Vi, um dia destes, na TV, uma pequena entrevista com a pintora Graça Morais cuja obra conheço de longa data sem, no entanto, nunca a ter conhecido pessoalmente. Vive em Bragança onde existe um Centro de Arte Moderna com o seu nome e onde, segundo ela, têm lugar muitas exposições interessantes de diversos artistas.
No entanto, o que retive da sua pequena entrevista foi a sua perplexidade e angústia pelo estado do mundo atual, as guerras fomentadas e desnecessárias que se propagam pelo globo, em todos os continentes. A ausência da paz perturba-a e colide com os seus sentimentos pessoais e artísticos. E isso levou-a a enveredar por uma nova fase da sua pintura, mais leve, mais ingénua, menos complexa talvez. E foram apresentadas algumas obras suas com temas de enorme simplicidade, passando pela representação de objetos velhos, já em desuso, de pequenos frutos de que muitos de nós já nem sequer se lembram.
Dessa simplicidade artística passou a falar de sentimentos e recordações . E foi essa parte da entrevista que mais retive. Dizia ela que hoje as recordações estão à nossa volta. Todos os objetos que nos rodeiam são como que um museu dentro do qual nos situamos. Foi isso que mais me chamou a atenção. É verdade. Dos pontos onde, com mais frequência me sento em casa, basta-me olhar à volta e rever, recuperando, as origens e as razões de cada um desses objetos. São imensas as recordações que cada um deles me transmite. Locais pelos quais passei ao longo da vida, fotos de gente que me acompanha ou acompanhou, livros cujos títulos relembro mas que a memória já não mos deixa relembrar por completo. E alguns deles volto a lê-los para me “atualizar”. Discos e CD’s que ouvi mas cujas músicas muitas vezes não recordo. Pequenos objetos sem qualquer valor material mas, ao olhá-los, me trazem à memória incidentes e ocasiões de que nunca me poderei separar.
Já fizeram esta experiência? Eu tenho-a feito agora, com mais intensidade, devido ao apelo sereno da Graça Morais. Também sei, todos sabemos, que quando desaparecermos a maioria desses pequenos objetos desaparecerão também, pela falta de interesse dos que nos venham a suceder. Mas tudo isso é a nossa vida, foi todo esse “museu” que nos deu a felicidade silenciosa de viver. O resto pouco importa. Muitos dos tremendismos do mundo são relativizados por tudo aquilo que nos rodeia, pelo nosso mundo. Só é preciso que essa relativização não nos faça esquecer a realidade, tudo o que se tem passado, está a passar e virá a passar, neste mundo tremendo onde pululam os loucos e ambiciosos que já esqueceram a simplicidade da vida que também já os rodeou. Uma boa chamada de atenção da Graça Morais.
É a vida!
Tempos difíceis, que se avizinham…! Tempos de insegurança, que me fazem viver num imaginário, que bem gostaria estivesse bem distante dos meus receios.
Graça Morais, que na sua ternura de dizer as coisas, nos lembra o quanto de boas memórias podemos recuperar, imagináriamente, relembrando outros ambientes, bem mais deliciosos dos bons velhos tempos…! Um velho disco de Vinil, Long Play, poderá dar-nos a satisfação de alguns minutos de prazer, escutando melodias que nos encherão os bolsos, com ilustrações de outros ritmos, bem diferentes da actualidade. Uma visita a um passado que nos ajuda a suportar este mundo permíscuo e globalizado.
Inflizmente, obras, como as de George Orwel, por inércia, torna-se o veneno inseparável, das nossas novas preocupações, ou a visão a preto e branco, de um Fahrenheit 451, que desconheço o autor, e nunca mais saíu do meu imaginário !
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