A NOSSA 1ª ENTREVISTA – FRANCISCO CAMPOS

Como prometido,  começamos hoje uma nova fase do nosso blogue “Velhos São os Trapos”. Uma fase que intercala com os textos habituais, com a periodicidade de um mês, conversas/entrevistas com pessoas nossas conhecidas, com vidas interessantes, com percursos valiosos e com muitas histórias  e opiniões para relatar. Nem todos serão conhecidos do grande público mas esse tal “grande público” perde imenso em não conhecer e avaliar o que há de importante nestes nossos convidados (como em muita outra gente espalhada por todo o país e que também nós não conhecemos). Mas dos nossos amigos vão ouvir falar e poder ler. Ao fim de um ano serão doze, alternadamente mulheres e homens, e talvez consigamos criar uma habituação a estas conversas e ao local onde terão lugar, sempre o mesmo: o Espaço atmosfera m, da Associação Mutualista Montepio.

Hoje a conversa é com um jovem ligado profissionalmente às artes teatrais, vocação que abraçou desde muito novo, por decisão própria, o Francisco Campos. Nascido em 1969 começou, depois de terminar o 12º ano, o seu Curso de Arquelogia na Faculdade de Letras, virando-se de repente, e sem terminar o curso, para a sua paixão: o teatro.  Estudou teatro no Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral e na École Philippe Gaulier, em Londres e Paris.  Em 1994 estreou-se profissionalmente em “Miscelânea” de Garcia de Resende, sob a direção de Rogério de Carvalho, na Culturgest. Trabalhou muitos autores, desde Lorca a Philip Ridley,  envolveu-se com diversos encenadores e criadores, trabalhou no Brasil, durante dois anos, com Leonardo Medeiros, Regina França e Nilton Bicudo. Lecionou vários “worshops” no Porto, Montemor-o-Novo, Serpa, Évora e Faro. Foi professor de interpretação na Universidade Lusófona.  Como se vê, estudou de tudo, viveu em muitas partes do mundo, passou por muito, divulgou essa sua paixão e a sua genialidade que lhe têm sido amplamente reconhecidas. Tem atualmente uma Companhia própria a que deu o nome de “Projecto Ruínas”. Vamos perguntar-lhe e saber um pouco mais sobre todos estes aspetos da sua vida e carreira (de forma reduzida e adaptada).  Poderemos ouvi-lo a seguir e em direto,  no pequeno video que fizemos desta conversa.

1ª pergunta – Nasceste em Lisboa em 1969. Porquê a Arqueologia?

R – Depois do 12º ano concorri à universidade sem grandes objetivos ou talentos especiais. Não tinha uma nota de acesso espantosa… apenas 14 e ainda hoje julgo que escolhi Arqueologia por ver a atividade relacionada com o Indiana Jones. No fundo era, se calhar, o meu instinto teatral a empurrar-me para essa escolha, de ser actor. Era um curso de 4 anos, estive lá 8 e não acabei.

2ª pergunta – Mudança para o estudo teatral. Porquê? Decisão pessoal ou envolvimento?

R – Não tive envolvimento especial. Na minha família não havia, nem há,  ninguém ligado a estas artes. Resolvi por mim, não sei se bem, ir tirar um Curso de História da Arte para o qual não preenchia, no entanto, todos os critérios.  Tive um ano de interregno que aproveitei para estudar pintura na ARCO. Mas a vontade de ser actor e de representar começou a ser quase uma obsessão, uma linha orientadora de um percurso que resolvi fazer mas, sinceramente, não sei se o terei feito da melhor maneira.

3ª pergunta –  Das muitas experiências que viveste na arte teatral qual a que te deixou melhores recordações?

R – Terão sido todas as experiências vividas em Londres, na École Gaulier. Voltei a Portugal, viajei por outros países mas voltei  a Paris onde a École Gaulier tinha também um departamento. Gostei do encantamento da cidade e das atividades que ali conseguia realizar. Mas as minhas melhores recordações prendem-se, na realidade, com as peças que comecei a encenar, a escrever e a representar, ao fim e ao cabo com o lançamento da minha própria atividade, coisa de que ainda hoje não estou certo se terá sido a minha melhor decisão.

4ª pergunta – Qual ou quais os teus autores preferidos para desempenho teatral?

R – É uma resposta difícil de dar. Na trajetória curricular de treino e aprendizagem estudei, necessariamente, muitos autores… Naturalmente Brecht, Gil Vicente, Tchecov, Lorca deixaram-me marcas importantes que talvez sejam responsáveis pela linha de expressão teatral que  acabei, quase sem querer, por adotar. O autor com quem mais me envolvo sou eu próprio. Sou apaixonado de Tchecov mas construo e escrevo o meu imaginário sabendo que, possivelmente, não vou alcançar o grande público. Mas isso faz-me caminhar e juntar-me a outros atores que me acompanham nesta quase aventura. Sim, porque eu também sou ator das minhas próprias peças, chegando muitas vezes a confundir-me entre estas duas ações. Às vezes, quando represento, pergunto-me: “Mas fui eu quem escreveu isto?” Essa sobreposição de atitudes muitas vezes me surpreende e me obriga a pensar se terei, realmente, seguido a melhor forma de preencher o meu gosto pelo teatro.

5ª pergunta – Como foi a experiência no Brasil?

R – Foi entusiasmante e divertida e aprendi muito com os autores e equipas com quem trabalhei. Mas, sobretudo, fui levado para lá por uma aventura de coração que acabou por não se realizar. O teatro, nessa ocasião, funcionou muito para disfarçar o insucesso romântico a que me tinha aventurado. E ainda foram dois anos… Mas valeu a pena.

