Vergonha Olímpica

Vem hoje publicada, com todo o relevo, na maior parte dos periódicos nacionais e estrangeiros, a notícia da prisão e acusação de diversos responsáveis pelo encaminhamento da realização dos Jogos Olímpicos 2016 para o Rio de Janeiro. Começa pelo próprio Presidente do Comité Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman, e outros sócios da empresa Facility, como Eliane Cavalcante, Artur Soares Filho (conhecido pelo Rei Artur, da corrupção, claro), Sérgio Cabral, ex-governador do estado do Rio, e algumas outras personalidades. As investigações, que duram há 9 meses, foram realizadas pela Polícia Federal Brasileira e pela Interpol.
Tudo tem a ver com a malha terrível de corrupção que foi imaginada e criada por Nuzman para pagar votos e favores a muitos dos que, no seio dos Comités Olímpicos Brasileiro e Internacional, se deixaram corromper para que as votações fossem favoráveis ao Rio de Janeiro 2016. As investigações tiveram a cooperação jurídica do Brasil, França, Reino Unido, Estados Unidos e Antigua e Barbuda. Um dos envolvidos é o ex-Presidente da Federação Internacional de Atletismo, o senegalês Lamine Diack que terá recebido 2 milhões de dólares para votar no Rio, dois dias antes dessa votação, numa altura em que o Qatar também estava envolvido na mesma candidatura. Tudo isto se terá passado na Assembleia Geral do Comité Olímpico Internacional, de 2009, em Copenhague. As operações que conduziram à designação de Toquio 2020 também estão a ser investigadas.

Não é a primeira vez que escândalos deste tipo abalam o Comité Olímpico Internacional. Desde a operação de corrupção detetada para os Jogos Olímpicos de Inverno de 1999 que a Instituição afirma ter tomado medidas preventivas. Mas o mundo do olimpismo é cada vez mais complexo, mais gigantesco, mais sedutor para negócios e política. E sabemos que estes dois interesses dificilmente se casam. Ainda por cima numa Instituição como o Comité Olímpico que defende a pureza dos Jogos, a lealdade dos comportamentos, a ética de todos os intervenientes. Este tipo de escândalos, em qualquer grande empresa internacional levaria a consequências desastrosas. No Rio 2016 já tinham sido presos pela Polícia Federal outros importantes responsáveis olímpicos, por delitos negociais de outro tipo. Que tem feito o COI para sanar estas inaceitáveis situações? Tem deixado que as polícias internacionais intervenham, atuem e punam. Mas no seio do COI criam-se comissões sobre comissões para prevenir procedimentos, para exaltar a ética, aumentando, dessa forma, a população jurídica e administrativa no seu próprio seio. Alguns são, claro, discretamente afastados e são substituídos por outros, geralmente oriundos dos mesmos países, dos quais se espera comportamentos diferentes.
Conheci pessoalmente Carlos Nuzman em diversos eventos do Comité. Apercebi-me, como muitos outros se aperceberam, da sua agilidade de conversa com quem lhe interessava, das suas ostensivas intimidades e da arrogância, quase desprezo, com que cumprimentava os que não lhe eram afetos. Ninguém se terá admirado muito, no rescaldo desta desgraça, desta Vergonha Olímpica, que o seu nome seja o delta e o ómega de todas as operações. Começou, há largos anos, como presidente da Federação de Voleibol do Brasil, onde realizou um bom trabalho. A partir daí, explorando os contactos sociais e políticos, num jogo em que é muito hábil, foi subindo na escala desportiva internacional, até vice-presidente do COI. Era, naturalmente, a figura indicada para dirigir a organização dos Jogos no Rio, depois de ter conseguido canalizar os votos necessários (comprando-os, como agora fica provado) para a escolha da sua cidade.
Numa reportagem especial do Guardian apresenta-se uma cronologia do escândalo:
Novembro 1999 – Lamine Diack substitue Primo Nebiolo como Presidente da Associação de Federações Internacionais de Atletismo. Nessa data torna-se membro do Comité Olímpico Internacional.
Novembro 2009 – O Rio de Janeiro ganha a votação para a realização dos Jogos de 2016, batendo Madrid, Chicago, Illinois e Toquio.
Dezembro 2014 – Um documentário alemão acusa a Rússia de criar fundos gigantescos de apoio à dopagem. Estas operações eram pagas pelos russos através da conta Black Tidings, sediada em Singapura, controlada pelo assessor de marketing Papa Massata Diack, pelo Presidente da Federação russa, Valentin Balakhnichev e pelo chefe da comissão anti-dopagem da Rússia, dr. Gabriel Dollé. Todos estes foram demitidos “for life”.
Dezembro 2014 – O jornal Guardian revela que Massata Diack terá solicitado um pagamento de 5 milhões de dólares, num período em que o Qatar estava a concorrer à organização dos campeonatos do mundo de atletismo.
Agosto 2015 – Sebastian Coe sucede a Lamine Diack como lider da Federação Internacional de Atletismo.
Novembro 2015 – Lamine Diack fica sob investigações, acusado de receber 1 milhão de Euros para encobrir os testes de dopagem. Diack demitiu-se de membro honorário do COI.
Janeiro 2016 – Massata Diack foi envolvido num esquema de “entregas” a seis membros influentes do COI. A Interpol envia um mandato de prisão para Massata Diack mas o Senegal recusa deportá-lo.
Março 2016 – Os acusadores franceses alargam as suas provas de corrupção para os concursos de 2016 e 2020.
Maio 2016 – Um pagamento de uma quantia com 7 algarismos, feito pela equipa de Toquio 2020, para a conta Black Tidings, cai na alçada da investigação do Ministério Público Francês.
Maio 2017 – O jornal Le Monde apresenta provas de corrupção, para os Jogos Rio 2016, por parte do membro do COI e antigo atleta Frankie Fredericks. Teria havido um pagamento a partir da Black Tidings que Frankie negou.
Setembro 2017 – Nuzman é acusado de pagamentos a Diack, pelo seu voto de 2009, facto que até agora negou, a despeito das provas existentes.

