WEB SUMMIT

Esta noite tive um sonho.  Sonho ou pesadelo, ainda não sei. Mas acabei por achar graça e me divertir um bocado. Não é que eu sonhe com frequência mas, de vez em quando, lá vêm as memórias noturnas a apertarem as meninges. Será?…

Mas eu conto. Estava no escritório, num daqueles que frequentei durante a minha vida profissional, não sei bem qual, e avisaram-me  que não tinha sido autorizado um Boletim de Registo de Importação para mandar vir uma mercadoria de França, de um dos nossos fornecedores habituais. O problema era complicado porque me ia atrasar uma obra de um cliente importante. Lá fui, com um parceiro de trabalho para a Avenida de Berna, nº 1, onde essas coisas se tratavam, para tentar, usando as melopeias do costume, desencalhar o nosso requerimento. Nada feito, na altura. A coisa tinha que ser submetida, de novo, à apreciação do Sr. Diretor que só lá iria daí a dias. Uma característica técnica do equipamento por nós descrito no requerimento não preenchia as regras do vasto leque de condicionamentos para as importações. Lá se deu um jeito no requerimento e agora havia que aguardar pelo Diretor.  Telefonou-se para França, para o fornecedor e ficámos a saber que o material só podia ser expedido daí a 15 dias e viria de combóio. Se viesse de avião, para ser mais rápido, o preço tinha um acréscimo  significativo, maior que o lucro que aguardávamos receber no desenrolar da operação.  Se eu mandasse um telex ao Administrador (que eu conhecia bem) talvez o envio se pudesse antecipar alguns dias. Enviei o telex e telefonei-lhe. Prometeu-me ir dar atenção ao assunto socorrendo-se do facto de ambos pertencermos à EFTA.  Entretanto, da obra, começaram a questionar a disponibilidade do material e o cliente, claro, começou a ameaçar com as condiçoes de pagamento, devido ao atraso previsto. De repente, no sonho, apareceu-me o Boletim de Importação já assinado e a informação de que o material estava na alfândega para despacho. Com a alegria que se pode imaginar, telefonei para o despachante para acelerar o processo. Estava quase salvo! Nessa altura acordei.

Como já não adormecia depois de tanto sobressalto, liguei a televisão e vi alguns resumos das sessões da Web Summit que têm lugar em Lisboa. E sorri… Estavam ali 70.000 empresários, investidores, jornalistas especializados, todos em alegre cavaqueira e fazendo, segundo diziam, muitos negócios. Gente que dali falava ou enviava mensagens digitalizadas para todos os cantos do mundo, trocando impressões, comparando valores. Lembrei-me do meu telex e dos cartões perfurados do enorme armário a que chamávamos de computador, dos telefonemas e das angústias do Boletim de Importação, do diretor que só estaria na repartição daí a uns dias, do meu fornecedor que fez um favorzinho por pertencermos à EFTA… E sorri de novo. Porque não nasci uns anos mais tarde? Já podia conviver com estas novidades em pleno. E decidi fazer uma “startup”. De manhã cedo falei com um amigo jovem sobre esta minha ideia. Desatou-se a rir e travou-me a intenção. Ele também já se tinha metido nisso, tinha mesmo aberto uma delegação em Silicon Valley e teve que desistir, faliu. Rimos os dois.

As maravilhas daquelas modernidades são fantásticas e imparáveis. O progresso é constante e é bom que esta gente se reuna todos os anos, durante os próximos dez anos, aqui em Lisboa. Imagino que, nessa altura, se vão sentir como eu hoje me sinto a pensar no meu telex. E também, como eu, vão ter pesadelos a pensar nas desgraças que lhes podiam ter acontecido se ainda vivessem com as tecnologias a que nesta altura assistem.

O progresso é muito rápido, os benefícios são imensos mas, mesmo assim, as desgraças no mundo continuam.

Um pensamento sobre “WEB SUMMIT

  1. BRI, Telex, Repartição do Comercio Externo, EFTA… ! Que arrepío, ao mesmo tempo que uma leve nostalgia eu senti, ao ler estas siglas dos meus bons verdes anos…! Bom…! Era jovem e tudo se suportava, não fora a constante indignação, pelas dificuldades com que lutávamos para ganhar uns cobres, num rigoroso princípio de vida de Comissões e Consignações, ainda distante de toda uma azáfama apaixonante de Feiras Internacionais…! Ficava já muito satisfeito com os resultados da consulta à Übersee Post, da Feira de Frankfurt, ou das de Hannover e Nuremberg, sempre mais ligadas à inicial União Europeia.
    O tema é muito interessante, e devo confessar, que além de oportuno, como habitualmente, deu-me uma leitura bastante grata. E não exagero, porque o que senti, foi uma pequena viagem a um passado já longínquo, a uma época em que os condicionalísmos das ” Importações e Exportações ” nos bloqueava os sonhos de uma vida que nos fazia mais dinâmicos.
    De facto, este meu sorriso pálido com que fiquei, talvez começasse a tomar uma melhor coloração, com um pequeno suspiro de alívio, por nos sentirmos numa época sem as fronteiras do passado, com as suas alfândegas e gente complicada. Fronteiras, que começaram a ser cilindradas pelas novas tecnologias da Web…!
    Apenas, não sei se estarei assim tão certo, ao afirmar, fronteiras do passado…!

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