Um património esquecido ?

Já não é a primeira vez que recebo, através do Facebook, uma série de fotografias de várias cidades de origem portuguesa, implantadas por todo o Brasil. É impressionante, tanta beleza espalhada por todo aquele grande território e no admirável estado de conservação em que se encontra. Bem elogioso, apesar das dificuldades da sua conservação …!

Conheci Olinda há muitos anos, no Estado de Pernanbuco. Uma cidade vizinha de Recife, postada bem lá no alto, como que a vigiar, sonolentamente, o que se passava cá mais em baixo, junto ao mar. Construída, no sentido de vigiar e defender toda a zona, de ataques da pirataria ou de qualquer outra intromissão estranha, que assolavam a costa marítima. Desde o século XVII e XVIII, ela mantém-se intacta, dando lições de história a quem a visita.

Nunca mais esqueci, uma designação que a identificava como ” Cidade pequena, porém decente “…! Dito com a simplicidade de um pernambucano, não obstante mostrar um certo garbo, pela beleza e valor histórico que a caracterizava. Talvez, mais, pelo contraste com a cidade do Recife, que crescia junto à orla marítima, não só em importância como em modernidade.

E todo este casario, tão caracteristicamente português, a somar a tantas outras cidades, talvez ainda mais bonitas e ainda mais genuinamente portuguesas, como Ouro Preto, Salvador, Paraty, Diamantina e muitas mais, ( estas, conhecendo-as apenas por fotografia ) nos faz acordar para uma realidade que existiu e se perpetua, no quanto de bom trouxemos ao mundo, apesar das nossa debilidade, somada às dificuldades de controlo territorial, pela distância, a lenta e árdua expansão a Oriente, e toda a costa Africana.

E ao referir-me a esta extraordinária riqueza, transformada em sublimes lições de história, não poderei deixar de me referir, também, ao que vi e apreciei em Goa e em Angola…! Ainda em Lourenço Marques e S. Vicente, ambas de passagem…! Todas, continuando a difundir a história portuguesa nas várias épocas, e a personalidade de um povo, que gostava de desenvolver a terra onde alicerçava o seu futuro. As lindas e bem estruturadas cidades que deixámos em África, espalhadas por ambas as costas, sempre caracterizadas por um desenvolvimento planeado, como Luanda, Lobito, Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Moçâmedes, Lourenço Marques, Beira, etc., são uma boa prova disso. Uma grande maioria dos homens da minha idade, sabem bem do que estou a escrever, por motivos da mobilização para a Guerra do Ultramar. Talvez, nem todos se apercebessem daquela grandeza, devido à contrariedade das situações.

O estilo barroco das igrejas implantadas pelo mundo, tão do gosto português da época, como as que se vêm em Portugal de Norte a Sul, são o melhor testemunho da nossa passagem. Quantas vezes, Goa, me aflora à memoria, quando passo pelas igrejas de Tavira…? E as casas térreas, ou os casarões, com habitação no andar superior, que vi em Olinda, a compararem-se com as dos centros históricos do Algarve e Alentejo e muitas outras do Minho e do Douro ?

Certamente, que não teremos sido só nós, a deixar testemunhos da passagem pelo mundo. Espanha, também deixou bem vincada a sua personalidade, na passagem pelas Américas. Disso, também estamos certos…! Outros, como os franceses e ingleses , também o fizeram, mas nunca com a mesma força histórica…! O que me entristece, é a demora e a tibieza habitual de algumas decisões, por parte de quem decide, e nem sempre se preocupa com a valorização de um património, por vezes, bem mais estimado lá fora, do que aqui, entre nós..! E estes maus exemplos, que deixaram degradar tanto património, por negligência ou por ignorância, tornaram-se-nos bem caros, após uma tomada tardia de consciência…! O exemplo de um anexo à Igreja de Sta. Cruz em Coimbra, que felizmente, ainda hoje, como Café icónico da vida coimbrã, vai mostrando, à sua maneira, a arte manuelina. Aquela grande sala, que há já muitos anos, resistiu ao abandono, como depósito de carvão. O mesmo, se passou com algumas construções antigas na Ponta de Sagres, onde ainda há algumas dezenas de anos, vi uma tabuleta pendurada numa porta, indicando-as como armazém de peixe sêco…! Hoje, encontramos uma nova forma de degradação, com a violentação do que é bem público, nem sempre com arte…! Os Grafites…! Um hábito importado, muitas das vezes, aplicado levianamente, de forma ofensiva, destruindo, desafiando a inteligência, a permissividade, os costumes, a civilização, apenas porque dá prazer…! O prazer de destruir…!

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