OS PERECÍVEIS

Nada melhor que os termos de supermercado para nos irmos adaptando às novas e fantásticas realidades. O perecível é o condenado a prazo, que tem prazo de validade, que se estragará dentro de pouco tempo e que, a partir daí, não vai servir para nada. E julgo que os primeiros a incluirem o termo no seu dialeto diário terão sido os suecos, os tais frugais por excelência. Com a chegada da pandemia olharam à volta, consultaram os seus sábios mais avisados e resolveram deixar a rapaziada à solta, sem constrangimentos de máscaras ou confinamentos, alegando que os imunes tratariam da saúde dos restantes ao evitarem posteriores contaminações. É claro que o virus e a vida nem sempre pensam como os suecos e a contaminação alastrou rapidamente, atingindo e eliminando os mais débeis, os mais dependentes de apoios sociais, os mais velhos, os tais perecíveis. Foi uma limpeza que deve ter aliviado substancialmente a segurança social dos frugais. Ficaram os mais novos, a olhar uns para os outros, possivelmente a fazer mais do que olhar… Apesar de inteligentes como julgam que são, foram estimulados a usar máscaras, a criarem distanciamentos sociais o que vai, evidentemente, contra as regras do amor livre que inventaram na década de 60 do século passado. E continuaram a falar mal dos sulistas europeus, os tais que gastavam dinheiro em “vinho tinto e em meninas”, esquecendo-se que muitas dessas meninas eram suecas que vinham para o nosso sul procurar as delícias que lhes proporcionavam os tais morenos mediterrânicos. Claro que só mais tarde vieram a perceber que nessas matérias de amor livre acabariam por vir a aprender muita coisa com a rapaziada do sul.

Este aspeto brejeiro do problema não nos faz esquecer as técnicas erradas no combate à pandemia adoptadas pelos suecos e por outros países no nosso e em outros continentes. O mundo da ciência já veio condenar o não seguimento dos avisos cautelares que tinham sido, aos poucos, difundidos por todo o mundo. O globo está longe de se livrar deste terrível flagelo mas as mortes que todos os dias se verificam abrangem faixas etárias diversas com predomínio, naturalmente, dos idosos que correm, por natureza, mais riscos que os mais novos. Mas o certo é que não houve displicência objetiva que contribuisse, sem apelo nem agravo, para o desaparecimento dos “perecíveis”. Quando o próprio Rei da Suécia vai à televisão informar o seu povo de que as coisas não correram bem, é sinal que a estratégia não correu mesmo nada bem. Talvez este assomo de criatividade nórdica os tenha alertado para a sua normalidade como povo e como pessoas. Os povos, como nos diz a História, aprendem muitas vezes com os seus próprios erros.

Saindo deste tema da pandemia é bom que nos lembremos, nesta época natalícia, dos milhares de cristãos do oriente médio, em especial os do Iraque, da Síria e do Líbano que viram, devastadas pelas guerras tremendas nas suas terras, as suas igrejas, capelas ou catedrais. Rezam nas ruas, famílias ou partes delas, sobre destroços, esperando pelos apoios alimentares que as organizações internacionais se esforçam em lhes fazer chegar. As guerras fizeram deles “perecíveis”. O Papa Francisco implora “para que a presença cristã no Iraque e no Irão continue a ser o que sempre tem sido: um sinal de paz, de progresso, de desenvolvimento e de reconciliação entre as pessoas e os povos.”

Seria fundamental que o respeito entre as pessoas, os povos, as religiões e as culturas se universalizassem no ano que se aproxima. Utópico!!!

Desejo que passem o melhor Natal possível e que tenham um Novo Ano bem mais fácil que o 2020.

Um pensamento sobre “OS PERECÍVEIS

  1. O problema é que somos todos perecíveis.
    Às vezes tenho o pensamento pessimista de que a Humanidade pouco mudou : o que mudou foi a maneira de fazermos mal, sobretudo de nos matarmos, uns aos outros!
    Mas pode se que não. Pode ser que o meu pensamento esteja redondamente enganado

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