Desassossego…!

Não era minha intenção, referir-me à actualidade portuguesa. Uma actualidade, que se repete teimosamente com os mesmos gestos, as mesmas imagens, as mesmas dores, deixando-nos mudos, com as palavras que gostaríamos de dizer, a enrolarem-se no cérebro, sem sabermos como libertá-las.
A raiva, de vermos todos os anos, este Portugal que tanto amamos, a empobrecer, pela incúria e pela ignorância. Um país, dividido entre velhos e novos. Entre ricos e pobres. Talvez mais, entre um litoral promissor, e um interior abandonado a si próprio, mesmo que rasgado por modernas estradas. E este interior, com tanta história a esfumar-se na penumbra do desencanto dos mais jovens, na senda de uma melhoria de vida noutras paragens, um futuro, onde a vida parece ter mais luz. Este interior, que foi dos seus pais e dos seus avós, escurece, em simultâneo com a idade dos que ficam, entregues aos seus próprios sonhos, que já foram outras realidades.

Como conheço este país, bonito e acolhedor…! Onde ainda se pode beber água pelas mãos, de uma fonte, algures, saída dos baixos de uma fraga. Onde podemos encontrar a poesia da vida, tantas vezes escrita por Júlio Diniz, Eça, Camilo e tão fortemente pronunciada por Miguel Torga, ou nas Terras do Demo, de Aquilino Ribeiro. E este país, do impossível dos dias de hoje, adormece ferido, por tanta negligência. Talvez ignorância. Talvez desconhecimento de si próprio…!

Estou cansado…!
Cansado de tantos incêndios.
Cansado de tantas promessas.
Sempre com as mesmas conversas.
Cansado de negligências.
E outras tantas preguiças.
Cansado de desgraças.
Cansado, também, de saber,
Que ninguém quer aprender !
Cansado de ver casas a arder.
De ver gente a gritar,
Por um milagre, sem nele acreditar !
De ver gente a correr,
Mãos na cabeça, a sofrer,
Sem saber para onde fugir…!
Cansado, sempre do mesmo.
A ver chamas a destruir,
o que tanto custou a construir.
E o maldito, trepando montanhas, sempre a subir…!
Sempre o mesmo…! Nunca há culpados !
Sempre os mesmos a sacudir…!
E os bombeiros, sempre os mesmos, a acudir !
Estou cansado, de estar cansado…!

RF

2 pensamentos sobre “Desassossego…!

  1. Eu estou cansada de que o “crime compense”. Em tudo. Até nos incêndios! Sim, porque não há quem não saiba que a grande, grande maioria têm mão criminosa… é muito difícil para mim assistir a tanto que se sabe e permanece como se não se soubesse. Estou cansada, sim. Das injustiças, interesses e lobbies que se sobrepõe, de tal forma que há pessoas cujas vidas acabam de um dia para o outro.
    Como um dia José Saramago escreveu: “O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas cobardias do quotidiano, tudo isto contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for susceptível de servir os nossos interesses”.

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  2. Partilho a sua dor de ver o nosso país desaparecendo lentamente, queimado pelas chamas. A comunicação social não tem culpa do que acontece, mas tem tem culpa do estado de espírito em que nos põe sempre a martelar em notícias más, em expor despudoradamente a dor alheia, em procurar e revelar o que pior as nossas instituições têm , em quase esquecer o que de bom também vai acontecendo – excepção feita aos golos do futebol

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