Peripécias Algarvias

Em questões algarvias há, fundamentalmente, duas posições essenciais: ou se é do Algarve ou, não sendo, é-se apaixonado pelo Algarve. Não se pense que a diferença é pouca. O algarvio É mentalmente autónomo, nunca conseguiu nem conseguirá ser independente mas, bem lá no fundo, pensa como se o fosse. A serra do Caldeirão e as suas continuidades montanhosas (os nativos dessas zonas são conhecidos por “montanheiros”) foram sempre para eles, algarvios, uma muralha medieval. O algarvio é esperto e não gosta de ser enganado e, quando o é, reserva-se para um futuro desagravo.

O algarvio sabe que descende de coisas incertas, de romanos, de ciganos, da mourama e faz disso gala anunciada.  O sotavento algarvio, pelas zonas de Monte Gordo, foi invadido em tempos idos por árabes do Magrebe africano, com cabelo louro encaracolado e olhos azuis. Ficaram conhecidos por “cuícos” e ainda hoje os seus descendentes o são. Tornaram-se pescadores mas parte deles migrou, já na década de 50 do século passado, para a zona de barlavento, para os lados de Lagos, e aí se fixaram na Meia Praia. Os famosos “Índios da Meia Praia”. Quem quiser relembrar os tempos épicos das idas ao

image_F4333B85-0256-460F-A681-629FBEFFE5D0.IMG_1449

Algarve terá que se meter pela estrada antiga, a que atravessa a serra do Caldeirão que se desenrolava em 330 curvas rigorosamente contadas. Valia e vale a pena fazer esse trajeto nos primeiros meses da Primavera para que se possam ver os milhares de amendoeiras em flor, as tais que, segundo a lenda, foram mandadas plantar por um sultão de Silves para que a sua noiva nórdica, Gilda (a “Bela do Norte”), pudesse voltar a ver a paisagem branca das neves do seu país de origem.

O algarvio é um conversador nato e, muitas vezes, já depois das despedidas, as conversas continuam nas entradas das casas. Os algarvios são todos primos uns dos outros, conseguem sempre descobrir um antepassado que era primo da avó ou sobrinho ou primo de alguém com quem se relaciona. Isto tem a ver  com as tais famílias que se instalaram na região e por lá vieram a criar casas senhoriais que ainda se encontram, em abundância, por toda a parte. Não será por acaso que o Pacheco, o único dos três assassinos de Inês de Castro que se escapou (esperteza algarvia?…) vinha de família nobre de Moncarapacho e que deixou laços de descendência até aos nossos dias. As famílias mais abastadas do tempo da monarquia, não muito antes da implantação da República, eram conhecidas por se passearem em Faro e arredores de charrete puxada por avestruzes!…  O famoso Café Aliança, na baixa de Faro. ainda hoje existente, foi, durante muitos anos, o ponto principal de encontro dos proprietários, lavradores e rendeiros abastados que ali, às mesas, faziam os seus contratos de negociação agrícola. Foram-se por lá mantendo durante muitos anos até que a geração seguinte batizou o Aliança como “O Cemitério dos Elefantes”. Até no futebol o Algarve  não se deixou ficar para trás. A 1 de Abril de 1910, um grupo de amigos, jogadores de futebol, na sua grande maioria simpatizantes do Sporting, resolveram criar o Sporting Clube Farense, mais antiga filial do Sporting, tendo pedido, na altura, ao clube lisboeta uma fotografia com os equipamentos oficiais do clube. A foto foi-lhes enviada mas, naquela época, não havia fotografias a cor. É esta a razão pela qual o equipamento do Farense é preto e branco e não verde e branco , como lhe competia.  Dois anos depois apareceu o Olhanense e as rivalidades passaram a ser muitas e agressivas. As coisa do futebol já se inventaram há muitos anos…

Se na costa lisboeta o pequeno bivalve que se apanha e se come nas tascas ribeirinhas são chamadas de “cadelinhas”, no Algarve, na zona de sotavento (de Faro a Vila Real de Sto António) chamam-se “conquilhas”  e são temperadas de maneiras bem diferentes. Mas no barlavento algarvio (zona de Portimão e Lagos) o mesmo marisco já é conhecido por “condelipas”. Diz-se que esta designação decorre do tempo das invasões francesas, quando o Conde de Lippe se instalou na atual região de Lagos. Parece ter sido um apreciador fanático do pequeno bivalve, daí que o seu nome rapidamentede se adequou de Conde de Lippe para “condelipas”.

