Conversas Imaginárias – 3

Regressamos  a mais uma Conversa Imaginária com uma personalidade portuguesa famosa. Depois de termos “entrevistado” o Almirante Pinheiro de Azevedo a 25 de Abril e o professor e poeta Rómulo de Carvalho no Dia Mundial da Língua Portuguesa, decidimos hoje falar com um cientista sem que haja, no entanto, qualquer data comemorativa em presença. É uma maneira simpática, embora rebuscada, de recordarmos pessoas que talvez não sejam devidamente conhecidas, muitas vezes até pela época em que viveram.

Lembro-me que em 1949, estava eu numa aula de Português do 3º ano do Liceu, o nosso professor ter passado um enorme raspanete a todos nós por não termos ligado nenhuma, ou não sabermos, de que na véspera um cientista português, Prof. Egas Moniz, havia ganho o Prémio Nobel da Medicina. Realmente ele tinha razão: nenhum de nós tinha dado por nada. Claro que tivemos que fazer um Trabalho de Casa sobre o renomado cientista. A partir daí nunca mais esqueci a personagem. Ao longo da vida fui relembrando muitas vezes as suas intervenções  até que, em 1989,  foi lançada a nota de 10.000 Escudos com a sua efígie. Não tive muitas dessas nas mãos mas lembro-me bem delas. Egas Moniz faleceu em 1955 mas uma “conversa” deste género não deixa de ser aliciante. Como de costume as minhas perguntas começarão com um P e as respostas, desta vez, começarão com EM.

P. –  Senhor Professor, muito obrigado por esta pequena conversa. Sem o querer incomodar muito e sabendo que nasceu em 1874, gostava de lhe perguntar como foi o seu percurso de estudos até à licenciatura e doutoramento.

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EM. –  A minha instrução primária foi tirada em Pardilhó, perto de Ovar, frequentei o liceu no Colégio de S. Fiel em Louriçal do Campo e acabei por entrar em Medicina na Faculdade de Coimbra.

P. –  Sempre com boas notas, calculo…

EM. –  Sim, sempre com notas bastante razoáveis…

P. –  Um assunto que me tem intrigado é o facto de ter nascido com o seu nome completo de António Caetano de Abreu Freira de Resende  e ficar conhecido por Egas Moniz. Porquê?

EM. –  Isso foi obra de um meu tio paterno e padrinho, padre Caetano de Pina Resende Abreu que insistiu em que eu devia adotar o apelido de Egas Moniz por estar convencido que a família Resende descendia, em linha direta, de Egas Moniz, o aio de D. Afonso Henriques. Enfim… assim foi… embora não veja ter havido grande necessidade.

P. –  Mas em Coimbra começou logo a sua carreira docente…

EM. –  Sim, quando acabei o curso fui contratado como professor substituto de Anatomia e Fisiologia. Só em em 1911 vim para a Universidade de Lisboa, que tinha sido criada nessa altura, onde fiquei como professor catedrático de neurologia.

P. – Se não se importa, Professor, fale-nos um pouco dos seus estudos que o conduziram ao Prémio Nobel, o primeiro Prémio Nobel português.

EM. –  Bom, de forma muito resumida, posso dizer-lhe que desenvolvi muitos estudos em torno da arteriografia cerebral, que comecei a praticar em 1927 e que me conduziu à leucotomia em 1935.

P. –  Parece ter havido algumas discussões entre os seus pares sobre a eficácia desses métodos…

EM. –  Sim, houve, mas sem razão. Eu praticava a leucotomia pré-frontal que, embora deixando, por vezes , algumas lesões limitadas foi muito confundida com a lobotomia que, essa sim, deixava lesões extensas e graves e que deixou de ser praticada em 1960.

P. –  Os seus trabalhos contínuos na sua área clínica suscitaram algumas vezes a atribuição do Prémio Nobel…

EM. –  Sim, fui proposto por 5 vezes para o Prémio Nobel na área da neurocirurgia, em 1928, 1933, 1937, 1944  e só em 1949 me foi atribuido o Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina que partilhei com o Fisiologista suiço, Dr. Walter Rudolf Hess.

P. –  Sim, lembro-me de em 1949 ter levado, eu os meus colegas do 3º ano do Liceu Passos Manuel, uma grande ensaboadela do professor de Português, Dr. Fonseca Junior, por termos ignorado esse feito. Tivemos que fazer um trabalho de casa sobre isso…

EM. – Era natural, a miudagem não lia jornais… Está perdoado…

P. –  Há uma história que relata um atentado de que foi alvo no seu consultório… É verdade?

EM. –  Sim, sim, é verdade. Os meus pacientes eram, de uma forma geral, mentalmente afetados, como se compreende,  e uma vez, em 1939,  um engº agrónomo de 28 anos, esquizofrénico,  alvejou-me com 8 tiros. Retiraram-me 5 balas mas ainda fiquei com uma alojada na coluna dorsal com a qual sempre vivi sem me deixar sequelas.  Mas tive alguns pacientes célebres: o Fernando Pessoa que era um neurasténico persistente mas que não era, propriamente,  doente mental. Tratou-se com sessões de ginástica sueca que lhe receitei.  Outro foi Mário Sá Carneiro… mas esse era esquizofrénico e apesar de estar aparentemente controlado não acabou bem…

P. –  Sei que se jubilou em 1944 mas que a sua atividade continuou…

EM. –  Sim, em 1950 criou-se no Hospital Júlio de Matos  um Centro de Estudos Neurológicos a que deram o meu nome, Egas Moniz, de que, aliás, fui o primeiro Presidente.  Ficaram por aí as minhas atividades de investigação.

P. –  Fale-nos um pouco da sua atividade política…

EM. –  Sim, também andei nisso. Muito brevemente: fundei o Partido Republicano Centrista que apoiou Sidónio Pais. Em 1917 fui designado Embaixador de Portugal em Madrid e em 1918 fui Ministro dos Negócios Estrangeiros. Acabei aí.

P. –  Mas teve uma forte atividade artística, como escritor e apreciador de pintura…

EM. –  Sim. Para além dos livros de natureza técnica que toda a vida publiquei, mais tarde envolvi-me em ensaios literários e escrevi, em 1924,  um livro de crítica chamado “Julio Diniz e a sua Obra” que ganhou fama pelo facto de, por ele,  ter demonstrado que as personagens de Julio Diniz dos seus livros “A Morgadinha dos Canaviais” e “As Pupilas do Senhor Reitor” foram inspiradas em figuras reais oriundas da zona de Ovar.  Quanto à pintura, é verdade, apreciei muitos artistas portugueses da minha época com muito destaque para José Malhoa e Carlos Reis dos quais constituí um bom acervo.

P. –  Não o quero maçar mais. Acho que esta breve resenha da sua vida vai ser muito útil para quem o conheça menos bem. Muito obrigado.

 

NOTA DO AUTOR:  O Centro de Investigação Egas Moniz foi transferido em 1957 para o Hospital de Santa Maria onde ainda se encontra.  Em 5 de Outubro de 1928 Egas Moniz foi distinguido com a Grã Cruz da Ordem da Benemerência e em 3 de Março de 1945 recebeu a Ordem Militar de Santiago e Espada, Mérito Científico, Literário e Artístico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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