Um dia diferente

São muitas, as vezes em que dou comigo a pensar, como a vida se torna episodicamente fastidiosa. Os movimentos, as conversas sobre assuntos já tão desgastadas pelas notícias repetidamente anunciadas na comunicação social. Talvez a forma como é dita, nos leve à saturação, sem querer ouvir mais nada. Talvez, o efeito nefasto nas nossas mentes, de um espectro de corrupção, que nos fere profundamente a consciência de cidadãos livres e nos tira bruscamente do sonho ainda não realizado de um país próspero e respeitado. Um sonho que nos acompanhou toda a vida, sabendo como seria difícil aglomerar ideias, convergindo-as no mesmo sentido do progresso, da educação e da dignidade de um povo, que não soube fazer outra coisa que não fosse o de trabalhar em troca de tão pouco.

E tudo se torna mais difícil, quando os ódios se destilam a céu aberto, por representantes políticos que não querem ver mais nada à sua volta, a não ser a sua palavra, os seus lugares, o ideal do seu partido, que se confunde com outros ideais, quando o mote é o bem estar do povo e a grandeza da Nação. Possivelmente, até serei eu, que já não consigo vislumbrar saídas consensuais, estruturais, para a edificação de uma sociedade moderna.

Nas minhas idas a Lisboa, de tão frequentes, levam-me por vezes a supor viver ainda nesta cidade, sentindo o seu pulsar. De bairro para bairro, verifico como tudo tem vindo a modificar-se, multiplicando-se os esforços de um povo que não quer ficar parado, não obstante as crises, tão alheias às suas vontades.

Hoje, num dia quente, quase de Verão, senti a necessidade de parar por algum tempo e repousar a vista sobre o movimento da Praça de Londres, tão minha conhecida de outros tempos. Sentei-me na esplanada da Mexicana. Mandei vir um café, como sempre tomara, e um pastel de nata como já se tornou hábito.

As mesas em redor, quase todas ocupadas por casais de idade, fizeram-me acreditar, serem os mesmos que habitualmente frequentavam as mesmas mesas e as mesmas cadeiras, há quarenta ou cinquenta anos…! Um outro grupo de oito amigos, já bastante grisalhos, conversavam entre risos abertos. Reparei, que não vi um único telefone sobre as mesas. Possivelmente até estariam nos bolsos, para qualquer eventualidade. Uma senhora, de cabelos brancos, delicadamente, perguntou-me se estava na fila para pagamento, ao que prontamente lhe cedi o lugar. Agradeceu com um sorriso de simpatia, afirmando que já era raro verem-se cavalheiros. De facto, os tempos já não são os mesmos…!

Mantive-me sentado ainda por alguns bons minutos, gozando alguma frescura que a manhã ainda trazia. Olhei em redor, recordando família e amigos, igualmente frequentadores destes mesmos lugares, há muito desaparecidos. Dei aqueles quarenta e cinco belíssimos minutos, como um dos melhores tempos gastos, a beber um café e comer um pastel de nata ! Os fantasmas, que eu senti no meu espírito, não me incomodaram. Antes pelo contrário…!

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