APOROFOBIA

Até há bem pouco tempo não conhecia esta palavra. Não era de admirar, a palavra não tem existido. Foi criada recentemente pela filósofa espanhola Adelia Cortina, catedrática de Ética na Universidade de Valência, Especialista em Filosofia Política e a primeira mulher a entrar na Real Academia de Ciências Morais e Políticas de Espanha, em 2008.

Adelia Cortina foi uma das oradoras no III Congresso Internacional de Filosofia, que decorreu na Universidade da Beira Interior, na Covilhã. E aí explicou que existe, declaradamente,  uma forte “fobia pelos pobres”, com graves riscos para a democracia.  Essa fobia dos pobres está subjacente nas nossas sociedades, antigas e modernas, e faz-se equivaler à xenofobia, à rejeição de etnias, de estrangeiros, de castas, de religiões.  Todas essas rejeições estão classificadas nas nossas sociedades e estão sujeitas aos escrutínios mais variados: sociais, políticos e jurídicos. Porque têm nomes, porque são internacionalmente reconhecidas. No entanto,  a fobia dos pobres, que sempre existiu e que é inegável para qualquer sociólogo, sempre foi dissimulada, dissolvida, quase ignorada. Mas ela é, sem dúvida, uma das maiores responsáveis pela essência da democracia, por tudo o que tenha a ver com equidade, igualdade social e igualdade de oportunidades. Por isso era preciso dar-lhe um nome, qualificando-a e tornando-a suscetível de apreciação e, quando necessário, de penalização. Adelia Cortina criou o termo “Aporofobia”, termo espanhol, naturalmente, que já foi introduzido no léxico castelhano e faz parte dos dicionários do país vizinho. O raro consenso político que se criou parece poder levar este neologismo ao Código Penal Espanhol, como agravante criminal.

A pobreza é abordada e debatida nas campanhas políticas, mais como tema subjetivo e propagandeador de intenções do que uma realidade social qualificável, substantiva e penalizável quando não atendida. É fácil perceber a atenção que se dá atualmente às movimentações de emigrantes e às discussões que se geram em seu redor. Mas se esses emigrantes forem importantes jogadores de futebol ou artistas consagrados, tudo se passa com muita facilidade e notoriedade.  Se os emigrantes forem pobres os problemas são imensos e são válidas todas as razões para a sua recusa ou perseguição. É a “aporofobia” a materializar-se em todo o seu esplendor.  Boas razões para a adoção deste novo termo. A criação é espanhola mas a etimologia do termo parece-me perfeitamente adaptada ao léxico português. Os especialistas e doutores da língua o dirão mas, mais importante que o termo encontrado,  é aquilo que ele verdadeiramente expressa na defesa das sociedades, da solidariedade e da democracia.  Aguardemos que  a APOROFOBIA passe também a ser uma palavra portuguesa.

(Baseado no artigo de Paulo Pena publicado no DN de 23/9/18)

Um pensamento sobre “APOROFOBIA

  1. Muito iInteressante, este assunto de Aporofobia…! Uma palavra nova, que irá correr mundo. Mais uma vez, a Espanha vem mostrar como a democratização está continuamente atrasada. Quem anda pelas cidades ou pelo país, sabe que é assim. A religião, não tem tido, ela própria, uma das figuras mais emblemáticas, como a dos pobrezinhos à porta da Igreja ? Submetendo-se à caridade de alguém, que rezou pela paz do mundo ? Não tem, a pobreza, muito a haver com a ignorância, o respeito e a educação, tão da responsabilidade das Sociedades Política e Civil ? Mas, o que se está a passar na Europa com as migrações, a meu ver, é mais pelo choque de patamares de civilização, pelo incómodo ou o desconforto da penetração de novos costumes ou hábitos alheios. E aí, a Aporofobia, tomará, pela conveniência política, o lugar da Xenofobia, como termo menos explosivo. Os pobrezinhos continuarão ! É uma questão de tempo…!

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