RECUPERAÇÃO IMOBILIÁRIA

 

O  diário francês “Le Figaro”  de 9 de novembro inclui um extenso artigo com o título de “A INQUIETANTE DEGRADAÇÃO DO IMOBILIÁRIO FRANCÊS”.  A seguir ao drama que se desenrolou em Marselha,  no princípio da passada semana, quando três imóveis entraram em derrocada causando sete mortes, outro desastre semelhante chamou a atenção da França para  o que se estava a passar noutra cidade, Charleville-Mézières: a derrocada de um edifício, desta vez sem vítimas , por terem conseguido fugir a tempo. Dos inquéritos e levantamentos já realizados conclui-se que existem em França mais de 400.000 apartamentos perigosos, dos quais 56.000 em copropriedade. A vetustez, a falta de manutenção e os desabamentos sucessivos têm vindo a pôr em causa a dignidade dos parques habitacionais em França.

O assunto chamou-me a atenção por ser importante para a França e, no fundo, para quase todos os países, incluindo o nosso.  Ao longo dos anos já temos também assistido ao mesmo tipo de problemas em muitas cidades de Portugal. É um assunto que deve merecer a especial atenção das autoridades, em particular os municípios.

Há,  no entanto, um outro tipo de perigo que se tem vindo a espalhar entre nós, Lisboa incluida. Está na moda recuperar apartamentos em prédios antigos, reformulando as suas compartimentações interiores, embelezando-os com acabamentos modernos, reabilitando as fachadas dos prédios com novas cores e, às vezes, novos desenhos. Não se cuida, no entanto,  de reforços estruturais, de modernização de instalações técnicas com seguranças adequadas. Sabendo-se que o nosso país está localizado numa zona sísmica, com especial incidência no sul e na zona de Lisboa, não devemos esquecer que os edifícios construidos nas décadas de 20, 30 e 40 do século passado não estão estruturalmente preparados para suportar sismos de maior gravidade .  A chamada recuperação imobiliária que tem vindo a ser realizada não tem atendido, na maior parte dos casos, a esse importantíssimo factor. São bonitos, confortáveis mas serão ratoeiras em caso de sismos que, esperamos, não aconteçam. Não tem sido por falta de muitos avisos por parte das entidades técnicas nacionais e competentes. Até na televisão tem havido programas dedicados, exclusivamente, a esse tema. Mas a pressão imobiliária relega para segundo plano este tão importante problema. Os prédios antigos podem sofrer obras de recuperação estrural que lhes dê segurança em casos de incidentes indesejáveis mas nunca previsíveis. E não nos digam que isso iria aumentar os custos da construção ao ponto de fazer subir os preços de venda para valores insuportáveis.  Não, os preços de venda atuais, sem os cuidados que refiro, já estão absurdamente inflacionados. Pode-se fazer bem, regulamentarmente, e manter o mercado estabilizado e credível.

Por isso trouxe a este texto o caso da degradação imobiliária em França, onde, pelos vistos, o abandono tem sido grande e as condições sísmicas não são tão exigentes quanto as nossas.  Exijamos que se faça bem. Este é um ponto onde as autarquias podem ser exigentes em vez de complicarem e arrastarem os empreendimentos, grande número de vezes, com burocracias e implicações desnecessárias. Tratemos bem as nossa cidades, os nossos agregados habitacionais para que não tenhamos também, dentro de algum tempo, os números assustadores que a França já tem.

 

 

Um pensamento sobre “RECUPERAÇÃO IMOBILIÁRIA

  1. Um assunto verdadeiramente importante, que merecia ser bastante mais divulgado. A consciencialização das populações, infelizmente, não tem sido levada muito a sério pelos vários governos, sempre mais preocupados com a ” mise en scène ” de que tudo vai bem, e o desvio das atenções para as polémicas forjadas, da Assembleia da República. Talvez, também as Autarquias, devessem estar mais atentos a este problema, bastante preocupantes. E não é por falta de exemplos, derrocadas de prédios em Invernos mais rigorosos, que um dia venha a ser motivo de desculpas, para desastres de maior dimensão.
    É frequente, vermos nos bairros mais típicos das nossas cidades, uma degradação acentuada dos edifícios, apresentando as madeiras das portas e janelas com vestígios de apodrecimento, e um abandono impressionante de habitantes.Apenas encerrados ou entaipados, à espera de uma melhor oportunidade de valores. E cito a rua de Santo Ildefonso, até à Praça dos Poveiros, na cidade do Porto, como uma das que mais me chocou…! Pequenos prédios, típicos da zona, ainda seguros pelo alinhamento das sua pedras paralelipédicas, aguentando alguns dos seus telhados a vergarem-se sob o peso das telhas…! Lojas fechadas, ainda a quererem dar um saudoso sinal, do que foi a vida movimentada daquela rua…!
    E aqui por Lisboa, quem se passeie pelos bairros típicos da cidade, tão divulgada pelos promotores turísticos, notará a degradação das paredes, o cheiro bafiento e insalubre de algumas ruas de Alfama…!
    O querer fazer-se, como na Place des Voges, em Paris, ou na City de Londres, ou até no centro histórico de Colónia, junto ao Reno, onde se situa a magestosa catedral granítica, alguns dos pontos turísticos mais atractivos, e esquecerem-se de que em todas elas, houve a intervenção de engenharia na sua reconstrução, mantendo apenas a originalidade da matriz. O que se passa em muitos outros lugares, apenas para cobrar uns cobres de ocasião, não só é um erro lastimoso, como de um oportunismo irresponsável…!
    E todo este assunto que nos preocupa, não é mais do que um sinal de insistirmos em viver em paz, com os olhos postos no futuro, apesar de constantemente sermos alarmados por notícias de guerra, como a do Médio Oriente, que volta e meia, vêm as sua cidades em ruínas, como o que está acontecendo neste momento, na Palestina, entre o Hamas e Israel…! Parece-me, que estamos a necessitar de uma nova ordem mundial de índole humanista. Fico na dúvida, de como seria…!

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