Quantas vezes já vos sucedeu irem de passeio na rua e, de repente, dar-vos uma vontade irreprimível de urinar (fazer chi-chi, em termos mais vulgares)? Olhamos de volta e não vemos solução viável. Optamos, geralmente, por ir a um café, pedir uma bica e perguntar onde é a casa de banho. O empregado percebe o truque mas lá dá a indicação. O chi-chi nem saiu caro e o café ganhou a bica.
Não foi sempre assim. Lembro-me de haver, em diversos locais de Lisboa, diversos urinóis públicos para homens, cuja limpeza não era frequente, o cheiro ambiente era terrivelmente amoniacal, mas a situação ficava salva. Agora não há urinóis. Com uma única exceção que é considerada motivo de atração turística, localizado na zona de Marvila, em Lisboa, na Praça David Leandro da Silva.

David Leandro da Silva foi um antigo comerciante de vinhos e petiscos que se tornou conhecido na época em que a zona era muito frequentada pelos operários da Companhia Portuguesa de Fósforos, Fábrica Militar de Munições e Sociedade Nacional de Sabões. Só nessa época aí chegou o carro elétrico e, um pouco adiante, o apeadeiro dos combóios.
Não sei bem há quanto tempo mas tenho ideia do Município de Lisboa regressar a esta solução de “salvação pública” e espalhar, de novo, urinóis por diversas zonas da cidade. A coisa não deve ser barata (atente-se no fornecimento de água, novas redes de esgotos e, claro, pessoal para promover a limpeza dos espaços), razão pela qual não houve, até hoje, nenhuma novidade sobre o assunto.
E o problema não é tão fácil como parece. As senhoras também vão querer os seus urinóis dedicados, para não falar noutras opções de utilizadores que poderão levantar problemas decorrentes das suas identidades específicas. E há que contar também com utilizadores em cadeiras de rodas.
Isto não se passa só cá. Não há muito tempo, em 2015, em Amesterdão, uma jovem teve , à noite, à saída de um bar, uma necessidade urinária de grande aperto e, como não havia dispositivos adequados nas redondezas, pediu a umas amigas para fazerem um círculo de volta dela e pôde, assim, satisfazer a sua urgência. O problema foi que, por acaso, uns polícias andavam por perto e multaram a menina (de seu nome Geerte Piening) num montante de 140€. Claro que isto criou um protesto imediato através das redes sociais e a menina recorreu aos tribunais. O juiz, compreendendo que a cidade não lhe facultava os meios necessários aos seus “apertos” reduziu a multa para 90€ para cobrir apenas as custas do tribunal.
O problema não parou, no entanto, por aqui. Os processos continuaram, as manifestações públicas intensificaram-se e a Câmara de Amesterdão foi obrigada a produzir legislação que pudesse resolver tão delicado assunto público. Mas finalmente, depois destes anos (desde 2015), o Município já legislou sobre o assunto e reservou uma verba de cerca de 4 milhões de Euros para a nova rede pública de urinóis que contempla todos os tipos de utentes: cavalheiros, senhoras, cadeiras de rodas, não especificando qualquer outra alternativa.
Bom, se isto se propaga não tardará muito que Lisboa não seja confrontada com os mesmos tipos de problemas. Levando em conta, além disso, o enorme número de estrangeiros que nos visitam.
Não sei onde o nosso Moedas (Currencies, para os estrangeiros) irá arranjar dinheiro para esta tão necessária iniciativa mas que fazia jeito, fazia… Não do modelo que ainda existe em Marvila, claro, mas coisas decentes que dêem para “todas as gentes”. Era uma maneira de, nos parques de Lisboa, as árvores não cheirarem apenas a chi-chi de cão. E, sobretudo, para que não apareça algum polícia mais zeloso a multar uma menina que seja surpreendida por tão natural e essencial fisiologia.
O movimento de acabar com os urinóis públicos para passar a usar os cafés integra-se na tendência mais vasta da economia liberal de privatizar todas as actividades públicas!
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Pois, de urinol em urinol, muita anedota se contou nesta cidade alfacinha, que preferiu imitar um pouco, Paris, em certos momentos de aperto…! ” La comission, s´il vou plaît, monsieur ” …! E com uma ponta de cigarro ” Gitanes “, ao canto da boca, a “madame” que assegurava a higienisação do seu posto de trabalho, não arredava o seu olhar severo, para as moedas que lhe caíam nas mãos…!
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Manel Zé
Esqueceste-te do ” atrás da arvore ” …
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