HORROR II

A tragédia de Londres está a ser investigada para, ultrapassado o drama imediato, poderem ser tiradas conclusões e apuramento de responsabilidades. Isto não foi o que de melhor podia ter acontecido à Senhora May, depois das complicações eleitorais em que se envolveu. Não deixou, apesar disso, de enviar a sua equipa política a Bruxelas para iniciar as esperadas conversações sobre o Brexit. Fê-lo de forma tímida e redundante, deixando para um futuro, que nem ela sabe bem qual é, o progresso calendarizado de todas as questões elencadas.

Mas não é isto que hoje me preocupa. O horror a que me refiro é bem pior,é o que continua a martirizar-nos no centro do país, em Pedrógão, nos concelhos vizinhos e, agora, com grande intensidade em Góis. As condições atmosféricas ultrapassam tudo o que a ciência pode prever em termos de coeficientes de simultaneidade. Claro que tudo aquilo pode acontecer mas, tudo junto, nem as estatísticas mais pessimistas se arriscariam a sugerir.

Por isso o número de mortos tem aumentado, as vidas estilhaçadas ou destruídas continuam a embargar-nos a voz, a tragédia vem pairando por sobre as nuvens negras de fumo que nada deixam ver e que prenunciam mais incidentes. E é no meio desse inferno dantesco que temos visto mulheres e homens de todas as condições e especialidades a lutarem e a tentarem pôr ordem onde só pode existir desordem. Os meios técnicos e humanos têm vindo a aumentar, os países europeus nossos vizinhos continuam a facultar apoios, a manifestar solidariedade, porque sabem do que falam e o que se está a passar. É assim, atendendo às pessoas, antes de tudo, que se demonstra a coragem e a valentia de um povo.

Claro que, como todos suspeitámos, já começaram a aparecer inteligências de gabinete a balbuciar, a medo, umas críticas aos processos adoptados. Alguns tentando, honestamente, explicar a razão das coisas mas propondo, antes de tudo, a salvaguarda do que é mais sagrado: vidas e bens. Outros, sibilinamente, insinuando falhas ou desacertos. Alguns, da política, com medo do efeito “boomerang “, “tweetando” entrelinhas de que possam , a curto prazo, escapar-se com fidalguia. De uma forma geral, gente de gabinete, de monografias curriculares, de cansativos relatórios de mestrados em que misturam, sabiamente, o óbvio com o utópico.

Nunca ninguém os poderá acusar de não terem prognosticado qualquer coisa,  mas nunca ninguém os poderá destacar por decisões no terreno, dramáticas, envolvendo a responsabilidade de vidas, optar entre o mau e o menos mau. E este é o momento dessas decisões , de acorrer e salvar tudo o que for possível, utilizando todos os meios competentes de que se dispõe, de forma humana, organizado e tranquila.

Passado o HORROR, porque ele há-de passar, essa é a gente que guardaremos na memória.

Após tudo isso,  será a altura apropriada para se estudar, discutir, regulamentar tudo o que deva ser estabelecido para circunstâncias como estas. Ajudem, todos, a ultrapassar esta tragédia nacional para que, se possível, se torne irrepetível.

Um pensamento sobre “HORROR II

  1. Se esta crónica tivesse que ser submetida a valores, eu, na minha mais insignificante forma de pensar, obrigar-me-is a dar um 20. Um vinte, bem redondo, com marcador indelével.! De facto, a destruição deste país, no que toca à vida florestal do interior, tem vindo a ser esquecida cada dez meses por ano. Os outros dois meses, esses, são a prova vivida, do que se faz de bom e mau pelo país, e do que se fez nos gabinetes durante o ano inteiro. E o bom, quase que em exclusividade, diz respeito às corporações de bombeiros. E aqui, mais uma vez, estes esforçados homens e mulheres, mostram aquilo de que são capazes. E, nunca é demais evidenciar a coragem, a abnegação e a humildade com que actuam, contra uma monstruosidade de acontecimentos, de que sobram sempre dúvidas sobre os culpados e das estratégias aplicadas no combate aos incêndios. E sobre isto, muito se tem escrito e falado sobre a sua prevenção. São já muitas as histórias, que se repetem até à saturação. E as pessoas, não ligadas à vida rural, esquecem-se que neste caso, a Natureza renasce sempre das cinzas, com mais vigor, depois de um Inverno passado. As ervas e o mato rasteiro, crescem desmedidamente. As árvores mais resistentes, que se salvaram daquele infortúnio, voltam a rebentar, dando lugar a novas matas. E ciclicamente, os perigos voltam a aparecer, à espera de uma nova mão criminosa, ainda que não seja a mesma…! Eu desconhecia, como todos nós, que 93% da propriedade rural está na mão dos privados. Não sou nada contra ! Do que sou contra, é do abandono ! Mas também, temos que pensar sobre os porquês, da maior parte desse abandono ? Também é sabido, que uma floresta, plantada com a intenção de obter lucros, nos negócios da madeira, nem sempre é compatível com a despesa da sua limpeza intensiva, durante várias décadas de crescimento. É um investimento de muito longo prazo, difícil de contabilizar. É costume dizer-se, até, que se investe para os filhos ou ainda para os netos…! O mais curioso disto tudo, é que a produção florestal, ( Ton./ Ano / Hectar ) nunca poderá ser altamente rentável, exceptuando o eucalipto. E daí, a renitência de florestar as terras com outras espécies, incluindo o pinheiro, desde que se deixou de resinar este tipo de árvores. Não sou conhecedor da matéria, e muito menos perito, mas as contas são muito fáceis de fazer. A orografia da maior parte do país, também não é adaptável ao uso de máquinas, dispensando uma mão de obra, cada vez mais influente nos custos de produção. Já houve projectos de intervenção estatal para o emparcelamento das pequenas propriedades, obviando um melhor rendimento produtivo, com menor custo de trabalho. O que resultou, foi um fracasso, ao ponto de nunca mais se falar sobre o assunto. Um problema nacional, que permanece e um outro que nasceu com o progresso dos povos, sem fim à vista…! Talvez, os aceiros tenham que ter maiores dimensões. E sobre isto, apenas deixo duas perguntas. E os terrenos dos aceiros, pertencem a quem ? E que rendimentos tiram os proprietários mais afectados com esses aceiros não cultivados ? E ainda farei outra pergunta com origem na minha ignorância: É Portugal, adaptável, a uma florestação extencível com o clima que tem, como tem vindo a fazer-se ?

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