CENTÉSIMO PREMIADO

 

Eis o centésimo texto deste meu blogue, criado a 15 de Março de 2017.  Tem sido uma atividade arrebatadora, muito envolvente e exigente,  que me tem dado momentos de grande prazer. Francamente não esperava que esta aventura fosse tão duradoura,  mas verifiquei, com surpresa e gratidão, que muitos dos meus amigos passaram a fazer o favor de consultarem os textos e a  pronunciarem-se, muitos deles com comentários muito pertinentes. Alguns incluidos no próprio blogue, outros com pequenas mensagens telefónicas ou enviadas por correio. As estatísticas do  wordpress em que o blogue se integra dizem-me que contei com cerca de 1500 visitantes   que visualizaram os textos cerca de 5400 vezes.  Bom, para quem não sabia muito bem quanto tempo aguentava, não se pode dizer que foi mau. Tudo devido à bondade dos meus amigos e conhecidos (alguns inesperados) a quem fico devedor de uma simpatia eterna. E o que eu próprio aprendi!…  Esmiuçar os temas, aprofundá-los, transmiti-los de forma simples e despretensiosa,  tudo isso me deu mais lastro de vida e me ajudou a confirmar  o princípio tão icónico de que “Velhos São os Trapos”. Claro que tive ajudas fantásticas, oriundas do agregado familiar, que me estimularam e me resolveram problemas informáticos para os quais as minhas capacidades eram, evidentemente, insuficientes. Para além de apoios seniores,  cativei uma assessoria junior  que mantenho, agora, em exclusividade. Tudo fantástico, portanto! E daí a razão de eu chamar a este texto o CENTÉSIMO PREMIADO. Premiado pelos leitores e pelas ajudas.  Vou escrever sobre o tema de hoje e voltarei, no final,  a outro conjunto de considerações não menos importantes.

 

Achei interessante lembrar alguns dos factos mais  relevantes que ocorreram no país ou no mundo, durante o período em que foram elaborados os cem textos do blogue. Diria que há muito por onde escolher mas resolvi selecionar aqueles que mais me tocaram, independentemente de critérios de qualquer natureza. Esta escolha não seria, decerto, a escolha de muitos dos que me lêem, mas é nessa diversidade que  nos enriquecemos . Os espaços de liberdade são assim.

1 – Não pude deixar de relembrar a nossa terrível catástrofe dos incêndios. Não me vou alongar. Apenas apelo à vossa atenção para que releiam o poema que publiquei no post de 24/6/17, por casualidade o 50º do blogue, com o título CONHECER OS PORTUGUESES. Acho que, passados estes meses e uma segunda desgraça a seguir à primeira, a atualidade do que ali foi dito se mantém. E ainda bem. Mais do que as desgraças que nos assolam ficou mais uma vez provada a enorme força de alma dos portugueses. Mesmo que, às vezes, o não saibam ou não queiram transmitir.  A vida vai continuar.

2 – Um assunto que não podia esquecer é o do AMBIENTE. Está tudo dito e redito pelas maiores instituições e celebridades mundiais. Nós próprios temos este ano, para nossa infelicidade, vivido e assistido a fenómenos excecionais de modificações climatéricas. As temperaturas ambientais têm sido elevadas e prolongadas, a chuva tem rareado, as equimoses ambientais são já verificáveis, no nosso país e em muitos da zona sul europeia. Os avisos e algoritmos ambientais que têm vindo a ser divulgados desde há anos, aí estão com as consequências anunciadas. O célebre  Acordo de Paris, em que todos os países do mundo (até a Síria) se juntam para combaterem, progressivamente, os danos ambientais, foi retomado e acelerado, pelo menos nas intenções. Todos os países não. Ficaram de fora os Estados Unidos por razões que se prendem com a indiferença e ignorância reinantes naquele sub-continente. Hão-de mudar mas será sempre tarde. Estudos científicos  apontam para que, dentro de poucas décadas, Miami, Xangai, Rio de Janeiro e o Delta do Nilo serão alagados.  Por outro lado, em termos do ar ambiente, Nova Delhi já registou um nível de poluição onze vezes superior ao nível máximo de segurança (equivalente a fumarmos 50 cigarros por dia). O mesmo se passa em Pequim. Os oceanos estão invadidos por toneladas de matérias plásticas cuja eliminação levará milhares de anos. As zonas mais pobres, dos continentes mais pobres, são os cemitérios finais para todos os produtos das mais avançadas tecnologias mundiais (telemóveis, computadores e quejandos). Aos milhões,  e os povos que por lá habitam, principalmente em África, vão deixar de viver a curto prazo.  As desflorestações continuam, os tufões aumentam de intensidade, as espécies vivas têm vindo a reduzir-se, os glaciares desfazem-se mas o louro Trump não acredita em nada disso. Claro que para ele (e para muitos outros) é mais importante o dinheiro que todas as tribos ganham com a depradação mundial do que a salvação do planeta em que eles deixarão de viver dentro de alguns anos e que, por essa razão, os outros que resolvam.  Mas como diz, ardilosamente, a jornalista Natalie Nougayrède: “Estamos com sorte. A Casa Branca não se interessa mesmo por nós. E na ausência do compromisso de Trump, é altura dos “leaders” europeus redefinirem as suas relações”.  O Ambiente é crucial para todos nós.

