Ler Livros

 

No próximo dia 23 de Abril será comemorado o Dia Mundial do Livro. Nesta época em que há dias mundiais para tudo ou quase tudo, este deveria ser talvez o menos necessário. Mas não é. E ainda bem. Estas pequenas “farpas” virtuais obrigam-nos a pensar e a refletir sobre importantes banalidades. Sim, porque ler um livro é ou deveria ser uma banalidade. E hoje há gente em todo o mundo que trabalha , que investe, que divulga e incentiva à leitura. Gastam-se milhões para promover um ato que devia ser natural, que deveria pertencer ao nosso vulgar quotidiano. Mas ainda não é.

Ler, principalmente ler livros, é um gosto que se aprende desde a juventude. Nuns casos com mais esforço, mais fácil e intuitivamente noutros. Algumas décadas atrás ler livros, pequenos ou grandes, era das poucas coisas que aumentavam verdadeiramente o nosso grau de liberdade. Era entrar em domínios da imaginação, do conhecimento, da não rotina que preenchiam os nossos pequenos mundos infantis. Hoje a imaginação é mais complexa, mais acessível, mais exuberante e conquista, portanto, com muito mais facilidade, as audiências.

Mas por trás da maior parte das coisas deslumbrantes a que acedemos está um livro. E está um autor. Os autores consomem-se, tentam filtrar as suas ideias, constroem textos, preparam enredos, imaginam situações, decalcam a realidade, espiritualizam o quotidiano, debatem as fés, combatem-nas ou promovem-nas e, no fim, não poucas vezes, guardam ou destroem tudo o que fizeram. Porque o resultado final não lhes agradou, não transportou aquilo que, verdadeiramente, desejavam. Mas há muitos autores que vivem disso, dos muitos fracassos reconhecidos ou dos êxitos que, felizmente, muita vezes alcançam. E o livro é, antes de tudo , um trabalho duríssimo de um autor. Só por isso ele mereceria ser lido. Livros dedicados às crianças, aos adultos, a todos, devem ser motivo de reflexão para quem os lê, na perspectiva dos seus conteúdos e na apreciação das personalidades dos seus autores. Sabemos o que vamos ler quando  conhecemos o autor dos textos. Ele já nos surpreendeu e continuará a surpreender se se mantiver fiel à sua linha de pensamento embora, em alguns casos, ele próprio se surpreenda com uma obra que nunca tinha imaginado ser capaz de escrever.
Em paralelo com os autores que imaginam o que hão-de escrever existe todo o universo de cientistas, investigadores, artistas, brilhantes universitários que escrevem obras dedicadas aos seus misteres, para serem divulgadas junto dos seus mundos particulares de interesses. São documentos de extraordinário interesse mas que não têm, naturalmente, a expansão universalista dos que escrevem para o mundo. Prosa ou poesia, tudo faz parte do imaginário, da criação, do que pode ser lido, para ser mais ou menos apreciado.
Tem graça, é mais ou menos um jogo desafiante pôr em confronto personagens ou autores que fomos “armazenando” ao longo da vida. Os índios Sioux ou o Winnetou, de Karl May, postos a dialogar com o Sandokan de Emilio Salgari, as arrojadas aventuras e antecipações históricas de Julio Verne, as deliciosas e inesquecíveis personagens de Eça de Queiroz entrelaçadas com o D. Quixote de Cervantes ou com o Adamastor de Luis de Camões, a Natasha da “Guerra e Paz” em desafio com a Anna Karenina de Tolstoi, tudo isto são lucubrações que podem povoar os nossos imaginários, quando nos aprouver, olhando o céu ou o ritmo inebriante das ondas do mar, passados anos depois de lermos todas essas obras de que nos lembramos, às vezes sem todos os pormenores completamente definidos. É bom, por vezes relermos esses livros para descobrirmos detalhes e enredos menores que à época nos tinham escapado.
E quando, no cinema, vemos um filme baseado num livro que já conhecemos temos sempre a tendência de dizer que o livro é melhor que o filme. E é verdade, o filme não pode, na maior parte dos casos, transmitir tudo o que o livro encerra. São obras diferentes e que devem ser apreciadas nos contextos das suas criações.
Mas para tudo isto é preciso ter lido, é preciso criar o entusiasmo da leitura, para muitas vezes poder sublinhar o que mais nos cativa ou assinalar o que gostamos ou não gostamos.
Não sou contra as leituras em plataforma eletrónica. Faço-o para jornais ou revistas mas sou dos que ainda não se habituou à falta do “cheiro a papel” dos livros, para facilmente os poder guardar e voltar a consultar. Mas também conheço quem deite fora ou dê o livro que acabou de ler. Não vem mal ao mundo por isso. O mal vem de não se ler . E aí está a nossa responsabilidade, entusiasmando os novos a ler, para discutirem connosco ou entre si o que acabaram de ler.
Os milhares de  livros que foram, são e serão escritos sobre política, por exemplo, ajudam-nos a concretizar ideias, a estar de acordo ou em desacordo com essas ideias, a participar na vida em geral.

Permitam-me que recorra, nesta apologia da leitura, a umas linhas de António Sérgio:
“O que faz de um qualquer número de pérolas um colar é o fio invisível e interior que as une – que as liga a todas numa certa ordem, segundo uma determinada configuração”.
Este é um dos segredos da escrita e da leitura: avaliar o que se pretende transmitir e descobrir o que nos está a ser relatado.

E se estamos a falar do Dia Mundial do Livro julgo importante falar de nós. E não me levem a mal se acabo o texto de hoje com um pequeníssimo poema de António Gedeão:

HOMEM

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

Já agora…  Leiam, leiam livros.

Um pensamento sobre “Ler Livros

  1. Curiosamente, este Blog, já se tornou num hábito de leitura, para a qual, reservo sempre com prazer, um espaço de tempo para o ler e reflectir. Não sei bem, se ler é um vício ou se é uma necessidade…! Quero inclinar-me mais para esta última. Talvez, porque um livro, é um companheiro amigo. E não tenho dúvida, de que a vida se torna mais vazia, sem amizades. E quantos de nós, não passámos por momentos de solidão, e sentir a falta de algo que nos ajudasse a preencher aquela passagem de tempo sem pressas, aquele vazio que não arredava pé e nos entristecia a alma ? E não é só no mato, lá em África. Quantas vezes o sentimos na própria cidade, ou à beira mar, cheia de gente, sem conhecer ninguém ? Tanta vez, que senti a necessidade de ter um livro que me fizesse companhia, e me levasse os pensamentos para outros sítios bem distantes daquele onde estava. Era como ter um amigo ao pé, fosse ele de infância ou da escola, ou de qualquer outra circunstância, e discutirmos sobre a vida do mundo. Até de nos rirmos, pela fantasia de querermos endireitar o mundo, sem nada podermos fazer…! Não é por acaso, que frequentemente usamos a expressão : Um velho amigo…! E pode muito bem, tratar-se apenas de um livro…!

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