6ª pergunta – Gostaste de dar aulas  de Formação de Atores?

R – Nem por isso, prefiro trabalhar em “workshops” às quais sempre me tenho dedicado muito. Os frequentadores de cursos, atualmente, ou são verdadeiramente interessados ou, quando obrigados, estão muito mais recetivos a trabalhar com os meios digitalizados à sua disposição e que os absorvem quase por completo.

7ª pergunta – Tens o teu Projecto Ruínas, com sede em Montemor-o-Novo. Porquê este nome e que futuro prevês para o Projeto?

R – Há já uns anos uma amiga minha encenadora teatral convidou-me a participar na recuperação e aproveitamento de um espaço magnífico mas muito degradado, localizado em Montemor-o-Novo. Era uma igreja antiga, degradadíssima, quase em ruínas, que a Câmara Municipal nos facultava para intervenções artísticas, com apoios, claro, e fazermos do espaço uma zona cultural apelativa. A vereação da Câmara, na área da Cultura, era à data, particularmente ativa e queria criar diferenças com os outros municípios vizinhos e, talvez, aproveitar a proximidade de Espanha. A minha amiga cenógrafa (Sara Machado da Graça), entretanto, foi convidada para trabalhar em Maputo e eu fiquei com a missão já iniciada e em curso e, diga-se, com alguma esperança de sucesso. Conseguimos, eu e a pequena equipa que entretanto reuni, dar dignidade ao espaço e ali promover, ao longo destes anos, mais de trinta espetáculos, trabalhando como autor, encenador e actor. Fui acompanhado, na fundação do Projecto, principalmente, por Susana Marques e Sara Machado da Graça que entretanto se desligaram. Atualmente junto, quando necessário, outros actores se as peças o exigem. Que outro nome havia eu de arranjar para o projecto a não ser  “Projecto Ruínas”? Por todas as perguntas que me têm feito sobre isso ao longo dos anos, acho também que não será o nome ideal… Por isso estou a pensar em arranjar uma nova versão para este nome.

(Interrupção da entrevista)

Já depois desta conversa ter tido lugar o Francisco Campos lançou uma  imagem/cartaz de uma peça apresentada recentemente no Porto que se  apresenta a seguir. Tem um ar alegre mas não deixa de estar incluido no Projecto Ruínas.

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(Continuação da entrevista)

Gostaria que o novo visual fosse mais apelativo e universal,   embora tenha que continuar ligado ao “Projecto Ruínas”, uma Associação constituida, que tem recebido apoios públicos diversos, incluindo o da Direção Geral das Artes que, infelizmente, este ano não nos foi concedido por não preenchermos todas as cláusulas do concurso. Prevejo, portanto, um próximo ano de 2020 muito difícil, durante o qual terei que diminuir o número de novos espetáculos, embora possa continuar com as peças já criadas. As nossas atuações têm sido muito diversificadas ao longo do país, incluindo Lisboa. Acabamos de levar a palco a peça “Rocky”, no Centro de Artes de Lisboa e “A Felicidade”, no Teatro Meridional. (Ambas as peças tiveram lugar durante o mês de Novembro). Infelizmente, falo contra mim, o Projeto depende muito de mim e das minhas iniciativas. Tenho um lugar que nunca ambicionei, o de ser primeiro responsável por uma empreitada desta natureza. Mas a minha forma de trabalhar levou-me a isto e assim irá, muito possivelmente, continuar.

Última pergunta – Fala-nos da razão do teu interesse pelas Artes, em especial pelo Teatro, e como sentes que esse teu interesse e a tua mensagem podem e devem abordar o público.

R – O interesse pelo teatro, pela criação e pelo desempenho, são indissociáveis de mim. Sem vocações ou envolvimentos particulares, desde o início de tudo, sempre acabei por enveredar por aquilo que me dava prazer e que julgo ser capaz de transmitir a quem nos vê. Essa é a magia desta profissão embora, claro, com imensas dificuldades que não adivinho, a curto prazo, serem minoradas. Sinto que a meio da vida, praticamente com 50 anos, não posso hesitar e tenho que ser imaginativo e, sempre, criador.  Mas a minha quase que exclusiva atividade teatral não facilita outras alternativas, num meio extremamente populoso como é o das atividades artísticas. Acho que é com este Projeto que devo continuar introduzindo, muito naturalmente, adaptações que permitam fazer chegar mais longe as nossas peças e as nossas intervenções.

 

É esta, de forma reduzida e adaptada, como disse no início, a conversa que tivemos com o Francisco Campos. Temos assistido às suas peças, sobretudo às que são levadas a palco em Lisboa ou arredores. São peças que revelam muito trabalho, que se destinam a públicos talvez especiais, mas que podem crescer em audiências. Para isso seria necessária uma maior publicidade que, como sabemos, é cara. O “passa-palavra” é um bom processo de dar a conhecer estes trabalhos que estão a ser realizados por uma pequena equipa de enorme genialidade e perseverança (ou resiliência, como agora se diz). Aqui fica um relato para que se conheça melhor o Francisco Campos e o seu “Projecto Ruínas”.  Vale a pena!

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Um pensamento sobre “A NOSSA 1ª ENTREVISTA – FRANCISCO CAMPOS

  1. De repente, acendeu-se uma luz. Uma luz que se tornava mais intensa, quanto mais se aprofundava a leitura da entrevista. Neste pequeno palco, onde a liberdade para escrever, se vai tornando um pouco mais difícil e exigente, pela qualidade de muitos assuntos já apresentados, uma variante, inteligente, postou-nos numa ” Boca de Cena “, perante uma plateia, ainda mais atenta e exigente…! Quer-me parecer, que muito de bom estará para aparecer…!

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