PORTUGAL DOS PEQUENITOS

Portugal dos Pequenitos é um parque em miniatura concebido e construído durante o Estado Novo como um espaço lúdico, pedagógico e turístico, para mostrar aspetos da cultura e do património português, em Portugal e no mundo. Localiza-se no Largo do Rossio de Santa Clara, em Coimbra.

Foi iniciado em 1938, por iniciativa do professor Bissaya Barreto, com projeto do arquiteto Cassiano Branco, vindo a ser inaugurado em 8 de junho de 1940. A sua construção desenvolveu-se em 3 fases, tendo a última, dedicada às províncias ultramarinas em África, Macau, Índia e Timor, sido concluída em 1950. Em miúdo , não sei em que ano, os meus pais levaram-me a visitar o famoso parque. Não me lembro das minhas reações mas, possivelmente, terei gostado do passeio. Embora construído no tempo de Salazar (que as gerações mais recentes só conhecerão por leituras de raspão) o parque continua aberto e em 2014 teve 228 mil visitantes.

Vem esta pequena introdução histórica a propósito do Portugal em que atualmente vivemos. Olhamos à nossa volta e as estatísticas levam-nos a supor que voltámos a viver num país de pequenitos. As sessões desbragadas e com falta de conteúdo cultural a que assistimos nas transmissões da Assembleia da República, levam-nos a pensar que faltam adultos na sala (com honrosas exceções, claro). Homens com responsabilidades que roubam malas nos aeroportos; outros, com idades para já terem juízo, praticam actos de violação de menores; com descrição ou no ambiente familiar mas, recentemente, também vimos um professor praticar actos censuráveis junto de uma aluna de 14/15 anos. Foi suspenso por 30 dias em vez de ser desterrado para um departamento da escola, fora do contacto com alunos, onde se entretenha a preencher horários e outros utilíssimos trabalhos administrativos. Na notícia da TV que destacava este escândalo passava, ao mesmo tempo, em rodapé, uma legenda dizendo que “lhe iriam ser aplicadas sansões”. Só faltava falar também da Dalila (do famoso filme Sansão e Dalila).

É com enorme perplexidade que se revela que a juventude atual não sabe, nem precisa (!!!!????) de saber a conjugação dos verbos. Os presentes, particípios, conjuntivos foram substituídos pela chamada conversa “chat” dos telemóveis com a qual eles se entendem, deixaram de se confrontar com trocas de opiniões e se mergulham nos visores dos aparelhos deixando até de olhar em volta. Fiz recentemente um pequeno passeio durante o qual me cruzei com cerca de 16/17 jovens que não viam, claro, o que se passava à volta mas que trocavam aceleradas informações com outros parceiros que estariam no outro lado da rede.

Entretanto apareceram notícias preocupantes de que aumentaram calamitosamente os casos, em jovens, de casos de gonorreia e sífilis . Os médicos dizem que estão atentos mas tudo isto nos faz regressar às décadas de 60 e 70 do século passado em que as prevenções e disponibilidade de meios contraceptivos eram escassos e, muitas vezes, perseguidos.

Voltámos, assim parece, a um país de pequenitos onde escasseiam a ética, os bons costumes, a solidariedade. Parece que vai sendo assim por todo o mundo, mas isso não consola particularmente.

Deviam ser dadas mais oportunidades às escolas, às universidades, a comentadores cultos e sabedores, para dissertarem sobre temas e valores que elevem a nossa sociedade, que a retire deste modernismo bacoco em que estamos a cair. Sei que muitos dirão que com a IA (Inteligência Artificial) tudo se modificará para melhor. Mas o que eu propunha é que a nossa Inteligência Natural fosse suficiente para vivermos numa sociedade progressivamente evoluída. Caso contrário, continuaremos a viver no “Portugal dos Pequenitos”.

PS – José Pacheco Pereira como reconhecido homem culto, propôs recentemente (como uma extensão do seu Arquivo Ephemera) a criação em Santa Comba Dão (terra natal de Salazar) um Centro Interpretativo do Estado Novo de modo a estudar e criticar essa época, sem servir, no entanto, de homenagem a Salazar. Muitos “pequenotes” por aí espalhados vieram criticar a iniciativa, não sabendo, muitos deles, quem foi e o que fez António de Oliveira Salazar.

Cuidado com o país dos pequeninos!

Um pensamento sobre “PORTUGAL DOS PEQUENITOS

  1. Sem saudosismos de regimes, que pouco têm a haver com o caso, recordo os bons tempos da minha juventude, em que me deliciava percorrer todas aquelas casitas, em que se evidenciava os estilos portugueses. Talvez mais, o apuramento que levou Roque Lino, ainda da nossa natural ignorância, a evidenciar ! Algumas tardes, em estilo lúdico, descobertas do nosso país, a acumular a graciosidade dos nossos territórios da odisseia marítima. Telhados, que nos lembrariam certos adornos da China, ou de Timor, a juntarem-se aos nossos alpendres minhotos. Traços característicos da nossa arquitectura, que se fixávam na memória, ainda fresca e receptível, como acontecia, naturalmente, com as capas dos primeiros livros de leitura, da Primária.
    E um pouco de história, se ia desenvolvendo, em mistura com os cantos geográficos do nosso Império, que despertava a nossa ambição e curiosidade.
    Um passeio, que se repetiu, marcando novas gerações, com filhos e netos.
    Curiosamente, a imagem daqueles dias antigos, voltou a ser a mesma. O Portugal dos Pequenitos, continuava a ser aquele livro colorido, em que se aprendia uma parte da nossa existência, brincando às casinhas…!

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