CARRANCAS

Antes de iniciar, propriamente, o texto de hoje não me dispenso de recordar o significado, talvez menos vulgar, do termo “carranca”. Começou por ser uma escultura antiga com forma humana ou animal, produzida em madeira e utilizada nas proas das embarcações do Rio S. Francisco, no Brasil. Com o passar dos tempos nenhum de nós se priva de atribuir o designativo de carranca a quem tenha uma cara mais desconfortável em termos de beleza, ou carrancudo a quem exibir uma expressão menos afável ou até desagradável.  Mas, na realidade, “carrancas ou figuras de proa” são esculturas em madeira que. durante muitos anos, adornaram as proas de veleiros em todo o mundo, com significados históricos ou heróicos conforme os objetivos das suas utilizações iniciais. Apenas para começar com um exemplo,  recordo a carranca do Navio Escola Sagres da Marinha Portuguesa que representa a figura do Infante D. Henrique.

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Tudo isto vem a propósito de uma interessantíssima iniciativa da Royal Navy (Marinha Real Inglesa) ao preparar uma coleção de figuras de proa (carrancas) , em madeira, recuperadas dos seus navios de guerra do século XIX que se encontravam afundados há muitos anos em consequência de batalhas navais ou grandes tempestades marítimas. Essa coleção está a ser preparada em Plymouth, num novo complexo histórico e artístico, e incluirá 14 figuras recuperadas. A exposição será inaugurada na primavera de 2020.

Não se pense que esta empreitada é coisa fácil.  A recuperação das figuras começou nos princípios do século 20 e uma das primeiras figuras resgatadas foi a do Rei Guilherme IV, com o peso de duas toneladas  e a altura de 4 metros, que tinha sido talhada em 1833,  em Devenport, Plymouth, para ser colocada na proa do HMS Royal William. As carrancas sucessivamente encontradas foram submetidas a sofisticadíssimos trabalhos de recuperação, envolvendo laboratórios e especialistas universitários. As peças estavam, como se calcula, impregnadas de água salgada o que exigiu métodos de tomografia sónica para se avaliar o interior das peças (semelhante ao interior de árvores impregnadas), revestimento exterior com películas plásticas não agressivas para preservar as pinturas residuais e a punção em zonas adequadas para que, uma vez as peças penduradas em enormes armazéns, a água pudesse escorrer para, posteriormente, se proceder à secagem de todas elas.  Todo este trabalho levou mais de dois anos a realizar. Maxwell Malden, co-fundador do Laboratório “Conservation Orbis” declarou que “em termos de escala e complexidade este projeto foi dos mais complexos ali desenvolvidos”. A fase final de pintura exterior foi, evidentemente, de grande preciosismo. Só com a consulta a a livros e gravuras antigas foi possível recuperar as cores originais e, sobretudo, os métodos de gravação e pintura utilizados à época.  Os trabalhos finais parecem merecer a aprovação geral da imensa equipa pluridisciplinar constituida para este projeto.

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Por extraordinárias e felizes coincidências da vida Plymouth foi a primeira urbe inglesa que pisei, integrado no meu curso de cadetes da Escola Naval (Curso D. Duarte de Almeida), no dia 20 de Junho de 1956.  O Navio Escola Sagres, em que estávamos embarcados, participou nesse ano na regata oceânica de Grandes Veleiros, de Torbay até Lisboa. De Plymouth, e ainda antes de iniciarmos a regata em Torbay, visitámos Dartmouth (nas margens do rio Dart, claro) onde fomos recebidos na Escola Naval Britânica beneficiando de todas as tradições e praxes em uso.

Nesta famosa regata (já comemorada entre nós em 2006, após os 50 anos da sua realização pela Sail Training Association, criada em 1955 pelo Príncipe Filipe de Edimburgo) participaram outros grandes veleiros, alguns exibindo também as suas figuras de proa. Foi o caso de, entre outros,  do Christian Radich, da Noruega; o Américo Vespucci, de Itália; o L’Étoile da França; o Mercator, da Bélgica; o Flying Clipper, da Suécia.

Por tudo o que aqui fica relatado  não é de estranhar o meu particular interesse pela iniciativa da Royal Navy em recuperar o tão valioso espólio da sua histórica  Marinha. Portugal tem também, espalhados por esse mundo, alguns dos seus antigos navios que tantos “mundos descobriram”, não tenhamos medo de o dizer. Mas a sua recuperação seria uma empreitada que não está ao alcance dos meios de que o país dispõe. Apesar disso, muita coisa tem sido resgatada e o nosso Museu de Marinha tem peças que vale a pena serem vistas. Nada com a dimensão, claro, do que vai ser inaugurado em Plymouth na próxima primavera. Mas aqui fica o aviso para quem a puder visitar.  De qualquer maneira aqui vos deixo a imagem da Sagres que participou na Grande Regata acima citada.

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3 pensamentos sobre “CARRANCAS

  1. Bastante interessante, este artigo sobre carrancas. Não tenho alternativa, senão fugir ao semblante carrancudo, que se cola em mim, quando penso no que fomos e no que desperdiçámos durante largas dezenas de anos a olhar vagamente para um infinito, sem sabermos que nunca o poderíamos enxergar. E em quantos mares, as carrancas dos nossos navios sulcaram águas profundas e baixios traiçoeiros, abrindo caminho a outras tantas aventuras, escassamente contadas ou simplesmente esquecidas entre papéis de menor importância ? Mais atentos a outros horizontes, sem reparar no que perdíamos todos os dias, num piscar de olhos…! Ainda hoje, tive a notícia de que o lugre bacalhoeiro Argus, ainda se encontra atracado numa das Gafanhas de Ílhavo ou Aveiro, numa longa agonia, à espera de uma oportunidade de recuperação, como museu, evocando todo o historial da epopeia nos mares, nomeadamente da pesca na Terra Nova, e da forma como ela foi referida por Alan Villiers, no seu livro ” A Campanha do Argus ” , tão entusiasticamente noticiada, na altura…! É bom, fazer recordar o que foi esta Nação e por onde andou, que de uma certa forma nos fortalecerá a moral…! De facto, a sugestão de uma visita ao Museu da Marinha, virá a calhar, num dos próximos dias de Sol…!

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