3 – O Brexit continua na sua senda de paranoia. Os britânicos todos os dias escrevem nos jornais o seu desapontamento quanto à forma como tudo se está a passar. O interlocutor britânico em Bruxelas arrasta-se, penosamente, com “argumentos de maionese” que são, imagine-se, desacreditados por membros do seu próprio partido. O interlocutor europeu lá o vai arrasando e dizendo que sem acordo prévio é difícil ter conversas. A oposição a Theresa May lá a  vai zurzindo sem piedade e os britânicos já não têm vergonha de dizer, nas entrevistas de rua, que se sentem enganados.  May riposta marcando dia e hora para a celebração do acordo com a UE. A oposição e os europeus gargalham. Os políticos recordam a May os 499 km de fronteira irregularíssima que passarão a existir entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda (esta na UE) e os 1200 metros de fronteira entre Gibraltar e Espanha. A constelação de dificuldades e compromissos que é preciso ultrapassar para que o tal Brexit seja uma realidade consumada não foi, está provado, devidamente analisada antes da grande decisão.  A coisa não se resolve com rapidez e facilidade.  Referindo-nos à obra agora tão em voga Alias Grace, quase que apetece dizer Alias Brexit.

4 – “Trump e a diplomacia do caos”  é hoje uma realidade dolorosa para todo o mundo. Correspondentes europeus nos Estados Unidos  escrevem que “Trump é isolacionista, nacionalista, às vezes realista e impulsivo. Este Presidente já baralhou, ao fim de um ano de eleição, a ordem mundial.  Enquanto a sua equipa é minada por dissensões e incoerências, os seus tweets intempestivos acentuam os efeitos da sua imprevisibilidade. Dizendo-se pragmático lançou a sua famosa frase “America First!” o que não lhe retira, no entanto, uma forte tendência ideológica.  E em resposta a questões suscitadas ele próprio diz: “Os meus tweets são bem cinzelados, sempre fui um bom aluno. Saio-me bem neste tipo de coisas”.  E é com esta maneira de estar que os americanos e o mundo o vão suportando. Mas foram eles, os americanos, que lá o puseram.  Os lideres internacionais vão-se galhardamente reunindo com ele, sempre com aparente respeito mas com “um brilhozinho nos olhos”. Outros não reunem,  falam nos corredores, o que para ele é suficiente para fazer bombásticas declarações. Espera-se que esta presidência não seja longa mas esperemos também que, entretanto, o caos não aconteça.

5 – Os refugiados e as migrações continuam a ser marca de água do mundo de hoje. Os povos não estão felizes e por isso fogem. Fogem para sítios  mais seguros, onde possam ser acolhidos e onde possam viver. Muitos morrem pelo caminho, mas essa é a opção por eles escolhida e antecipadamente conhecida. E há os traficantes que vivem e alimentam essa desgraça. A Europa tem sido particularmente afetada por todo esta deslocação em massa. A solidariedade tem-se manifestado, apesar de tudo, mas nada será suficiente para, na próxima geração, dar vida condigna a quem foge ao surrealismo ou exorcismo da morte certa. A nossa habituação ao normal impede-nos de perceber o horror deste mundo, um mundo em mudança ao qual as próximas gerações terão que encontrar resposta. Há muito sofrimento perto de nós  e, pelo menos, convém que não nos esqueçamos dessa horrorosa realidade.

6 – O desenvolvimento tecnológico é assombroso e envolve-nos quotidianamente numa multidão de eventos das nossas vidas. A investigação e as novas descobertas têm vindo a conquistar o mundo. Mas é bom que essa conquista se compatibilize com os bens da vida, com a harmonia dos sentimentos. Para descobrir novas curas para as doenças terríveis que ainda persistem, ajudar o homem a desempenhar dificílimas missões que cada vez se tornam mais necessárias para o aumento do ritmo da vida, para que este aumento chegue também aos sítios mais remotos das necessidades do mundo. Os robots são já uma realidade e daí decorrerá a não necessidade de tanta participação humana. É inevitável e isso significa desemprego nas atividades mais convencionais e tradicionais. Mas é aí que a tecnologia também tem que apoiar. A educação tem que ser incrementada, usando as ferramentas dos novos tempos. Ao desemprego atual tem que se seguir, sem hesitação, a solidariedade no apoio a novos núcleos empresariais.  Tem-no dito o nobel da paz, Muhammad Yunus, criador da técnica do micro-crédito. Seja por que método for é fundamental atacar o desemprego. É utópico, eu sei, mas é um princípio fundamental para a vida em paz. As novas tecnologias,  apoiando todos os ramos da ciência,  já começaram a falar na vida muito longa ou quase eterna. Talvez isso venha a ser real daqui a muito tempo mas para mim, no tempo em que vivemos, apreciaria apenas ter vida enquanto essa vida tiver qualidade. Distancio-me, neste tema, das vertentes religiosas mas aproximo-me da boa qualidade das emoções humanas, dos seus sentimentos, da sua solidariedade. Acredito na tecnologia como instrumento ou ferramenta, discuto-a como objetivo final.

