O PATO DONALD

Devo começar por fazer uma declaração de interesses: aprecio muito os patos e tenho uma grande coleção de patos em diversas formas, posturas e realizados em materiais dos mais diversos. Portanto, nada me levaria a falar mal de patos.

Mas eis que no mundo em que vivemos fui assaltado pela exuberância de um Donald que me recordou, diretamente, o meu favorito Pato Donald.

O Pato Donald

Mas não foi propriamente por ele mas pelo apelido que o seu criador nos estúdios da Walt Disney teve a ideia de lhe dar. Essa figura amável e redentora da nossa juventude foi completada pela do Tio Patinhas a quem o nosso bom e despreocupado Donald recorria nas horas de aflição financeira.

O Tio Patinhas

O Tio Patinhas era uma figura quase sinistra que arrecadava todos os tostões que conseguia encontrar ou negociar e deles não abria mão.

Ora tudo isto não podia deixar de me vir à memória, ao surgir nos Estados Unidos um presidente eleito (pela segunda vez) com o famoso nome de Donald (Trump de apelido). Por tudo o que nos contam e que vamos vendo à saciedade nas televisões, o homem tem muita coisa do Tio Patinhas. Negociador insuperável desde há muitos anos (dizem que aprendeu com o pai) conseguiu reunir à sua volta um conjunto enorme de pessoas das altas esferas económicas que, ao abrigo de muitos interesses financeiros e outros (segundo se diz), conseguiu criar relações políticas internacionais que lhe permitem, enquanto presidente, enunciar os mais incríveis dislates que, para os bem intencionados, são ameaças mundiais no seu dia a dia. Ninguém sabe o que fará depois das coisas que diz mas já foi falando em juntar o Canadá aos Estados Unidos, em comprar a Groenlândia por tuta e meia à Dinamarca, porque esta enorme ilha é gerida pela Dinamarca. O Golfo do México vai passar a chamar-se, segundo ele, Golfo Americano e o Canal do Panamá vai deixar de ser gerido pela China e passará para os Estados Unidos (esta talvez faça sentido mas não vai ser fácil). E muitas outras coisas tem dito embora, até agora, só se tenha concretizado o envio para o Brasil de deportados, devidamente algemados e acorrentados, considerados ilegais nos Estados Unidos.

Mas quem é a gente que ele foi arranjar para o ajudarem? (Excluindo, claro, a Stephanie Wonders que deve receber bom dinheiro para estar calada…)

Começando pela família : a mulher Melania que cumpre, com muita sobriedade, tudo o que o marido vai fazendo. Como emigrante de luxo porta-se muito bem. Barron Trump, o filho mais novo segue as pisadas do pai nos negócios. Donald Trump Jor, filho mais velho, do casamento de Trump com a modelo checa já falecida, Ivanka, tem grande influência junto do pai. Vem depois Ivanka Trump, segundo ele a sua filha mais dotada, mas que dedica mais tempo à família que aos assuntos do pai. Eric Trump é o filho mais novo do casamento com Ivanka. Tiffany Trump é formada em Direito, filha do segundo casamento do Presidente com a atriz norte americana Mara Marples, e ficou com a responsabilidade das ligações com o médio oriente. Jared Kershner, marido de Ivanka, é conselheiro senior do Presidente. É empresário da construção e já esteve preso por evasão fiscal, recebendo , no entanto, em 2020, perdão presidencial. Lara Trump, mulher de Erik, quer ser senadora.

Com toda esta família à sua volta restou-lhe arranjar um número absurdo de amigos para o governo, ou próximos dele, que defendem as teorias mais bizarras do próprio Trump. Talvez de todos esses se destaque Elon Musk (diz-se ser o homem mais rico do mundo), que, além de ter empresas altamente dependentes do governo , assumiu os princípios políticos da extrema direita internacional já tendo apoiado o partido alemão AfD, de extrema direita, que vai concorrer às próximas eleições . Todos os outros nomes, que seria exaustivo enumerar, são de gente que defende a existência apenas de dois sexos nos EU; que assumem a expulsão de todos os imigrantes ilegais (alguns a viver há 20 ou 30 anos no país mas sem terem tido oportunidade de legalização); que prepararam o perdão judicial para todos os condenados ao Capitólio no famoso 6 de Janeiro; gente que negou a pandemia e um deles, por acaso médico e apresentador de TV, que mandou usar a cloroquina sem comprovação científica.

Não valerá a pena tornar mais extensa esta lista de absurdos mas que o mundo não pode estar muito descansado é verdade. É o Donald dos nossos tempos, muito diferente do que nos divertiu durante a nossa juventude.

O Donald não o Pato

Que tudo nos corra bem.

Um pensamento sobre “O PATO DONALD

  1. Longe vão os tempos, em que aguardava, com uma certa ansiedade, a chegada da edição mensal das Selecções da Reader´s Digest, e lia com interesse, a maior parte das suas crónicas sobre a América, e o mundo em que se desenvolvia. As imagens de um quotidiano da vida americana, que ainda hoje recordo, como se tivessemos vivido, paredes meias, e escutassemos as suas preocupações e os seus anseios. Os seus problemas e as suas paixões. Um mundo diferente, que vivia diferente de nós, e me levava aos sonhos de conhecer, pessoalmente, quando fosse adulto. Leituras, que a Reader´s, editava, numa colecção de bolso, que meu pai comprava religiosamente, e que guardo desde o número um, em edição brasileira, que lá em casa, por ordem de idades, passava de mão em mão, até chegar a minha vez ! Crónicas sobre a politica americana, que desenvolvíamos, em conversa, entre família e amigos, e faziam o nosso gosto de explorar, tão distantes dos nossos hábitos provincianos, ainda que vivessemos numa cidade cosmopolita, como Lisboa o era, em tempos de final de guerra…! Uma outra revista, que furtivamente me passava palas mãos, a Collier´s, tão da exclusividade de meu irmão, que a comprava com o dinheiro das suas mesadas.
    A América, era assim, um exemplo de liberdade, que crescia em nós, pelo seu modernismo e importância, representando um mundo novo, tão distante desta velha Europa, naturalmente preocupada, em se reorganizar, após lastimáveis vertingens do poder.
    Histórias efémeras, que se esvaziam de sentido, pela veleidade e ganância de novos poderes, incompreensivelmente alimentados pela democracia…!

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