Dia da Espiga

Dia da Espiga ou 5ª feira da Espiga é uma celebração com raizes portuguesas, segundo as tradições. Para os crentes cristãos  é mais do que isso: é a Festa da Ascensão que comemora a Ascensão de Jesus aos Céus, no 40º dia depois da Páscoa,  dia em que Jesus reapareceu aos Apóstolos e deles se despediu, partindo para o Céu. É, liturgicamente, uma festa importante,  mas os rituais pagãos, com início provável nas culturas célticas e romanas, transformou este dia  na celebração da Primavera e das Colheitas.

Por todo o país as pessoas, as famílias, iam para os campos apanhar flores e plantas, hastes de trigo, romãzeiras, papoilas e faziam belos ramos que levavam para casa e guardavam em local discreto, tentando que o raminho durasse até ao próximo ano e “desse sorte”.  A espiga significava o pão, o alimento, portanto; a oliveira significava a paz e as flores espelhavam a alegria que se desejaria que perdurasse.

Ao longo da minha vida fui convivendo com este ritual, atribuindo-lhe uma grande beleza, ingénua mas espiritual. Lembro-me de, em miudo, a minha mãe acarinhar o seu pequeno ramo de espiga e guardá-lo cuidadosamente. Penso que seria para a minha proteção e felicidade futuras. Se assim foi, estou-lhe grato. Se cá estou é, muito possivelmente, também pelos efeitos benéficos dessa bela inspiração.

Anos mais tarde, numa empresa em que trabalhei, um dos colaboradores (excelente profissional mas de hábitos inconstantes e, por vezes, lamentáveis) sempre me aparecia no escritório com um ramo de espiga, para que eu não me esquecesse da data. E, talvez, para lhe relevar as tropelias que, nos seus dias menores, ia praticando. Foi o que fiz. Sempre o preservei até ao dia em que tive de lhe pedir para não voltar. E ele não voltou. Mas fiquei a gostar dele. Não voltei a vê-lo mas sei que ainda gosto dele. Sei que está vivo mas que vive longe de Lisboa. De certeza que hoje preparou um belo ramo de espiga que terá oferecido, assim espero, à mulher que tanto lhe aturou durante a vida.

Já ninguém, ou muito poucos, se terão lembrado desta 5ª Feira da Espiga, mas não esqueçam e reabilitem-na. Para além das devoções religiosas não deixa de ser um belo motivo pagão para nos oferecermos mutuamente. Nas ruas de Lisboa, hoje vendiam-se raminhos desses.  E talvez isso nos ajude a deixar de dizer,  das coisas que nos desagradam fazer: “Mas que espiga”! Perdoem-me o paganismo.

 

 

Um pensamento sobre “Dia da Espiga

  1. É verdade…! Quem viveu esses tempos, em que a notícia raramente ultrapassava a velocidade dos telegramas da época, ainda com a tarjeta colada de fresco emitida pelo telefax dos correios, cujo boletineiro se apressava a entregar, montado na sua pasteleira ( bicicleta ), recorda-se, como esta Quinta Feira de Espiga, se tornava um dia tão especial nas nossas andanças despreocupadas de garotos. A beleza de desejarmos aos outros, mesmo que lúdica, tudo o que aquele ramo significava, enchia-nos de uma satisfação que perdurava ainda alguns dias. E estes dias, eram já quentes, anunciando um Verão já não muito longe. O fim das aulas, que também se aproximavam. Os livros de leitura, de matemática e dos cadernos mais que rasurados. Os exames. As dores de barriga e um ou outro chumbo, para contemplar as nossas distracções…! Esquecíamos, talvez, de nos oferecer a nós próprios, um raminho com mais algumas folhas de oliveira, para a nossa paz de consciência…!

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