CAVALOS E TROTINETAS

São longas e inumeráveis as estórias das relações entre os humanos e os animais. Desde sempre esses relacionamentos foram transversais a todas as idades e sociedades. Investigadores, cientistas, artistas e milhares de cidadãos anónimos dedicaram boas partes das suas existências ao estudo ou ao convívio com animais. A humanidade preocupa-se com a preservação das espécies animais, não só por paixão mas também pela compreensão de que a extinção de qualquer espécie é uma perda para a herança que o mundo nos vai deixando. Os animais domésticos são recolhidos e tratados com provas de afeto e carinho que ultrapassam, muitas vezes, o que os próprios humanos recebem dos da sua própria espécie. Todos gostamos de animais, mais de uns do que de outros, mas há apreciadores para todos eles. Os filmes sobre animais livres na natureza são vistos aos milhares e, na falta de os vermos nessa própria natureza, temos sempre a possibilidade de recorrer aos Jardins Zoológicos onde os bichos, embora presos ou pelo menos privados da sua natural liberdade, são bem tratados e protegidos.

Esta pequena e incompletíssima introdução serve apenas para corroborar a ideia de que todos nós, de uma forma geral, gostamos de animais e revoltamo-nos contra os maus tratos que lhes possam ser infligidos. Há quem tenha gosto ou paciência para os acolher e há os que se limitam a vê-los, a acarinhá-los mas sem condições ou gosto de os manter em companhia.

No meio de tudo isto surgem correntes de opinião, por todo o mundo, que se batem e defendem a liberdade total para os animais e reprovam qualquer acto de “mau trato ou humilhação” (como lhe chamam) praticado aos animais. De quando em quando estas discussões vêm à superfície e até a política já engloba nos seus programas recomendações de afeto para as espécies animais e punições para quem não as cumprir. Com a devida vénia devo dizer que concordo com algumas e discordo de outras. Sem dúvida que, entre nós, as corridas de touros (que aprecio) são o alvo mais simbólico dessas convenções “pró-animais”. As corridas de touros são a parte visível de uma indústria muito poderosa e tradicional em alguns países do mundo, em Espanha principalmente. Acredito que o avanço dos tempos e a menor ligação das juventudes ao fenómeno taurino contribuirão para uma forte atenuação dessa atividade, podendo mesmo chegar à sua extinção. Penso que não será no meu tempo e, portanto, ainda conto dar umas espreitadelas à espetacular beleza artística de lides maravilhosas que, de quando em quando, temos oportunidade de apreciar.

Outra proposta que tem sido avançada pelas pessoas que apoiam a defesa intransigente dos animais é a da eliminação de competições equestres. São diversas, em todo o mundo, as disciplinas dessas competições e sabemos que os seus “atletas”, os cavalos, são tratados com os maiores cuidados possíveis. Não são humilhados, nem mal tratados. Bem pelo contrário são acompanhados por especialistas de diversas disciplinas que lhes proporcionam as melhores condições de vida. É também uma indústia mundial de milhões que não me parece desmerecer a virtude dos animais. Isso, portanto, surpreende-me. Mas divagando um pouco mais chega-se com facilidade, por exemplo, à cavalaria da nossa Guarda Republicana que se veria privada de uma das suas mais importantes demonstrações de gala e de apoio às populações em zonas especiais. Vejo, naturalmente com algum humor, os guarda-republicanos a substituírem as suas fogosas montadas por trotinetas, agora tão em moda, para poderem chegar a pontos de mais problemático acesso!

Este salpico de humor serve apenas para apelar ao bom senso de quem lida ou apenas idealiza estes temas animais (por nunca terem convivido com eles) de modo a que as vidas e as tradições se possam manter, sem dúvida com evoluções, mas respeitando o comum envolvimento do homem com as espécies que o mundo nos faculta. É preciso preservá-las, claro, sem colidir com tudo o que esse envolvimento já nos trouxe. Sem ter que fazer, claro, a clássica pergunta de “qual é a pata direita do cavalo de D. José que está no Terreiro do Paço”….

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