O CURIOSO VIKTOR ORBAN

O cronista Édouard Tétreau, numa das suas intervenções no Figaro, explora com algum sentido de humor mas também de convicção política,  o espírito discricionário com que os fenómenos sociais e políticos são  balanceados na Europa e no mundo,  de acordo com as conveniências de quem escreve, de quem lê e de quem se aproveita das interpretações mais adaptadas ao seu pensamento.

Começa por interrogar as febres atuais do nacionalismo  e do populismo. Estigmatiza-as mas, de forma sibilina, chega a falar da “lepra nacionalista” que fará  esquecer as “lepras” bem mais reais do islamismo, do consumismo, do tecnicismo desumanizante e do medo da desclassificação social que percorrem o mundo e, em particular, a Europa. E elege, como exemplo redentor, o caso de Viktor Orban, primeiro ministro húngaro, transformado, segundo ele pelas elites europeias, na Besta imunda dos Cárpatos.

Mas sumarisa, em poucas limhas, o que tem sido a vida de Orban. Viktor Orban tem 55 anos, é protestante,  casado com uma católica há 32 anos e pai de cinco filhos. Quando jovem protestou contra a ocupação soviética.  Aos 24 anos, ano e meio antes da queda do muro de Berlim, arriscou-se a ir para a prisão ao participar na criação no que viria a ser o partido Fidesz, de oposição ao regime comunista. Porque se está hoje contra um homem que foi, afinal, um heroi da liberdade? Por ter sido eleito por três vezes, com esmagadora maioria, primeiro ministro do seu país?  Por ter transformado  o domínio da URSS, assente  na inflação, no desemprego, na corrupção e no espírito comunista numa economia bem mais aberta, liberal e produtiva, com 4% de crescimento, 3,7% de desemprego, 2% de déficite público  e de 74% de dívida pública relativamente ao PIB?

Não. O crime pelo qual Orban é atacado e detestado tem a ver com as invasões de 450.000 migrantes que atravessaram as suas fronteiras. A reação de Orban foi excessiva e desenquadrada do quadro político em que se insere. Mas talvez neste país de 10 milhões de habitantes a história e a  geografia tenham ditado o seu comportamento: uma área imensa invadida permanentemente pelos Magiares da Rússia, em seguida pelos Tártaros, os otomanos durante dois séculos, os austríacos e, por fim, os soviéticos. Realmente a Hungria não é modelo de democracia aberta. Mas, apesar disso, os criminosos, jornalistas e opositores não são decapitados e cortados aos bocados como na Arábia Saudita (por enquanto, direi eu). Os jornalistas não desaparecem misteriosamente como na Rússia ou na China. Os funcionários  não são presos sem julgamento como na Turquia. Porquê então as reações que este homem tem provocado na Europa?  Primeiro porque é seu membro de pleno direito, segundo porque a Europa não sabe bem como lidar consigo própria e muito menos com estes casos que, com a legitimidade dos votos, vão surgindo pelo continente.  Para a Europa de Bruxelas os povos da Hungria, da Itália, da Polónia, da Áustria, da Dinamarca, da República Checa, da Grã-Bretanha e talvez dentro de algum tempo a Alemanha, votam mal.

Não será altura de, se ainda for a tempo, a Europa rever a sua constituição, consumar as suas lideranças e constituir-se como uma União respeitada, forte e consequente nas suas decisões? Só se ouve falar do Brexit. E se houver outros? Atenção Europa. Como avisava, há dias, um alto responsável europeu, “todos os países têm um Orban dentro de si”. Para já não falar em Trumps e Bolsonaros.

 

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