A LINGUAGEM MODERNA

Com a mudança decorrente do novo acordo ortográfico temos vindo a ser confrontados com grupos de adeptos, favoráveis à mudança, e outros que não se conformam e que continuam a escrever ao abrigo do antigo acordo. Têm o cuidado de o dizer no final dos seus textos. Eu  (pecador me confesso…) não gosto do novo acordo, achei-o feito  “em família”, sem a recolha de opiniões de gente abalizada que não terá sido consultada por se conhecer a sua opinião contrária. O alibi de que o novo acordo seria a base formal de entendimento entre todos os países de expressão portuguesa não colheu, até agora. Alguns não o legalizaram, têm “mais em que pensar” e acham que muitas formas dos seus linguajares nativos deveriam ter sido incluidos no novo acordo. Até  que ponto? Não se sabe.  Reconheço o meu permanente embaraço quando escrevo um termo que sei ter sido alterado: umas vezes “obedeço”, outras não. Isto de fazer uma “ata” de uma reunião, irrita-me; ou de “fraturar” um osso também também não me consola clinicamente. Mas, como equívoco militante,  vou obecendo ou desobedecendo conforme as minhas intempéries mentais. Claro que, ao longo da minha vida, já passei por algumas mudanças da escrita (embora a “pharmácia” fosse utilizada antes de eu nascer. Mas os letreiros continuavam e havia quem suspirasse de saudade… ) Lembram-se do “trema”? Ainda há línguas que o usam e, confesso, às vezes faz-me falta.  Passei por dois ou três conjuntos de alterações ortográficas e que, reconheço, não me causaram grande perturbação e às quais até me habituei facilmente. Talvez por concordar com elas. Mas era coisa entre nós, não abrangia as ortografias de outros países que, à moda dos tempos, iam adotando (cá está outra que me irrita…) os nossos usos e iam cultivando as suas próprias  vocações linguísticas. Mas, enfim, isto deve ser da idade, como me dizem todos os jovens com quem convivo. Também não me custa nada dizer que “aquele cara é bué de cool”… Percebo perfeitamente e não praguejo por causa disso. Mas continuo a sentir-me melhor a atar o atilho do sapato e a escrever a acta da reunião (poderia dar muitos outros exemplos, mas não vale a pena). Corre, aliás, nas redes sociais um longuíssimo abaixo assinado contra o atual (outra…) acordo, no qual se vêem muitos nomes famosos da escrita e da linguística portuguesa. Não me revejo com aptidões suficientes para discutir publicamente este assunto e por isso vou aguardar o que os entendidos e os legalistas virão a consertar sobre este tema. Mas não me parece que a coisa se modifique.

Prefiro relembrar um novo conjunto de termos que passaram a invadir o nosso território falado e aos quais nos vamos, discretamente, habituando. E há muitos. Por exemplo a Transparência é um deles. Sempre usámos a palavra para significar que víamos através do vidro, por exemplo ( se não estivesse mal lavado), mas tudo isso passou para a área dos escândalos políticos e financeiros onde, dizem, a transparência deve ser total para que tudo se veja de fora. E, como sabemos, as limpezas não estão a ser fáceis. Também há o Eco-responsável, termo que deriva do inglês “eco-friendly” que pretende significar muita coisa relacionada com a desfesa do ambiente mas que, na realidade, é mais “chic” que efetiva. Apesar de tudo, já há muitos  sacos e garrafas que não são de plástico e muita gente que já se preocupa em repartir o lixo por contentores diferentes. Mas a latitude do termo deixa muitas esperanças em suspenso. E no que respeita às comunicações temos o Tweet, por exemplo, que significa em inglês “pio”, “chilreio” e daí a imagem do passarinho azul que todo o mundo usa e de  que Trump fez a divulgação suprema. São mensagens curtas, limitadas a 280 carateres (outra de que não gosto…),  que determinam as grandes comunicações e ideias mundiais. Até em discursos públicos os amantes do tweet dizem frases sincopadas, sem fluidez, muitas vezes sem relação umas com as outras. Mas é um sistema imbatível. E chegou também a Uberização! Parece que o termo vem da palavra alemã “uber” (o u leva trema mas eu não posso pôr porque o computador já não tem) que significa “por cima”, “para lá de”. Foi por isso que se criou a gigantesca cadeia de carros guiados por condutores voluntários, servidos por uma plataforma e aplicação informáticas, com o objetivo (outra que me irrita…) de combaterem os grupos tradicionais de taxistas em todo o mundo. Das enormes polémicas suscitadas resultou a enorme melhoria das empresas de taxis e dos motoristas o que tem vindo a deixar a Uber em difícil situação financeira. E o Metoo? Surgiu nas redes sociais por um fenómeno liderado por mulheres em todo o mundo denunciando as violências sexuais e sexistas. A raiva, a violência das mulheres, principalmente americanas, levou a uma exaltação imensa contra todos os abusos que se tinham verificado, muitos deles há dezenas de anos antes. Foi assim que Weinstein foi parar à prisão e se suicidou. E o príncipe André parece que também tinha estado numas festas do Weinstein e apareceram agora uma “meninas”  a contar detalhes picantes de quando eram mais novinhas… Mas também surgiu a oposição ou moderação ao movimento (como se lhe queira chamar) liderado por Catherine Deneuve que defendeu que a “liberdade de importunar” é indispensável à “liberdade sexual”. Como havemos de nos entender? Mas o termo ficou. E veio também o Spoiler que não passa de um perseguidor às vezes simpático que quer “engatar” umas miudas… Desculpem a brejeirice mas o termo merece. Para nós latinos ibéricos a Remontada já é antiga, mas para muitos países a descoberta é recente. Cada vez que o nosso clube de futebol está a perder, ficamos sempre com a esperança que consiga fazer a “remontada”, ou seja dê a volta ao resultado. Com o meu clube isso acontece poucas vezes…  E há os “smartphones” que apareceram em 2007 nos nossos mercados e nunca mais nos largaram. Quem não tem um smartphone não existe…  e quem o atende fica imediatamente localizado. E muitos mais termos poderia aqui referir mas não é preciso. Toda a gente fala nos “Mileniuns”  (os que nasceram nos anos 1990) e que só conheceram a digitalização permanente.  E há os “Vegans”, as “Selfies”, os “Microplásticos” e, claro, a IA, a soberana Inteligência Artificial a que nenhum de nós escapa. Para não falar no  BoJo (o Boris Johnson de boa memória) ou no BoBo (como os franceses chamam ao Macron: burguês e boémio; carteira à direita e ideias à esquerda).

Quanto a tudo isto o  novo acordo não se pronuncia. E esta talvez seja uma realidade mais impactante (cá está outro termo novo) do que as atas, as fraturas, os bués e quejandos. Mas, enfim, isto sou eu a falar que já passei o prazo de validade mas que persisto em manter  a minha Resiliência até ao próximo acordo ortográfico.

 

 

 

 

 

 

 

 

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