilhosas.

Um pensamento sobre “EM DIA DE EÇA

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