Numa época em que a cultura vive, em Portugal, um dos seus momentos mais deprimentes algo me alerta para a necessidade de falar sobre alguma coisa ou alguém que terão participado nessa tal nossa cultura por vezes tornada quase como irrelevante. Em todos os seus domínios: educacional, artístico e histórico. Há sempre, nos governos, quem seja o responsável pela cultura. Ministros ou Secretários de Estado que acabam por se envolver em papelada, decretos e regulamentos que obliteram aquilo que, teoricamente, deviam proteger e acautelar. Temos muitos exemplos disso que não vale a pena, agora, trazer a à baila. Vale-nos, grande parte das vezes, as iniciativas privadas que conseguem, com apoios inestimáveis, pôr a funcionar museus ou exposições significativas. Mas, de uma forma geral, os artistas, aqueles que contribuem para esses tais espaços culturais, são esquecidos para não dizer ignorados.
Por isso resolvi hoje falar de um artista que conheci pessoalmente e com o qual convivi durante algum tempo. Trata-se de João Cutileiro, escultor emérito da nossa época .

João Cutileiro nasceu em Lisboa em 1937 e faleceu também em Lisboa em 2021. Por razões familiares viveu em Évora na juventude e lá voltou a fixar-se já em idade adulta. O seu pai, médico, de nome José Cutileiro, foi oposicionista no tempo do Estado Novo, tendo sido impedido de exercer funções públicas, como docente da Faculdade de Medicina de Lisboa, o que o levou a ligar-se à Organização Mundial de Saúde. O seu irmão mais velho, José Cutileiro (1934-2020) enveredou pela carreira diplomática após o 25 de Abril de 1974, tendo sido convidado por Mário Soares para Adido Cultural em Londres. Representou Portugal no Conselho da Europa e veio a desempenhar muitos outros cargos em diversos países do mundo.
Mas voltemos a João Cutileiro. Por força das atividades do pai e das suas viagens, teve oportunidade de visitar a Suíça, a Índia e o Paquistão. Numa dessas viagens passou por Florença onde se encantou com a obra de Michelangelo, confirmando o seu interesse pela escultura. Em Lisboa viveu na Av. Elias Garcia tendo-se, em sua casa, criado um centro de reuniões da “inteligência” portuguesa. Depois de frequentar a Escola Superior de Belas Artes (onde foi aluno de Leopoldo de Almeida) resolveu, por influência de Paula Rego, sair do país e ingressar na Slade School of Art, em Londres, beneficiando de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.
Conheci-o por intermédio de um amigo comum nos anos 80 do século passado quando ele trabalhava no seu atelier em Lagos. Dessa nossa relação resultou a compra, por um valor simbólico, de uma sua peça, “A Mulher Bífida” que ele próprio montou no átrio da empresa que, nessa altura, ocupava.

Mais tarde, quando saí desse escritório, verifiquei que não tinha outro espaço onde a colocar (tinha 2,60 m de altura) e vi-me obrigado a vendê-la. Retive, no entanto, uma peça sua, também de enorme beleza, chamada “A Perdiz”, para a qual olho diariamente e me faz recordar o amigo e escultor já desaparecido.

Tirando estes aspetos mais pessoais há que lembrar as inúmeras peças de sua autoria que inundam o país: o Monumento ao 25 de Abril, no Parque Eduardo VII, em Lisboa; a estátua de D. Sancho I, no Castelo de Torres Novas; o “Lago das Tágides”, no Parque das Nações, em Lisboa; o Monumento ao Rei D. Sebastião, em Lagos, ou a “Menina Deitada”, em Almancil, no Algarve.

É profusa a obra de João Cutileiro. Conquistou uma menção honrosa no Prémio Soquil, em 1971 e cinco anos mais tarde as suas peças foram expostas em Wuppertal, na Alemanha. Expôs em Washington e Nova Iorque e em muitas outras cidades do mundo. A 3 de Agosto de 1983, foi agraciado pelo Presidente Ramalho Eanes, com o grau de Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico.
Aqui deixo este apontamento sobre uma figura fundamental do nosso meio cultural. O governo atual arranjou um Ministério a que chamou de Ministério da Cultura, Juventude e Desporto. Como se qualquer dessas atividades lhe merecesse atenção. É indigno de um país meter num “saco de sobras“ atividades tão fundamentais mas para as quais não tem objetivos nem ambiciona respostas.
E neste caso, trata-se da Cultura.
Maravilhosa arte de eternizar a beleza, dando vida à pedra. Golpes precisos, que lhe retiram o excesso, dando-lhe a forma sonhada, com a sabedoria, a fantazia, e a imaginação de mestre. Assim fizeram, grandes nomes, criando obras, quase tão antigas, como a nossa civilização…!
Estaremos nós, a dar o real valor a quem sempre se dedicou a este género de arte, ensinando e promovendo novos trabalhos, embelezando jardins, palácios e museus, que visitamos com curiosidade ?
Penso que não…! Neto de um escultor, pela parte materna, que não cheguei a conhecer, sei que faleceu, deixando o seu país semeado das suas obras. Uma época em que a cultura era exclusivo de elites, sempre me admirei, como o seu nome nunca ultrapassou fronteiras, além das quatro paredes de Igrejas e Catedrais, com a sublime arte sacra, e o museu Machado de Castro, em Coimbra, que em tempos, passou a dar-lhe o respectivo relevo. Chamava-se João Machado! Homem honestíssimo e apaixonado pela sua arte! Ensinou a sua arte aos próprios filhos, além da escola onde dava todo o seu melhor. Passado um século, após a sua morte, finalmente, aceitaram-no como escultor, e o nome de uma rua de Coimbra. A sua própria rua, onde sempre laborou, no seu atelier, de onde sairam outros novos mestres de lidar com a pedra…!
Hoje, em Coimbra, muitos falam deste nome, sem saberem quem foi. Apenas, um nome de rua, ainda que movimentada, sem qualquer outro interesse, que não fosse uma morada, ou um caminho mais curto, de passagem. Estranho mundo de pseudo intelecto, que pouco recorda os seus mestres, que valorizaram a sua terra, com a sua presença, arte e sabedoria…!
E foi necessário, um século…! Grande espaço de tempo, para se por a verdade ao cimo das vaidades e fantasias de certas elites autopromovidas …!
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