Quem são as 5 figuras-chave desta crise do COI? O próprio Presidente Thomas Bach que tem prometido prevenção de comportamentos, pelos vistos sem êxito. Sérgio Cabral, ex-governador do Rio, já sentenciado com 14 anos de prisão por lavagem de dinheiro. Frankie Fredericks, como já atrás se descreveu. Papa Massata Diack, também como já descrito e Carlos Nuzman, como grande mentor e organizador do esquema que possibilitou a votação dos Jogos no Rio. No cruzamento de todos estas figuras sempre surge o nome do Rei Artur, retirado algures nos Estados Unidos.

Diz a jornalista Marina Hyde que “As revelações do Rio não são surpresa – excepto para o COI”. E acrescenta: “A cegueira selectiva é, de muitas formas, uma posição habitual do COI”.
Quando a chama olímpica foi acendida durante a sua viagem ao Rio no ano passado, Thomas Bach, Presidente do COI, anunciou: “A Chama Olímpica significa esperança para todos nós”.
As suas esperanças parece, no entanto, não se terem concretizado. Os habitantes das favelas continuam a pedir água e saneamento, em vez do teleférico de aprox. 25 milhões de Euros que lhes construiram por cima, para regalo dos visitantes.
Um ano depois dos Jogos os cofres da cidade rebentaram e o Rio está em real estado de falência, com funcionários públicos, pessoal hospitalar e professores sem serem pagos.
Os indícios de corrupção nos Jogos do Rio sempre existiram. Mas a prioridade do Sr. Bach era outra: fechar um acordo com Paris e Los Angeles para organizarem os Jogos de 2024 e 2028 e, dessa forma, poder respirar e pensar durante uns tempos.
Tempos que não são fáceis, na medida em que para estes eventos manipulados por parasitas, cada vez é preciso encontrar gente mais estúpida, corrupta ou autocracias ambiciosas que pensem em organizar os Jogos.

Os milhões que desaparecem na voragem desta corrupção imoral, indecente e criminosa é um perigo fatal para o Movimento Olímpico. O seu gigantismo atrai os maiores interesses comerciais e políticos. E há sempre o perigo dos intraváveis fenómenos de capilaridade, desde o Comité Internacional até aos Nacionais.
E já há um movimento com origem francesa que propõe a criação de um organismo de e-sport. Jogos informáticos que no último fim de semana, em Paris, com a realização da “League of Legends”, movimentaram milhões de euros. Segundo as estatísticas, esta modalidade já teve lucros, em 2016, da ordem dos 750 milhões de Euros. E a organização acha que uma ligação aos Jogos Olímpicos (já falaram em Toquio 2020) poderia ser muito útil para o futuro desportivo das próximas gerações. Será? Thomas Bach diz que vai apreciar o problema. Mais montanhas de dinheiro para controlar e distribuir. Mas distribuir bem?…

Falta-nos falar dos atletas. Que podem eles dizer no meio de tudo isto? Não nos esqueçamos que quem faz os Jogos são os atletas. São eles que dedicam as suas vidas, desportivamente sempre curtas, à ambição de serem olímpicos. Alguns pensam em medalhas (11%) mas os outros pensam em estar lá, em competir, sacrificando as suas vidas pessoais e profissionais. Os apoios são sempre escassos, em qualquer país do mundo. Mas se os milhões que se escoam pelo esgoto da imoralidade fossem salvos e reencaminhados para onde deviam, talvez os atletas fossem mais felizes nos seus desempenhos. Mas é preciso que sejam sérios, ignorem os desvirtuamentos da dopagem e dos resultados acordados (para favorecer apostadores ilegais) e se façam ouvir.
Desde há anos que o COI diz querer combater o gigantismo dos Jogos. Estou de acordo, mas será isso que se vai passar?
Acho que o importante nos Jogos são os atletas e a honrosa competição. A corrupção dissimulada ou tolerada não pode fazer parte do ideário do Barão Pierre de Coubertin.
Acabe-se com esta Vergonha Olímpica!

4 pensamentos sobre “Vergonha Olímpica

  1. Quando as organizações começam a movimentar rios de dinheiro, é muito difícil manter afastados corruptores e corrompíveis. Mas não podemos baixar os braços. A denúncia das vergonhas é muito importante. E estou de acordo que o gigantismo dos JO deveria ser reduzido

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  2. No melhor pano, cai a nódoa…! Simplesmente, vergonhoso !!! Começo a sentir-me arrasado por este acervo de acontecimentos, onde a dignidade de certos responsáveis, se desmorona como castelos de areia. Curiosamente, muitos Fake News, quais cortinas de fumo, aparecem propositadamente, para confundir as pessoas, e tentarem escapar-se de uma justiça, que tem o condão de se apresentar demasiado lenta. Por cá…! Bem, por cá…, não obstante haver muito ruído sobre notícias similares, aventuro-me a parafrasear um pouco a afirmação de um político já reformado, que me deixa a ideia de já andarmos, democraticamente, a perder o pio…!

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