O “IDADISMO”

Eduardo Paz Ferreira escreveu recentemente um livro abordando os problemas relacionados com a questão da velhice (o tal termo “idadismo” julgo que inventado por ele), como um forte documento que denuncia a sociedade individualista e omissa a tudo o que não seja lucro financeiro, contrapondo-lhe uma sociedade decente. Tomei em mão um artigo sobre o mesmo tema, escrito brilhantemente, como sempre, por Luís Castro Mendes, um destes dias no Diário de Notícias.

Começa ele com uma pequena fase introdutória de Alexandre O´Neill que diz “Velhos é coisa que ninguém atura a não ser a literatura e outros velhos”. Castro Mendes ficou, confessa, bastante perturbado, principalmente depois de ouvir a Drª Manuela Ferreita Leite defender que o Estado não deveria pagar hemodiálises a doentes acima dos setenta anos. Já tendo cumprido essa etapa da sua vida o seu medo incutiu-lhe a lamentável expectativa de não sobreviver no seio de um Estado rigorosamente liberal. Esperemos que a Drª Ferreira Leite, que já ultrapassou a tal meta macabra por ela definida, nunca venha a necessitar dos cuidados de hemodiálise ou outros que devam ser gastos apenas com as novas gerações.

O momento da reforma é o momento em que a sociedade nos diz que já não precisa de nós. Mas quem deseje e tenha forças, físicas e intelectuais, para continuar a ter uma vida, ocupar-se-á, decerto, com outras coisas com as quais tenha afinidades e não tenha, ao longo da vida, tempo para a elas se dedicar. Castro Mendes diz que escreve (e o que ele escreve deve ser sempre lido), como muitos outros que dedicam a sua reforma a pintar, escrever, ou a fazer consultorias profissionais quando os seus antecedentes lhes permitem.

Ao meditar sobre estes textos não pude deixar de pensar no meu caso pessoal. Reformei-me da minha principal atividade profissional com 62 anos (altura em que reuni todos os quesitos necessários) e continuei a trabalhar. Na minha empresa apenas como consultor e passando a ocupar-me com outra atividades, principalmente na área do dirigismo desportivo, onde me mantive até 2013. Hoje faço como Castro Mendes (com menos brilhantismo, claro) e escrevo. Até já publiquei livros, imagine-se! De quando em quando faço uns rascunhos desenhados que tenho guardado ciosamente até que um dia me decida a fazer qualquer coisa com eles.

Mas o tema mais importante de todos estes escritos é a ideia de defender a “justiça entre gerações”, deixando de se considerar as gerações mais velhas como gastadores egoístas que limitam o prosperar dos mais novos. E essa solidariedade e respeito entre gerações é cada vez mais atenuada. As novas gerações têm, e ainda bem, conhecimentos e razões que expandem com imensa facilidade e, muitas vezes, com precipitação e destempero. Raramente é pedida a opinião dos mais velhos presentes cuja experência e arquivos mentais de vida poderiam ser-lhes de alguma utilidade. Em muitas empresas passa-se o mesmo: quando chega um CEO de nova geração dedica-se, por vezes, como prioridade, a eliminar os “dinossauros” que lá estiverem (os tais com 60 anos ou mais).

Castro Mendes conta uma história que terá ouvido na infância, “de um filho que, segundo os costumes da sua tribo, ou daquele tempo, levava o pai a ir morrer fora da cidade, dando-lhe apenas uma manta para se aquecer. O pai, então, corta metade da manta e diz ao filho “É para ti, quando for a tua vez e o teu filho não te der nem uma manta.” É a realidade da solidariedade social e intergeracional que está em causa. Idosos abandonados em camas de hospitais, ou em lares sem condições são a desesperança dessa solidariedade.

Mas quem se dedique, em idade avançada, a trabalhos mais solitários não poderá deixar de recear a famosa máxima da “peste grisalha”. Parece que a migração irá atenuando o problema financeiro e social da nossa sustentabilidade mas o mais importante é fazer com que tudo contribua para uma sociedade decente.

Não me estou a queixar da minha idade nem, felizmente, da minha situação. Mas acho que o problema intergeracional, tanto cá como noutros países, deve ser encarado como prioridade humanista para que não assistamos, sem nada poder fazer, aos milhares de sem-abrigo, que a telesivão transmitiu há dias, sob as pontes de Paris. Em França, um país desenvolvido!

Um pensamento sobre “O “IDADISMO”

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