A Casa de Chandor

Um ar quente, que ainda se elevava do asfalto das ruas, anunciava-nos um fim de tarde abafado, sem que o anoitecer preguiçoso, viesse a refrescar o ambiente que respirávamos. Ansiosos pela chegada da Monção, os dias iam passando lentamente, procurando que não fossem todos iguais. Eram assim, os dias passados em Goa, procurando conhecer um pouco mais de perto a vida daquela gente delicada, que olhava para nós, com os olhares curiosos, de um mundo que nos parecia diferente. Palavras que não entendíamos, acompanhadas por gestos delicados, demonstrando respeito. Era o Konkanin, muitas vezes misturado com o português, para nos fazermos entender. Ou uma conversa mais prolongada, já num português correcto com quem já há muito se habituara à nossa língua oficial. Os cheiro de fumos, misturavam-se com os aromas dos cravinhos e dos caril e de uma infinidade de cores de condimentos, expostos no exterior das lojas. Fora das cidades, os arrozais bem delimitados por coqueiros, chamavam-nos a atenção pelo seu verde intenso, a contrastar com uma ou outra igreja branca, sobressaindo do fundo da paisagem, ou do conjunto de velhas ruínas com histórias por ainda por contar…! Velha Goa, é uma dessas cidades, onde já ninguém vive, mantendo igrejas e basílicas, igualmente brancas, num maravilhoso estilo barroco, cheias de história, escondida entre coqueiros. Lá mais em baixo, o Arco dos Vice Reis, como porta de entrada, vindo do rio Mandovi. Um rio calmo, percorrido diariamente, por batelões de minério, com destino ao porto de Murmugão, a interromper a quietude de um sítio, onde só se ouvia o grasnar das gralhas e o bater das folhas dos coqueiros sob o efeito do vento, ou o anunciar tão característico, da aproximação da chuva, durante da Monção.

Quem visite Goa, apenas pela curiosidade turística de apreciar uma praia, onde os coqueiros desafiam de perto, as suaves ondas do mar, poderá não se aperceber, o quanto Portugal emprestou na arquitectura dos monumentos e das casas da classe média e principalmente das soberbas casas senhoriais, que ainda hoje mantém nomes familiares, ligados a Portugal, por casamento ou simples baptismo.

Todo este ambiente, tem sido recordado, ao assistir às sessões de um ciclo de filmes e conversas moderadas por Maria do Carmo Piçarra, num colóquio sobre Goa, na Fundação Oriente. Belíssimas sessões, com o mesmo título do livro, Era uma Vez em Goa, em homenagem a Paulo Varela Gomes, seu autor.

Passadas perto de seis décadas, após a integração na União Indiana, Goa continua numa senda de progresso diferente da vida na União, mantendo, a muito custo o que a tornou numa Jóia da Coroa. Talvez, já não a Roma do Oriente, mas um lugar onde meditar e viver cultura e história portuguesa, onde ainda se mantém os nomes de ruas e praças. Talvez, enquanto puderem coexistir culturas diferentes, como comprova a Casa de Chandor e toda a sua riqueza de exteriores e muito mais os seus interiores, cheios de obras de arte indo-portuguesa…!

2 pensamentos sobre “A Casa de Chandor

  1. Excelente descrição de uma terra maravilhosa que, infelizmente, para alguns de nós, nos criou uma saudade magoada. Revisitada, como fiz há poucos anos, matei as saudades e, principalmente, reassumi a paixão pelos locais e pelas gentes. A frase turística de Goa não podia ser mais feliz e amável: GO GOA!

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