Tenho acompanhado recentemente uma série televisiva francesa que descreve as aventuras difíceis que vivem no Iraque os seus militares, tanto no controlo de território mais protegido, como nas zonas em que o Daesh mais os ataca, matando militares presos ou mantendo-os como reféns. Trata-se, evidentemente, de uma série comercial relatando, no entanto, factos apoiados em acontecimentos reais.
A série já terminou mas fez-me reviver uma época, por volta dos anos 70/80 do século passado, em que estive no Iraque sem as perturbações sociais e militares que estão agora presentes. Era Presidente, nessa época e desde 1979, o famoso Saddam Hussein. Foi ele que iniciou, nesse mesmo ano de 1980, a guerra Irão-Iraque com as consequências tão bem conhecidas.
A minha aventura foi, no entanto, muito mais pacífica, sem deixar de ser palpitante. Nessa altura trabalhava, como engenheiro, numa fábrica em Santa Iria de Azóia, a MEC – Fábrica de Aparelhagem Industrial, cuja produção era, basicamente, redutores para garrafas de gás, esquentadores a gás e aparelhos de ar condicionado. Havia em Lisboa, na altura, uma delegação comercial iraquiana baseada numa Associação de Amizade Portugal-Iraque. E foi o dirigente dessa Associação, João Mariano da Fonseca, português com antecedentes familiares iraquianos, que contactou a MEC e lhe propôs a exportação para o Iraque de algumas centenas de aparelhos de ar condicionado. O negócio e as condições de pagamento eram interessantes e a administração da empresa resolveu responder ao convite. Para tal, fui destacado para me deslocar ao Iraque e concretizar, localmente, com o comprador final os pormenores do negócio. Havia garantias, pelo facto desse comprador ser familiar de Mariano da Fonseca. Antes da partida tive que me fazer membro da Associação de Amizade Portugal-Iraque ficando com um cartão (nº 24) que me seria indispensável para a viagem e negociação.

A deslocação era mais difícil do que seria hoje. As ligações aéreas não eram diretas e tive que fazer uma ligação, por sorte minha, primeiro pela Grécia (Atenas) e a seguir pelo Líbano. Tanto em Atenas como em Beirut arranjámos contactos com empresários que aceitaram fazer umas primeiras encomendas experimentais dos mesmos aparelhos.
Em Atenas o sucesso comercial não foi grande, principalmente pelas línguas que falávamos. O grego que procurei entendia mal o inglês e eu de grego só me lembrei do Pitágoras. Aproveitei para visitar alguns locais de Atenas.

Beirute era, na época, a Paris do Médio Oriente. Uma cidade luxuosa, igual a qualquer excelente cidade europeia. Esse nosso contacto, cujo nome não consigo recuperar, recebeu-me principescamente e levou-me, uma noite, ao Casino do Líbano, situado a cerca de 20/25 Km de Beirute (como o Casino do Estoril a Lisboa). Vi aí um espetáculo de palco fantástico, inesquecível, (com elefantes e cornacas em palco) como não voltei a ver outro. No dia seguinte a esta deslocação e durante a concretização do negócio, o meu anfitrião disse-me, calmamente , que iria viver para Paris. Perguntei-lhe, naturalmente , porquê. Respondeu-me rapidamente : “Porque tudo isto aqui vai acabar”. Não sei se ainda é vivo mas lembro-me sempre dele quando vejo o terríveis noticiários de Gaza e de Israel.
A chegada a Bagdad foi mais palpitante. A guarda de fronteira no aeroporto, composta por militares, revistou tudo o que eu levava e, por fim, meteram-me num compartimento isolado. Passou algum tempo e julguei que a minha viagem tinha acabado mal. Mas, de repente, pedindo desculpa pelo atraso, lá chegou o Mariano da Fonseca que explicou aos guardas quem eu era e me levou para a cidade.
A partir daí tudo correu bem. Jantei nessa noite em casa do familiar que ia comprar os aparelhos. Almofadas em torno de uma mesa rasteira, na qual iam sendo depositadas as iguarias mais delicadas, pelas mulheres presentes que, depois da sua missão, se afastaram e foram comer ao fundo da sala, bem longe de nós. Sentados, de pernas cruzadas, nas tais almofadas, lá fomos comendo as iguarias, à mão, mantendo um diálogo bem agradável, em inglês.
No dia seguinte Mariano da Fonseca facultou-me um automóvel com condutor que me levou a visitar os pontos mais importantes de Bagdad. No dia seguinte fomos até Mossul e visitei também as Portas de Babilónia (porta monumental construída pelo rei Nabucodonosor II, 575 A.C. ).

Depois desta excursão a viagem, praticamente, terminou. Os negócios tinham sido feitos (o de Atenas com pouco sucesso) e regressei a Lisboa. O voo veio também por Atenas mas, apenas, em trânsito.
São longínquas estas recordações mas lembro-me muito delas nos desgraçados tempos atuais. O Líbano está destruído pelas guerras em curso. Espero que no Iraque se respeitem estes importantes marcos históricos. Foi por tudo isto que me apeteceu escrever este texto e plasmar as recordações. Não levem a mal.
Tempos sombrios e difíceis, os de hoje, em que todo o passado se esquece, e já pouco serve de exemplo…!
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