O Último Soldado de Morotai

Ignorando que a segunda guerra mundial tinha terminado, Tekuo Nakamura, combatente japonês, viveu refugiado nos confins da selva, numa ilha perdida das Molucas. Só de lá saiu em 1974.

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A curiosidade desta história é que este soldado japonês não era japonês! Era de Taiwan, pertencendo, em princípio à etnia dos Amis. O que não seria motivo de grande orgulho para a oficialidade japonesa. Quando Nakamura Teruo nasceu em 1923, na Formosa (como se chamava antes de ser Taiwan), a terra estava ocupada pelo império do sol nascente, depois da sua vitória na guerra contra os chineses, em 1895. Foi incorporado no exército nipónico e enviado para as florestas da Indonésia, consolidar a guerra do Pacífico. Soldado que não era japonês nem nunca pisou solo japonês.
A ilha onde foi encontrado chama-se Morotai, ao norte do arquipélago das Molucas, no extremo setentrional da Indonésia. Não é um território especialmente diferente de todas as outras ilhas da região: praias brancas como sal, água transparente e verde e muitos coqueiros. Foi numa dessas praias que o general MacArthur desembarcou a 15 de setembro de 1944.
Em Duraba, capital da pequena ilha, vive ainda um homem, Mulhis Eso, que conheceu bastante bem o soldado Nakamura. Ele próprio iniciou um pequeno museu em honra do soldado, com materiais que restaram da época em que a guerra teve lugar. E conduziu o entrevistador até ao monumento que foi erguido em honra de Nakamura. Uma figura de bronze, com alguns metros de altura, implantado num enorme pedestal. Representa um soldado com farda japonesa, típico do exército imperial,com um sabre à cintura e um saco de mantimentos às costas.

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As informações quanto ao seu comportamento são imprecisas. Tudo se perde num mundo de conjeturas, relativamente às motivações reais deste soldado. Tinha 22 anos quando Tóquio capitulou depois das explosões nucleares de Hiroshima e Nagazaki. Terá sido incorporado como voluntário na unidade “Tagazako” da Formosa ou terá sido recrutado pelo ocupante nipónico? Não se sabe ao certo. Abdul Ducca, um nativo com mais de 60 anos que conviveu com o soldado não se lembra exatamente das datas.
Nakamura foi encontrado por ele quando andava à caça e o soldado avançou para ele com o sabre em riste, como se estivesse em guerra. Tinha construido uma tenda e dispunha de uma espingarda, do sabre, duma faca, de um capacete, de uma caçarola e de um espelho de bolso. Cultivava vegetais, caçava esporadicamente e alimentava-se do que apanhava.
Ducca diz que Nakamura não estava sozinho. Havia um outro soldado , Morita, que terá desaparecido ou morrido. Nakamura saía da selva onde sempre viveu e encontrava-se periodicamente com uma rapariga nativa que se chamava Nifa, da aldeia de Sambiki. Era dela que recebia outros alimentos como arroz, café e açúcar. Ducca acha que Nakamura sabia que a Indonésia se tinha tornado independente e que os soldados japoneses tinham partido. Mas tinha medo dos aviões que sobrevoavam a ilha, tipo Hercules, da Indonésia, mas que ele dizia serem americanos.
Há também a possibilidade de Nakamura que, por ter desaparecido, foi dado como morto em 1944 pelos japoneses, poderia vir a ser considerado como desertor.
A amiga e outros nativos da ilha acabaram por dar a conhecer a existência de Nakamura. A embaixada do Japão em Djakarta foi prevenida, tendo solicitado aos indonésios que convencessem o soldado a promover o seu próprio resgate. Os soldados indonésios prepararam-se muito bem para a operação levando fotos e aprendendo o hino japonês.
Nakamura foi levado para Djakarta, foi tratado e repatriado para Taiwan. Deu mais tarde uma conferência de imprensa em que declarou : “Não perder a vida constituiu, com o tempo, a minha única razão de viver. Sempre julguei que os aviões que sobrevoavam a ilha eram americanos, mas isso foi erro meu.Isso custou-me 30 anos de vida”.
Quando Nakamura regressa a Taipé a sua mulher já tinha casado outra vez e apresenta-lhe o seu filho, nascido depois da sua partida. O segundo marido aceitou deixar a mulher e os dois recompuseram a sua ligação inicial. Quando do seu regresso, Nakamura mudou de nome para Lee Guang-hui mas o seu nome aborígene parece ter sido Attun Palalin.
O herói desta história morreu em 1979. Talvez se possa dizer que o soldado Nakamura morreu duas vezes.

Um pensamento sobre “O Último Soldado de Morotai

  1. Uma história curiosa, esta, a do soldado Nakamura. Recordo-me de notícias semelhantes, de outros soldados desiludidos com o final de uma guerra, que sempre esperavam vir a ganhar. Nakamura, talvez tivesse sido um desses guerreiros, cujo fanatismo o fez recusar a derrota, preferindo abandonar-se nas matas da Indonésia, como neste caso, ou de outros na Birmânia e Nova Guiné. Curioso, também, como estas pequenas histórias nos fazem pensar, como o ser humano se transforma sob o efeito psicológico da propaganda de uma ideologia política. Recordo também, o filme inglês, baseado na Guerra com o Japão, ” Bestas que foram Homens “, que punha em evidência a transformação das mentalidades, estimuladas pelo ódio…! Assunto, sempre muito actual…!

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