AFINAL NÃO USEI O MEU DIREITO À GREVE

Num dia desta semana estive quase a entrar em greve no Serviço Nacional de Saúde ! Greve ao exame médico a uma das minhas vísceras, que estava marcado para uma determinada hora e que passado 1 hora e 30 minutos ainda não tinha sido iniciado. Greve portanto pelo meu direito a ser atendido a tempo e horas quando vou a uma consulta ou a um exame previamente marcados. Greve para não ser obrigado a gastar horas de vida numa sala de espera em companhia de outras tristes pessoas nas mesmas condições ( devo dizer que as minhas horas não são inteiramente perdidas pois levo sempre um livro por companhia e, por vezes, uma merenda ).

Pensei que ao exercer este meu direito inalienável ninguém se importaria com isso e que talvez, mentalmente, quer os agentes do serviço quer os utentes que se seguiriam a mim me agradecessem.

Erro meu ! Quando comuniquei a minha decisão à Recepcionista pedindo uma remarcação do exame, ela muito amavelmente aconselhou-me a que o não levasse por diante a minha intenção porque : i) só em Fevereiro de 2019 haveria nova oportunidade ; ii) que o Sr. Dr. Fulano de Tal ( o médico designado para o exame ) era de primeira categoria e que não era pessoa para se ausentar sem um motivo justo e nunca para ir almoçar ( era hora de almoço ) ; iii) que o exame em causa feito nesta unidade de saúde era muito mais seguro do que nos privados ; iv) que o sistema informático estava “em baixo” ( estaria de greve ? ) e portanto não me poderia agendar nova data.

Argumentei dizendo que a nova marcação poderia ser feita noutra altura, que os serviços tinham obrigação de conhecer os seus condicionalismos e portanto só marcar datas e horas exequíveis e não obrigar os utentes a esperas indefinidas, sobretudo a horas de almoço ( aí a senhora ofereceu-me umas bolachinhas que eu declinei pois tinha levado merenda, “à cause des mouches” como se dizia dantes ).

A senhora então deu-me novamente um conselho : que tivesse paciência, pois era para meu bem !

O ar amável e conciliador da Recepcionista arrefeceu-me o ardor grevista e, embora tivesse a sensação de estar a ser um “amarelo” ( não o “jaune” dos coletes franceses mas o ”yellow“ dos fura-greves americanos ), declarei que iria esperar mais um quarto de hora.

Felizmente fui quase de seguida chamado o que me evitou uma decisão difícil : transigir com os serviços no fundo para meu benefício ou reafirmar o meu direito à greve, e talvez prejudicar-me, só para mostrar o meu desagrado .

O exame foi realmente feito com perícia pelo médico e ele concluiu que a minha víscera não precisava de mais atenções e estava em condições de durar. Óptimo.

À saída, na altura da despedida, não resisti a dizer à amável Recepcionista: – Sabe, os cartões de cidadão não deviam indicar o número de utente do SNS, mas sim o nº de PACIENTE !

 

Lisboa, 8 de Dezembro de 2018

 

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