Uma questão de tempo…!

Preencher o tempo que se repete todos os dias, quando não há variações de ambiente, nem novidades que quebrem, por vezes, a monotonia que se apodera de nós e nos faz andar em círculo, não é coisa fácil para quem gosta de ver a vida em colorido. E o mundo de hoje, impreparado para estes casos de confinamento e de distanciamento, mais nos faz aguçar o engenho de evasão. A leitura tornou-se, quase que um vício, bem enquadrada no silêncio que hoje se vive, sem o roncar de escapes de automóveis, ou o som assustador de um avião que se eleva nas nuvens, até atingir a sua rota de destino, como me habituei a ver, sentado no jardim, olhando para o céu e adivinhando qual o seu destino. Por vezes, em conversa, quase que afirmo que aquele vai para Londres, bem cingido ao Norte, ou ainda um outro que se dirige a Paris, talvez Koln, ou ainda Amsterdam. já tão em cima das mesmas rotas de vôo, a partir da zona onde me encontro.

E a leitura variada, que nos prende desde os primeiros parágrafos, vai-se esvaziando da curiosidade dos primeiros capítulos, quando outros assuntos se atravessam, corrompendo a concentração, já diluída pelo cansaço do mesmo de sempre. E hoje, numa reviravolta de pequenos hábitos adquiridos, decidi variar a rotina de leituras…! Isto é, adicionei um largo tempo a reestudar inglês e a sua pronuncia, muito british, como fazia nos meus bons tempos de jovem, através de um curso da National Schools – Los Angeles-Califórnia, em discos de 78 rotações, que acabaram no lixo, já partidos ou riscados pelo desiquilíbrio da grafonola. Um adicional, ao tempo que não íamos de férias para lado nenhum e ficavamos em casa, cortando a ociosidade de estar à espera que as horas passassem, para me encontrar com os amigos, numa esplanada da avenida Guerra Junqueiro. Era a Copacabana, quando não acabávamos no Vá-Vá, onde nos encontrávamos com outros amigos e discutíamos de tudo, em surdina, como era hábito em conversas de café…!

Como me tem sabido bem, ouvir aquele inglês bem aspirado, de Oxford ou de Cambridge, e que eu anseio discutir com as minhas netas, numa reaprendizagem, através dos discos ainda tão intactos, de O Inglês de Hoje, editado em 1968 pela Reader´s Digest e que durante bem mais de duas vintenas de anos, aguardavam uma sacudidela do pó acumulado, embora já sem a frescura da minha memoria, para tanta desenvoltura gramatical.

Ao abrir os livros deste curso, acompanhados pelos discos de 45 rotações, lembrei-me, como sempre ansiava pela minha vez, lá em casa, para ler os pequenos episódios. Pequenas histórias, talvez hoje, considerados um pouco ingénuas, para a locura que atravessa aquele grande país chamado EUA. E é interessante relembrar, como parte da nossa cultura, se baseou um pouco, naquilo que líamos nas Selecções da Reader´s, em edição brasileira, que possuo desde o número 1, tão cuidadosamente selccionados pelo meu pai. Sinto, como esta colecção, foi para mim e para todos lá em casa, um ponto de referência democrático, respirando mentalmente, uma liberdade que não tínhamos e apenas a imaginávamos em silêncio…!


3 pensamentos sobre “Uma questão de tempo…!

  1. Também ocupo parte do meu tempo a ler. Infelizmente a minha velocidade de leitura actualmente é baixa e portanto a fila de espera dos livros que tenciono ler vai aumentando…
    Sobre as Selecções, lembro-me perfeitamente que durante muitos anos circulou a edição brasileira. Mas era uma leitura muito apreciada

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  2. Caro Rui: se não tivesse escrito hoje este texto estou certo que eu faria coisa semelhante a curto prazo. Muito bom . O cansaço do isolamento acaba por nos marcar. Parabéns.

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