O Algarve tem sido origem de figuras notáveis na vida portuguesa, em todas as áreas, social, artística, política. Já houve três Presidentes da República  algarvios: Teixeira Gomes, nascido em Portimão, de  1923 a 1925;  Almirante Mendes Cabeçadas, nascido em S. Clemente/Loulé, em 1926; Aníbal Cavaco Silva, nascido em Boliqueime/Loulé, de 2006 a 2016. Em Vila Real viveram duas figuras importantes das artes portuguesas: António Aleixo e Manuel Cabanas. Aleixo era cauteleiro, guardador de rebanhos e cantor popular de feira em feira. Embora não totalmente analfabeto não escrevia com correção a beleza e a expressão da sua poesia. Os seus textos foram revistos e apurados pelo professor do Liceu de Faro, Joaquim Magalhães, e deu origem a um belo livro que recebeu o nome de “Este Livro Que Vos Deixo”. Tem uma pequena estátua numa rotunda em Vila Real de Sto António que o relembra para a posteridade.

Manuel Cabanas foi um mestre em xilogravura, autodidata e republicano, membro fundador do Partido Socialista. Nasceu em Vila Nova de Cacela e faleceu em Faro em 1995. Trabalhou no Barreiro nos Caminhos de Ferro mas dedicou toda a sua vida à arte da xilogravura. Muitas cenas típicas da vida algarvia foram por si representadas em quadros xilogravados, com grande realce para as cenas de copejo de atum, arte de pesca que teve grande importância nos mares algarvios. Ingressou na política por convite do Almirante Mendes Cabeçadas tornando-se, posteriormente, um importante ativista de oposição à ditadura. Existe em Vila Real uma Casa Museu da obra de Manuel Cabanas e em Vila Nova de Cacela um busto seu.

O desfile naval de 1960, quando das Comemorações Henriquinas, que celebraram os 500 anos da morte do Infante D. Henrique, teve um episódio interessante, não repetido até hoje, quando o Comandante da Sagres, fundeada na baía de Lagos, resolveu navegar até à baía de Monte Gordo onde fundeou. Um zebro (barco de desembarque militar) foi até à praia com um pequeno destacamento tendo a população e os muitos venareantes aplaudido longamente o belo Navio Escola.

As peripécias algarvias são inúmeras mas aqui ficam algumas para abrir o apetite dos nossos amigos leitores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4 pensamentos sobre “Peripécias Algarvias

  1. Muito interessantes os detalhes que contas do Algarve e da sua gente. Mas entre os algarvios ilustres existe um outro pelo qual tenho grande admiração : O Eng. Duarte Pacheco. Foi Ministro da Obras Públicas em 2 governos de Oliveira Salazar, Presidente da C. M. Lisboa, Director do IST e um exemplo de dedicação à causa pública. Entre as numerosas obras públicas que promoveu, a que mais aprecio é o complexo de edifícios que constitui o Instituto Superior Técnico. Morreu em serviço, num desastre de automóvel quando regressava a Lisboa para um Conselho de Ministros depois de visitar uma obra no Alentejo. Era o amparo de 2 irmãs solteiras e foi necessário uma resolução especial das autoridades para as senhoras terem direito a uma pensão de sobrevivência. Tem uma estátua numa praça da cidade de Loulé.

    Liked by 1 person

  2. É verdade…! Sendo ainda um apaixonado das minhas Beiras ( Litoral ), respirando, ainda que de memoria, os bons ares da baixa do Mondego, desde a Lousã até à Figueira da Foz, não posso deixar de concordar com os atractivos das terras algarvias. ..! Aquela forma de falar, tão caracteristica, a simplicidade que nos prende ao primeiro contacto e tanta coisa que nos encanta, desde a paisagem serrana, salpicada de casario branco, até ao azul do mar sereno, tudo nos faz esquecer o que tinhamos visto antes ! Magia ? Talvez, o cheiro quente da alfarrobeira e da esteva. Da flor da amendoeira, misturadas com o ar fresco da beira mar…! E fico-me por aqui, para não ter que dizer, que uma moira encantada…!

    Liked by 1 person

  3. Com raízes familiares seculares no Algarve saúdo o texto ! Muita gente pensa que ali só há praias.

    Tenho viva memória do tempo passado em casa da minha Avó e Tias no puro e duro barrocal. Ali há 40 anos morreu o meu Pai.

    Em 1953, Setembro, voltando para Lisboa, sobrevivi a um desastre ferroviário em plena Serra. Dezenas de mortos e dezenas de feridos.
    Tanto tempo passado mas nunca esquecido.
    Por aqui me fico…

    Liked by 1 person

Deixe um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s