ANNA NETREBKO

Anna Netrebko é, desde há anos, uma das cantoras líricas mais famosas do mundo. Lembro-me de, também há muitos anos, ir comprar uns CDs a uma loja especializada que existia na avenida de Roma em Lisboa (onde hoje está um Café Portela) para procurar algumas coisas novas do canto clássico, sem um objetivo concreto. A senhora que dirigia a loja veio em meu auxílio e recomendou-me um disco da Anna Netrebko que, à data, não conhecia. Agradeci-lhe a ajuda e, de vez em quando, lá ia na minha peregrinação pedir-lhe mais opiniões. Era conhecedora, foi-me sempre útil, mas são tempos que já lá vão.

Como é natural fui acompanhando a carreira da cantora, ouvindo-a muitas vezes no YouTube e assistindo na televisão às galas em que lhe foram atribuídos diversos prémios. Não sou caso único, o mundo inteiro conhece-a e acompanha-a.

O nome da cantora veio agora, polemicamente, às notícias. O Royal Ballet and Opera de Londres programou para o próximo mês de Setembro uma apresentação da Tosca, com Anna Netrebko. Os protestos contra tal iniciativa têm sido muitos e importantes. 50 escritores ucranianos, um antigo Primeiro-Ministro da Nova Zelândia e até o intelectual francês Bernard-Henry Lévy vieram insurgir-se contra a aparição de Anna naquela produção. Afirmam que a cantora é “um símbolo muito antigo do programa cultural de um regime que é responsável por graves crimes de guerra. Insistimos que se mantenham, como consistentemente tem acontecido, no lado ético da arte e da História”. No princípio deste mês o RBO (Royal Ballet and Opera) suspendeu a sua produção da Tosca, na Ópera de Israel , em Telavive depois de 200 membros da RBO terem apresentado uma carta aberta criticando os ataques a Gaza. O Chefe Executivo da RBO tem vindo a defender o seu indefectível apoio à causa ucraniana embora o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia tenha sugerido a “substituição da cantora por outra que não esteja associada a um regime criminoso”.

Netrebko é uma das sopranos mais famosas do mundo e em 2014 fez uma doação à Ópera de Donetsk já depois da Rússia ter atacado e tomado posse de diversas regiões da Ucrânia. Desde há muito que Anna é cidadã e residente austríaca e lamenta que alguns dos seu actos tenham sido mal interpretados e afirma que nunca foi membro de qualquer partido político nem “aliada de qualquer líder da Rússia”.

Anna Netrebko na ópera “A Força do Destino” de Verdi.

Netrebko tem evitado criticar diretamente o Presidente russo que, em 2008, lhe concedeu o título honorífico de “Artista do Povo”.

Apesar de todas estas querelas a sua aparição está prevista em Covent Garden, a partir de 11 de Novembro, durante quatro noites e, em Dezembro, desempenhará o Turandot.

A Política e a Arte cruzam-se com grande frequência. Sabemos que todos os atletas ou artistas russos se têm apresentado como independentes, por decisão dos tribunais internacionais. Este caso de Netrebko, como cidadã austríaca , embora não esquecendo o seu país natal, levanta problemas de ética que talvez possam ser superados até às suas previstas aparições. Mas reconheço que a “figura macabra” de Putin nos bastidores deste cenário me causam, também, as maiores indisposições . Esperemos que a Arte não sofra com este contratempo.

2 pensamentos sobre “ANNA NETREBKO

  1. Houve aqui um pequeno problema com o meu computador ! As minhas desculpas…!
    Em aditamento, ao meu comentário, gostaria apelar à vossa paciência, a oportunidade de poder terminar melhor, o que estava a escrever..!
    Alexandra Tirsu, é uma violinista reconhecida internacionalmente, de origem moldava, com um já vastissimo curriculum internacional, incluindo a Orquestra Filarmonica Arthur Rubinstein !
    Também, uma pérola no virtuosismo da música clássica, sempre acompanhada do genuino Stradivari, gentilmente emprestado pela Stradivari Society !
    O que ficou, deste pequeno festival, Guarda Music Festival, foi o desejo de não deixar parar este tipo de iniciativas, tão refrescante, da surpreendente cultura do interior…!

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  2. Um assunto que me despertou um grande interesse…! Já tinha ouvido falar neste nome, que acabou por passar um pouco distanciado da minha curiosidade.
    Netrebko, será talvez, mais um nome a ser travado pelos efeitos da política, por vezes transversal no domínio das artes, como foi, e ainda hoje se vai repercutindo em vários casos. A obra de Wagner, é disso, um exemplo ! Mais pelo que se vai ouvindo, como fogo que alastra, sem fim à vista…!
    Quem não vibra, ao ouvir a turbulenta música deste compositor, dramática e empolgante, como foi toda a sua própria vida ? Uma vida de revolução, pelo seu feitio instável e intenso, que transformou a música, num espectáculo arrebatador e imersivo…! O som de metais, ressoando em conjunto com as vibrações dos timbales, dando o efeito épico de uma finale fantástica ! Um despertar súbito e inesperado, em conflito com a melodia nostalgica, retemperando a força da ópera…!
    Curiosamente, ontem, fui a um Recital de Violino e Piano…! Desconhecia as interpretes ! Um espectáculo maravilhoso, na simplicidade de uma igreja, sem luzes extra, e muito menos, o auxílio de amplificadores de som ! Apenas, uma pequena ligação sonora…!
    Alexandra Tirsu, em violino, e Jill Lawson, ao piano…!
    Tirando Maurice Ravel, pouco mais conhecia, do seu reportório ! Um público atento, que se acotovelava na igreja da Sé, na Guarda, disciplinadamente, como seria de esperar !
    Jill Lawson, uma luso americana, actualmente a viver em Portugal, com um vasto curriculum internacional, incluindo passagens por Osaka, Munique e Londres, que espero poder ouvi-la, a par da nossa conhecida Maria João Pires, por vezes tão esquecida na sua quinta em Belgais !
    Alexandra Tirsu

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