O Bombeiro Pirómano

Um recente editorial de Philippe Gélie no Le Figaro expressa, com enorme fidelidade, os enormes desastres que ocorrem no Médio Oriente, nas zonas da Síria, Turquia e arredores, com a intervenção, claro, da inevitável Rússia. Trata-se, evidentemente, de uma disputa regional, mas fundamental para o mundo, entre a Turquia de Erdogan e a Rússia de Putin. Da Síria à Líbia, o expansionismo de Erdogan confronta-se com as mesmas intenções de Putin. O Presidente turco pretende dizimar os curdos (aliados da Europa mas seus inimigos eternos) e criar, a sul, uma zona tampão, ou, em alternativa,  abrir as suas fronteiras e deixar passar 4 milhões de refugiados para a sua “aliada” Europa. Os rebeldes sírios, armados por Erdogan, já atacaram aviões russos e abateram dois helicópteros sírios.  Depois desta enorme e explosiva convulsão, Erdogan, enquanto parceiro da NATO, pede-lhe ajuda militar depois de a ter, ostensivamente, ignorado.  Chamar-lhe “bombeiro pirómano” parece-me de um humor inteligente e incontornável.

Aliás, a história desta gente vem de trás, de há muitos séculos, nunca se tendo perdoado as suas invasões recíprocas. Se remontarmos ao século XII encontramos nas estepes da Ásia Central as imensas tribos turco-mongois que vieram a ser comandadas e lideradas pelo famoso e terrível Gengiscão que se tornou dominador absoluto de todo o território habitado pelos mongóis, conseguindo constituir talvez o maior império até hoje conhecido, desde as zonas setentrionais da China até à atual Rússia e antigos países da sua União. No século XVI a invasão dos tártaros (daqui o nome dos bifes espalmados debaixo das selas dos cavalos…) condicionou completamente a geografia da Rússia. O único pequeno estado que resistiu, por entendimentos comerciais, à invasão mongol foi o de Moscovo, passando a viver como estado satélite. Até que, em 1377, o príncipe de Moscovo, Demétrio Ivanovic, infringe uma tremenda derrota aos mongóis nas margens do Voza.  Mais tarde, com Ivan III, o Grande, e com a queda de Constantinopla, Moscovo assume a recuperação de parte dos antigos territórios de Gengiscão. Por sua morte sucede-lhe o seu filho Pedro, mais tarde cognominado o Terrível. Reconquistou tudo para o sul até ao mar Cáspio e, para norte, outurgou a posse e colonização da Sibéria a uma família de mercadores, os Stroganov (supõe-se que está aqui a origem do famoso guisado…) . Chegou mais tarde Ivan IV, feroz e intratável, que chegou ao Báltico mas foi vencido pelos exércitos polacos. Anos mais tarde (não estou aqui a contar a história da época) surgiu um czar polaco, o príncipe Ladislau, com 14 anos de idade,  filho de Segismundo III. Esta supremacia levou, claro, a uma revolução que empossou Miguel Romanov no trono da Rússia. A dinastia Romanov conduziu os destinos da Rússia até à grande revolução socialista de 1917.

Que será preciso dizer mais, para além dos feitos dos ferozes antepassados Gengiscão e Pedro, o Grande, para entendermos a psicose ainda subjacente de Erdogan, como indiscutível candidato a Sultão, e de Putin, com evidentes talentos para Czar? A Europa, atrapalhada como sempre tem estado nos últimos tempos, lá recebeu o Erdogan, pedindo-lhe calma e contenção, e sugerindo-lhe um pacto de amizade com o Czar. Realmente esse tratado de paz Erdogan-Putin foi assinado há dias, em Moscovo, mas, bem lá no fundo, nenhum deles o assinou de boa-fé nem esperam dele grande duração. E o médio-oriente, com polo explosivo na Síria, lá continuará a dar origem a milhares de mortos e refugiados, estes, como é sabido, concentrados em campos de miséria sempre sob  a ameaça de que se lhes abram portões de arame farpado que os conduzirão, sem dúvida, a outros infernos iguais. O mundo não precisa disto, o mundo não devia ser isto, mas a humanidade anda desnorteada, ou melhor, anda norteada por outros imensos e incontáveis interesses.

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Gravura de M. Silva

 

 

 

Um pensamento sobre “O Bombeiro Pirómano

  1. Para os dirigentes imperialistas a vida e o bem estar das pessoas não contam. A paz e a social democracia foi uma invenção dos europeus ocidentais que na prática ainda não tem muitos adeptos

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