NÃO SE MATAM GENERAIS

Os confrontos no Médio-Oriente, entre os Estados Unidos e o Irão, têm-se sempre limitado a situações de represálias económicas, ameaças militares não materializadas, ataques pontuais em zonas de menor importância e declarações efusivas mas, a maior parte das vezes e felizmente, inconsequentes. Mas eis que o Presidente Trump deu, na passada 5ª feira, ordem direta para que o general iraquiano Qasem Soleimani fosse assassinado. E a ordem cumpriu-se. O general era o comandante militar das tropas de elite do Irão, com grande prestígio no seu país, que reportava diretamente ao supremo dirigente teocrático, Ayatollah Ali Khamenei. Foi ele que criou, organizou e desenvolveu grande número de milícias Shi’itas para combaterem os exércitos rebeldes no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iemen. Soleimanei dominava o xadrez militar do médio oriente sobrepondo a sua imagem, perante o ocidente, às dos grandes chefes terroristas como Osama bin-Laden e Abu Bakr al-Baghdadi. Quando se eliminam terroristas com pátrias indefinidas o mundo vai acolhendo as notícias com alguma benevolência. Assassinar um general de um exército regular (esteja-se ou não de acordo com as suas políticas) é um crime encomendado, é um crime  de guerra. Os militares são feitos prisioneiros em ações militares, respondendo pelas suas ações em campanha.  Já Winston Churchill evocou este tema,  mesmo com a repulsa que  os seus inimigos nazis lhe causavam. Desta ação de Trump poderão resultar imprevisíveis consequências. Que aconteceria se um general americano fosse também assassinado? Regressamos aos malfadados tempos de Roma, ano 44 a.C., em que Júlio César foi assassinado por um grupo de senadores aristocratas comandados por Marco Júnio Bruto. (Também tu, Brutus!… )  Da guerra civil que então se iniciou surgiu o seu sobrinho-neto, Caio Otaviano, como imperador romano, 27 a.C. Passou a ser designado por Augusto e adotou o título de César. Em questões de infâmias a História repete-se. Mas Trump não será César, como talvez ambicione.

A sua atitude talvez venha dar razão às declarações proclamadas por diversos dirigentes europeus quando da última deslocação de Trump ao Reino Unido, por ocasião das comemorações dos 70 anos de constituição da NATO. Organização que ele reduziu à dimensão de “um grupo de rivalidades suburbanas”.  Nessa altura, em que se vivia uma época eleitoral na Grã-Bretanha, o candidato conservador nem sequer o cumprimentou para não comprometer a sua campanha dizendo: “a sua espantosa ignorância torna-o, com toda a franqueza, impreparado para o cargo de Presidente dos Estados Unidos”.  Ao falar da NATO, Trump propõe ou exige que todos os países paguem o que devem pagar à Organização. Neste aspeto talvez tenha razão e o tema pode ser discutido. Mas ao subvalorizar a NATO é bom que se saiba (ou que ele saiba melhor) que ela reune 29 países norte americanos e europeus, fundada em 1949, para socorrer qualquer dos seus países de ameaças exteriores. Claro que, na altura, as “ameaças exteriores” vinham da União Soviética, coisa que já não existe. A Europa ocidental e a própria NATO não tiveram o engenho de “seduzir” a Rússia para seu aliado e, por isso, as bizarras controvérsias políticas continuam.

Na comemoração dos 70 anos da NATO no princípio de Dezembro, em Londres, a Rainha patrocinou, em Buckingham Palace, uma reunião dos representantes de todos os países da Organização. Trump só chegou no fim,  depois de ter estado a tomar chá com o Príncipe Carlos e com a Duquesa da Cornualha. Ele sabia que a Rainha não se queria encontrar com ele e que o Duque de York também não estaria presente. Tudo isto antes da ordem para matar o general iraquiano.

 

 

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