O MEU IRMÃO

 

É insubstituível a cumplicidade que existe entre irmãos. É uma união que nos acompanha a vida toda. Quer estejam próximos ou afastados,  o instinto de defesa e de proteção recíprocas são permanentes, sempre à tona de água. A vida passa e cada um escolhe o seu caminho, programa as suas opções e acaba, não poucas vezes, por se encontrar em territórios físicos e de espírito bem afastados. Não importa,  porque, quando a oportunidade surge,  eles aí estão, juntos de novo para o que der e vier. É a cumplicidade do gatinharem juntos, de se baterem de vez em quando, de rirem ou chorarem nas mesmas ocasiões, de usarem as roupas uns dos outros, de esconderem os brinquedos dos outros e lerem, às escondidas, o livro que o outro ainda não leu e que não sabe onde o deixou.

Os irmãos jogam à bola juntos, mesmo quando são irmãs, e arranham-se nos joelhos, rasgam os calções  e às vezes voltam para casa a choramingar. São essas as marcas de água que ficam para a vida. Inesquecíveis. Às vezes lá surgem os conflitos (a infeliz altura de partilhas é, com frequência, um desses momentos de maior constrangimento ) mas, passadas essas “trovoadas”,  lá vem a voz da alma a recompor o que, por si só, é indecomponível.

A maioria de nós já passou por muito disto, sabem do que falam. Cumpre-me esclarecer que não tenho irmãos, pertenço à inominável categoria dos filhos únicos, classificação de que nunca gostei e à qual, discreta mas solenemente, sempre me opus. Não fui infeliz por isso mas sempre reconheci que faltava gente , à minha volta, da minha idade, com quem pudesse gritar, partilhar, chorar e fazer equipa. Por isso arranjei outros irmãos, bastantes, com quem pude fazer quase tudo o que entre irmãos a sério se faz. Desde os tempos de escola que tenho amigos, irmãos, com quem ainda hoje me encontro, digo banalidades e com quem me preocupo. Fiz irmandade com os meus filhos  (ou tentei fazer) talvez porque ainda tenha ido a tempo em termos de idade. Rebolei-me com eles no chão, preguei-lhes partidas, e eles a mim, aprenderam comigo e eu com eles velhos e novos “palavrões”. Fomos, claro, pais e filhos, mas sempre com a imagem sobreposta de irmãos com irmãos. Ao longo da vida fui convivendo com imensos amigos, nas discussões escolares, profissionais, políticas, artísticas, desportivas e muitos deles deram-me o privilégio de ficar seu irmão. Continuamos a partilhar opiniões, prazeres e dores, infelizmente já muitas dores.

E sabem? Quando os netos apareceram tive a sorte de me olharem assim… como um irmão mais velho…  a quem se faz partidas e se balbucia disparates, mas com cuidado, para que os outros adultos não nos censurem.

Sim, minha gente, não tive irmãos, mas tenho-vos a vocês todos. Meus irmãos.

 

 

2 pensamentos sobre “O MEU IRMÃO

  1. Um assunto muito interessante..! Sei, por experiência própria, que ter irmãos, é aprendermos a viver numa casa cheia, que normalmente nos leva à convivência, a desafios, aprendendo a cooperar e a agir sempre com lealdade e amizade, criando a natural formação de carácter que nos acompanha por toda a vida ..! Penso que a situação de ser filho único, não altera em muito o carácter da pessoa, apenas procurando o convívio natural de outros, moldando-se a um mundo que não susceptibilize as suas próprias convicções. E viver numa casa cheia, não pressupõe apenas pequenos engarrafamentos à porta da casa de banho, ou ter que lutar para ser o primeiro a chegar, para não ter que sofrer um banho já frio. Também, a troca de ideias sobre experiências do quotidiano, que começam a despertar interesse junto dos mais novos, sobretudo em conversas à mesa, umas vezes mais animadas do que outras, talvez com um ou outro reparo por parte dos pais, sempre prontos a intervir como árbitros, com foras de jogo e expulsão do campo…!
    Recordo, que algumas vezes fui parar a cozinha, por não saber estar à mesa, o que me dava uma satisfação extraordinária, principalmente quando havia pudim de ovos…!

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