VIDAS SEM MORTE

 

Há épocas das nossas vidas em que vemos desaparecer pessoas ou figuras que nos deixam uma enorme e eterna saudade. E também, por coincidência, muitas vezes com desaparecimentos muito próximos no tempo. Resta-nos fazer-lhes uma vénia e lembrá-los sempre que possível. Uns pertencem ao nosso círculo de amigos, outros à humanidade, local ou mundial, que com eles conviveu. Sem procurar polémicas, respeitando apenas as suas vidas invulgares, dedicando-lhes a nossa estima.

Nestes três últimos dias desapareceram as figuras e personalidades de António Arnaut, Júlio Pomar e Philip Roth.  Habituámo-nos, ao longo dos anos, sem os conhecer pessoalmente, a respeitar as suas intervenções , apreciar os elogios de quem bem os conhecia e com eles convivia, e a deslumbrar-nos com os enormes vestígios das suas passagens por entre nós. Sim, entre nós, porque as suas obras sempre  envolveram os nossos quotidianos.

Não me quero alongar muito nem escrever uma elegia histórica para a qual não estou preparado. Pretendo apenas relembrar as suas vidas que nos deixam marcas eternas e inapagáveis. São, realmente, vidas sem morte. Cada vez que vou a um Centro de Saúde ou a um Hospital Público, onde apenas pago uma simbólica taxa moderadora, estou a ser benefeciado pelo extraordinário Serviço Nacional de Saúde, criação de António Arnaut, criação de uma mente e de uma inteligência que, nos tempos que à data corriam, e nos tempos que hoje vivemos, terá que ser continuada pelo que representa de respeito para com os cidadãos a quem Arnaut sempre dedicou esta sua Obra. Que a continuem como ele a  propôs e pela qual sempre se bateu.

Júlio Pomar foi e continuará a ser um artista mundial. As suas múltiplas e abundantes obras sempre nos deslumbraram e continuarão a deslumbrar em qualquer local onde as vejamos. Lembro-me bem da polémica do retrato de Mário Soares feito para a Galeria dos Presidentes,  por Júlio Pomar. É hoje considerada uma das peças mais expressivas do retrato pintado. Encontro-me com Pomar em algumas paredes da família, onde os seus quadros ou desenhos, não muitos, claro, as embelezam. A vida dele continuará.

Muitos de nós leram Philip Roth. Tenho por aí, na estante, que me lembre, A Mancha Humana e o Nemesis. Talvez mais algum. Era um romancista duro, profundo, sempre ligado à ideologia judaica. Embora algumas vezes proposto para o Prémio Nobel da Literatura, nunca o ganhou. Vale a pena reler e ampliar, como é o meu caso, o conhecimento das obras deste homem. É considerado um dos maiores escritores americanos da segunda metade do século XX. Continuaremos a tê-lo vivo nas estantes das livrarias e dos seus apreciadores.

Para não acabar este texto apenas com referências a “Vidas sem Morte” não me eximo de  referir  um maravilhoso espectáculo que vi ontem na Fundação C. Gulbenkian, com a participação de Joyce DiDonato e do seu Pomo d’Oro.  É um trabalho não só de música e de canto mas, também, de encenação inteligente e  transmissora de mensagem. Mensagem do eterno conflito do Caos, da oposição entre as Guerras e a Paz, buscando, como ela própria diz, a Harmonia Através da Música.  Foram apresentadas peças de Handel, de Cavalieri, de Purcell, da Arvo Part.  Um espectáculo maravilhoso em que a própria DiDonato pergunta: No meio do caos, como podereis encontrar a paz?

Acho que este parágrafo final, dada a coincidência de ter assistido a este extraordinário espectáculo de Harmonia e Paz, vem bem a propósito de relembrar que,  Aqueles que comecei por referir,  continuarão sempre Vivos. Eles foram  a procura da Paz, da Justiça, da Decência, eles lutaram, enfim, contra a vulgarização do caos. É a resposta à DiDonato.

 

2 pensamentos sobre “VIDAS SEM MORTE

  1. Gostaria, também, de ter escrito algo sobre estes casos de tristeza nacional, ocorridos agora tão bruscamente.. Ainda bem que o não fiz…! A minha capacidade intelectual, nunca poderia apresentar a mesma forma de beleza e de sentimento, com que as suas palavras, MMS, enalteceram aquelas figuras agora desaparecidas. De facto, António Arnaut ficará na memória de todos os portugueses, cuja inteligência nunca os poderá deixar desviar, do reconhecimento pelo que aquele estadista deixou a este Portugal moderno. Possivelmente, os mais sépticos, o reconheçam um dia…!
    Também a Júlio Pomar, um artista despretensioso e de grande valor na arte moderna internacional. O mesmo poderei dizer, pela forma como valorizou a arte de pintar e embelezou o país com as suas cores…!
    Desconhecia Philip Roth. Fiquei com a curiosidade de conhecer melhor a sua obra…!
    De facto, há pessoas que nunca morrem…!

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