7 – E por fim e por hoje, não podia deixar de abordar os “papers”! Os do Panamá e os do Paraíso. Vive-se realmente muito bem! Só me apetece tratar deste assunto com humor. As toneladas, os contentores de dinheiro que andam por esse mundo fora é algo de extraordinário. Nas listas publicadas aparecem nomes desconhecidos e muitos nomes conhecidos. Tudo legal, segundo se diz. Pagaram os impostos todos, aqueles que as leis descobrem e a que os obrigam. Os outros, não. A União Europeia, preocupadíssima, desatou a querer legislar para tornar tudo decente e equitativo. Não refere, claro, os casos de Luxemburgo, Holanda, Irlanda, enfim, aqueles que pertencem à nossa família. Mas podemos ficar descansados, está tudo a ser controlado. Até a Rainha de Inglaterra parece que tem por aí umas coisas…  Nada que nos deva preocupar… Aos nomes que até agora já apareceram em Portugal nada aconteceu, que se saiba, claro. Já me perguntaram que faria eu se tivesse aqueles contentores de dinheiro que eles têm… Bom, hesitei, gaguejei e disse… se calhar fazia o mesmo!… Porque está tudo bem, parece… Realmente só com humor se pode abordar este tema  “na paz do Senhor”. Mas não seria mau que o mundo se organizasse melhor e alguns daqueles impostozinhos derrapantes pudessem auxiliar a rapaziada menos apetrechada. Até porque aquilo não é fácil. Para pôr lá aquelas massas todas é preciso conhecer muita gente importante e influente. E aí é que está o busilis!

Encerro estes pontos com uma pequena estrofe de Almada Negreiros:

A sociedade está podre/ Já fede
E não lhe cheira.
O mal só se vê nos outros
Só cheira nos outros:
Quando o mal é nosso/ Pegaram-nos
É um mal estranho.

 

NOTA FINAL DO CENTÉSIMO POST:

Aqui chegado,  entendi por bem fazer uma pequena reflexão. Os textos publicados ao longo destes meses têm, naturalmente, uma vida efémera. Duram o tempo de uma leitura, para quem os leia, e são esquecidos para sempre ou quase sempre. Eu próprio tenho, por vezes, que relembrar textos que escrevi há uns tempos e cujo tempero já não me ocorre. É assim mesmo. Para todos os bloguistas, não só para este. Resolvi, por isso, produzir uma coletânea completa dos cem posts publicados e fazer chegar esse pequeno “pacote” aos amigos que pressinto poderem apreciar esses momentos de leitura. Assim tentarei fazer antes do Natal. Como se fosse uma lembrança,  porque para prenda é pouco.

Refleti também sobre a minha capacidade de continuar esta aventura com o mesmo “élan” que consegui nestes primeiros meses. Concluí que não é fácil. Como terão notado o blogue não é dedicado a um único tema (política, história, religião, técnica e muitos outros). Pelo contrário, foi meu objetivo mantê-lo diversificado nos temas abordados, sem obrigações, sem ritmos, sem dependências. Imaginei-o como um espaço de liberdade individual e espero ter conseguido. Daqui resultou a ideia de convidar alguns amigos (três) a integrarem este blogue. As suas experiências de vida, os seus variados conhecimentos, a sua sabedoria por mim reconhecida e, sobretudo, a amizade que nos une dão-me a garantia de que as suas participações trarão uma enorme mais valia de conteudos. Convidei-os e aceitaram sem condições. Uma enorme generosidade que se irá, decerto, refletir nos textos que passarão também a aparecer neste blogue. Saberemos mantê-lo como ESPAÇO DE LIBERDADE no qual cada um dirá o que quiser, quando quiser,  de forma a recolhermos, em conjunto, os comentários dos nossos leitores. Favoráveis ou não. O espaço de liberdade também vai nesse sentido.

Não vos anuncio hoje a constituição da nova equipa. Ela será devidamente apresentada com a elaboração do 101º texto deste blogue. E assim espero chegar rapidamente ao texto número 200. E aí veremos o que fazer. Contamos, até lá, continuar a provar que “VELHOS SÃO OS TRAPOS”.

Até já!

 

 

 

4 pensamentos sobre “CENTÉSIMO PREMIADO

  1. Li e reli, todo este historial de opiniões e reflexões, e fico pasmado, como tanta coisa se passou em tão pouco tempo. Será que a nossa existência acelerou nos últimos tempos, ou deixei-me adormecer e acordei agora, perante tanto acontecimento. Talvez, aquele malvado alemão ( aquele, que não queremos vestir a pele, nem mesmo obrigado ), me esteja a lançar farpas à memória. O que vale, é que tenho uma memória couraçada em aço, do tempo de antes da guerra…! Vamos continuar a ler este blog, ainda com muitas mais coisas para contar. E, tenham um pouco de paciência, com o meu vício de falar por escrito…!

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