O SORTILÉGIO DE BREL

Fui ver o Salvador a cantar Brel.  Confesso que fui mais pelo Brel do que pelo Salvador, embora não recuse a admiração que sinto por este jovem que fiquei a conhecer quando, em 2017, nos deu a única vitória portuguesa no Festival Eurovisão da Canção. Despertou-me, desde essa altura, uma enorme simpatia, não só pela sua tão especial forma de cantar, como pelas atribulações de saúde por que passou. Fui acompanhando, desde aí, pela comunicação,  os sucessos que tem obtido no seu percurso musical. É reconhecido em Portugal e no estrangeiro e isso só pode ser, nos tempos que correm, um sinal de qualidade. Mas confesso, mais uma vez, que não teria “ganas” de ir vê-lo a um espetáculo só seu, mesmo intimista, como parecem ser os seus frequentes concertos. Defeito meu, claro.

Mas agora, alguém que conhece o meu apreço por Jacques Brel, arranjou-me as entradas com antecedência e eu, com muito gosto e ainda bem, lá fui. Brel é do meu tempo, do nosso tempo. As suas canções, as suas letras, as suas composições, as suas histórias de vida vêm deslumbrando gerações. As suas inequecíveis “baladas” ficaram a ser trauteadas depois da sua morte com apenas 49 anos. Foi uma alma de aventura, de peregrinação, de bondade, de permanente insatisfação e, daí, o sortilégio das suas palavras. Não é, evidentemente, o único. Muitos outros nos têm deixado heranças poéticas fantásticas, como Georges Brassens, Zeca Afonso, Serge Reggiani, Léon Ferré, Leonard Cohen e muitos outros. E há os que, felizmente, ainda não nos deixaram heranças porque continuam entre nós a deleitar-nos com as suas trovas maravilhosas: Sérgio Godinho, Joni Mitchell ou António Zambujo são excelentes exemplos do que se pode dizer cantando, com génio, com simplicidade,  com intimidade.

Mas hoje é de Brel que vos falo. A reconstituição das baladas de Brel, por Salvador Sobral, é uma aventura de grande risco. E foi numa sala cheia (C.C.Belém) que ele se atreveu a pôr em palco um punhado de canções para um público que, estou certo, foi ao concerto  para relembar Brel e, ao mesmo tempo, para sentir como essa nova experiência resultava. Foi uma aventura bem sucedida. Claro que, cada um de nós, terá opiniões diversas sobre a forma de interpretar as canções mas, em geral, é indispensável dizer que a experiência foi um sucesso. Não foi, como não podia ser, uma réplica de Brel, mas o reaparecimento das canções, o resgate das palavras, foi um testemunho do apreço da descoberta de Brel por Sobral. Para os que se lembram melhor de Brel poderão não ter apreciado, em algumas das canções, os excessos do acompanhamento musical. Mas o quadro, quase exclusivo, intimista, em que cantou o “Amsterdam”, foi um consolo para a alma. Para culminar com a declamação, sem música, de  “Ne me quitte pas”, para mim um dos pontos mais altos do seu espetáculo. Cantou muitas, 18 ao todo, das canções de Brel desde o inesquecível “J’arrive” ao curioso “Les Bonbons”. Não se atreveu, não quis cantar a “Valse à Mille Temps”. Talvez tenha feito bem, para que não o confundam com Carlos do Carmo.

Valeu a pena ir ver Brel. E valeu a pena apreciar o trabalho extraordinário de Salvador que reproduziu num francês impecável (não deve ter sido a menor das suas dificuldades) os poemas, as baladas e, sobretudo, a inquietude e o sortilégio da especial personalidade de Brel. Como se costuma dizer em muitos espetáculos, depois de estrondosas interpretações: BRAVO!

 

 

 

 

 

2 pensamentos sobre “O SORTILÉGIO DE BREL

  1. Não tive conhecimento deste espectáculo , de Salvador Sobral. Possivelmente, não iria vê-lo, uma vez que também não imaginava ver e ouvir Jaques Brel, na pele de outro cantor, embora o considerasse muito bom, pela forma como se saiu no Festival Europeu da Canção.. Talvez, um sentimento purista nestas coisas, agravado por um certo comodismo, nascido da incerteza de valer ou não a pena…! Pelo visto, parece-me que fiquei a perder…!

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